Seria uma noite como todas as outras em uma casa de mornas rotinas. Nada nunca de novo, nem para o bem nem para o mal. O que mais desesperava a menina era que a família parecia adorar a rotina, os dias sempre iguais, enquanto ela sonhava com o dia em que um crocodilo iria aparecer socando o rabo na porta da sala, todos abririam e o convidariam para jantar. Claro que o pensamento era mórbido porque o jantar do bicho seria a própria família, mas isso a menina descobriu só depois de imaginar a insólita visita.

De tanto esperar por alguma coisa diferente surgindo no cenário de uma vida sem aparições, uma noite veio o inesperado: na parede do quarto da menina, bem no alto, uma aranha gigantesca e peluda se movia lentamente. A menina deu um berro imenso, o que imediatamente convocou todos na casa para a prontidão. Ninguém teve coragem de agir, a não ser a senhora que trabalhava na casa, Maria, a mesma com quem a menina adorava trocar conversas sobre o passado dela em uma pequena cidade do Ceará.

De tanto enfrentar tragédias, Maria se tornou forte a ponto de não se acovardar diante de uma simples aranha.

Pegou um cabo de vassoura e conseguiu derrubar o bicho e estraçalhá-lo com o chinelo. Nem lhe ocorreu poupar o bicho que, afinal, ainda não tinha feito nada. Maria sabia do que ela era capaz. Já havia domado antigas aparições.

Para alívio de todos, a família logo depois pôde voltar à morna rotina dos dias comuns e todos teriam assunto para uma eternidade. Era o modo de viver fingindo emoção.

A menina voltou ao desenho. Mãe, pai e irmão já dormiam, como sempre. Ela era a última. Só tinha sono de madrugada. Ficava horas inventando realidades absurdas para fugir daquela vidinha comum. O que mais a desesperava era que ninguém ali fazia o menor esforço para que uma pequena loucura, mesmo bem miúda, desconstruísse os dias.

No desenho, uma aranha gigante, maior do que os móveis, tomava conta do quarto. Era a verdade inventada, que, na imaginação, acontecia.

CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
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Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.