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Publicado em: 21 de fevereiro de 2021

Uma longa conversa no corredor interminável

Difícil explicar aversões – ainda mais quando se tem 8 anos.

Imagem: DGLimages/iStock

Era então o segundo ano do Ensino Fundamental, a menina tinha por volta de 8 anos. O colégio era do tamanho do mundo. Ela só conhecia algumas poucas cidades do país, e o colégio representava o mundo mesmo – era imenso para seus braços estreitos, nunca foi capaz de percorrer andando toda a vastidão. Havia corredores intermináveis, salas que pareciam labirintos, umas dentro das outras, e até uma quase montanha cravada dentro do recreio. Foi no meio de um destes corredores intermináveis que a professora de português resolveu chamar a menina para uma conversa séria.

Justamente no dia em que carregava quatro pastas grossas com todas as atividades do mês – duas em cada braço. Foi naquele dia que a professora resolveu deixá-la de pé, parada de frente para o rosto da pessoa que ela detestava, sendo humilhada por um colégio inteiro. Todos foram embora, e a menina ali, parada, ouvindo uma conversa que prometia ser longa. A menina tinha pela professora uma aversão inexplicável. Difícil explicar aversões, ainda mais quando se tem 8 anos e tudo o que se deseja da vida é que as aulas voem para chegar logo a hora do cachorro-quente do recreio.

A menina silenciosa não sabia o que iria acontecer.

O que ela tinha feito de tão errado? Logo percebeu que talvez o erro tivesse sido descoberto – o grande descuido foi deixar a professora perceber o quanto ela detestava olhar para aquele rosto enquanto ouvia as aulas da sua matéria preferida. E talvez viesse daí o ódio maior: ela precisava atravessar aquele rosto, não podia se esquivar dele, porque era da matéria que ela mais gostava. Tinha também medo de vir a não gostar mais de português só porque não suportava a imagem da professora, a voz, os pés, as mãos, a presença inteira.

E era a presença inteira odiada que estava ali na frente dela por um tempo estendido além da aula – uma conversa tão interminável quanto o corredor da tortura. Demorou tanto que, quando finalmente a menina foi liberada, a mãe estava lá fora à espera, preocupada. A menina não conseguiu dizer a verdade sobre o atraso e inventou alguma coisa referente às tais pastas.

Voltou para a casa sem ter ideia do que a mulher tinha dito.

Foram longos minutos de um discurso do qual só foi entendida uma frase: “Eu sei que você não gosta de mim.”

Naquele dia, a menina havia recebido uma prova da matéria – nota máxima. Então, por que a conversa sem sentido já que, apesar de realmente não gostar da pessoa, ela conseguia tirar nota boa?  Por que falar tanto com uma criança de 8 anos que não seria capaz de assimilar nem a metade do que foi dito?

A menina voltou para a casa com a cabeça cheia de palavras que não conseguia absorver. Não havia prestado atenção na conversa. Atravessar aquele rosto só mesmo para entender a matéria favorita.

Não, afeto não se conquista com palavras demais… Alguém precisava ensinar a professora essa lição. A partir daquele dia a menina detestou ainda mais a professora. Por sorte conseguiu manter intacto seu amor pela matéria.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
Claudia Nina
Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.

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