Era Natal e, entre as obrigações do momento, estava a sempre adiada visita ao pai, que passava grande parte do tempo na cama, olhando para o teto, e uma pequena parte sentado no sofá, olhando para a parede.

Diante de qualquer audiência, que poderia ser a mulher ou a cuidadora ou o porteiro ou o encanador, ele trocava o silêncio pelas queixas da saúde – a cabeça doía, as pernas, os olhos, o coração. A fala era lenta, gaga e sem rumo, o que exigia do ouvinte uma espécie de devoção ou uma rara capacidade de sumir em pensamento.

Ela não tinha devoção.

Mas desenvolvera a capacidade de sumir mentalmente para evitar o desconforto de ficar horas a fio ouvindo a mesma história que começava com as dores de cabeça e nunca terminava, a não ser que ela se levantasse. Aí ele dizia: “Tchau, minha querida filha, estou mal.”

Ela não dizia nada. Todos os remédios do mundo foram prescritos sem nenhum aparente resultado positivo. Não havia o que fazer nem dizer.

Naquele Natal, estava ela pronta para mais uma visita-martírio. Foi ao quarto do pai, percorrendo o corredor apressadamente, para que aquilo acabasse logo, o tempo rodasse com mais vontade e ela pudesse sumir em corpo. Sentou-se ao pé da cama e, como sempre, ele começou a mesma história, que tinha a dor de cabeça como ponto de partida.

Para onde ela iria no sumiço mental que providenciava para si mesma?

Voltou à infância e deu de cara com o pai sentado à mesa na hora do almoço de domingo. A mãe tinha feito carne assada com batata. Tinha salada de maionese e refrigerante. Diante daquela mesa aprumada, o pai, para desagrado da família faminta, colocou um naco na boca e cuspiu: “Essa carne tá com gosto de carne.”

Em um lapso de minutos, ela retornou, em redemoinho, ao pé da cama – “Mal consigo comer, estou emagrecendo porque não consigo comer” – dizia o pai.

Em seguida, voltou mais uma vez à mesa de domingo, onde a mãe, triste, trancava-se em silêncio porque não há o que dizer para quem cospe a comida. Era como se cuspisse em cima dela, vomitasse o casamento longamente suportado por ambos.

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Ela continuou com as idas e vindas, passado e presente, como a estrutura de um DNA – um mesmo movimento os unia, não havia como dissociá-los e, portanto, não conseguia ter pena daquele homem. Ele que, durante um bom tempo de sua existência saudável, viveu como se não precisasse ser educado, amigo ou generoso. Bastava ser ele.

Depois de várias idas e vindas, ela consultou o relógio e viu que já poderia se levantar. Tinha cumprido a sentença da tarde.

 – Tchau, pai, fica bem.

 – Tchau, minha querida filha, estou mal.

A vida, ela pensou, tinha mesmo a forma de um DNA.

POR CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br

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Claudia Nina
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Toda a minha ficção tem um pouco de confissão – pessoal ou da vida alheia. Acho que eu trouxe do jornalismo essa mania de tomar conta do mundo e, de alguma forma, transformar em texto o reflexo deste mundo em mim. Tenho 13 livros publicados – do romance ao infantil, passando pelo conto e os ensaios. Acho que só falta a poesia, mas esta eu fico devendo.