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Publicado em: 27 de agosto de 2020

Estudo aponta famílias mais afetadas com a pandemia

Pesquisa analisou a renda, alimentação e educação dessas famílias. Dados mostram que as regiões mais afetadas foram Norte e Nordeste

Imagem: Big Joe/iStock

As famílias com crianças e adolescentes foram as mais impactadas pela pandemia. Dados da pesquisa Ibope encomendada pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), explicam o por quê.

O agravamento da situação de vulnerabilidade desses domicílios exige políticas públicas que levem em conta renda. Bem como as dimensões de alimentação e educação, entre outras, defende a organização.

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Diminuição ou perda de renda teve maior impacto em algumas famílias

(Imagem: Macniack/iStock)

A pesquisa foi feita via entrevistas por telefone com 1.516 pessoas entre 3 e 18 de julho. Segundo os dados, os domicílios com residentes de até 17 anos reportam mais perda de trabalho com a pandemia. Foram 21% contra 14% daqueles em que não há pessoas nessa faixa etária.

A redução da renda também foi mais frequente e mais profunda entre essas famílias. O percentual dos que relatam diminuição de recursos desde o Carnaval é de 63% nesses domicílios. Já naqueles sem crianças e adolescentes esse número cai para 50%.

As principais causas dessa queda foram a redução de salário de um dos membros da família e a redução das horas trabalhadas (61% em ambos os casos). Essas também são as principais causas apontadas por domicílios sem crianças e adolescentes que tiveram perda de renda, mas os percentuais são inferiores: 55% e 47%.

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A impossibilidade de um membro da família trabalhar, por razões como falta de transporte ou por estar doente, é um dos motivos da perda de renda para mais de um quarto das famílias com menores de 17 anos (29%). Naquelas sem, o percentual é de 18%.

Somados, esses fatores levaram 10% das famílias com crianças e adolescentes a perderem mais da metade da renda, e outras 25% a perderem metade. Nas famílias com membros apenas adultos, os percentuais foram de 9% e 14%, respectivamente.

Famílias com crianças e adolescentes são maiores beneficiários do auxílio emergencial

A maior vulnerabilidade das famílias com crianças e adolescentes se refletiu em uma taxa maior de beneficiários do auxílio emergencial: 52% contra 42%. De acordo com a pesquisa, benefícios sociais do governo federal, estadual e municipal são a principal fonte de renda dessas famílias. Também contribuem para a renda a aposentadoria e pensão.

"O auxílio emergencial é um instrumento importante para combater esse quadro, mas é preciso ajustar os programas sociais para que sejam focalizados nas famílias com crianças e adolescentes", avalia Liliana Chopitea, chefe da área de políticas sociais, monitoramento e avaliação do Unicef no Brasil.

Questionada sobre a proposta do governo federal de concentrar diversos benefícios em um único programa, o Renda Brasil, Chopitea afirma ainda ser necessário um detalhamento melhor do programa – a apresentação, programada para esta terça (25) foi suspensa após impasse dentro da equipe do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) quanto às medidas.

"Quando falamos de pobreza infantil temos que ver a multidimensionalidade da situação. Vamos ter muitos desafios daqui para frente em termos de segurança alimentar e educação em que é preciso olhar para além de programas de renda apenas. Esperamos que esse pacote [que o governo deve anunciar] tenha em conta esses desafios", afirma.

Alimentação dessas famílias também sofreu mudanças

Uma prato vazio
(Imagem: Francisco Emilio Duran/ iStock)

O levantamento também mapeou os efeitos da pandemia sobre a alimentação das famílias. Foram observados resultados semelhantes aos encontrados quanto a emprego e renda: 27% dos domicílios com residentes de até 17 anos relatam que houve momentos em que a comida acabou e não havia dinheiro para reposição. O percentual que cai para 17% quando considerados apenas domicílios compostos por adultos.

Quando questionados se a família chegou a pular uma refeição por falta de dinheiro – um agravamento do quadro anterior – as taxas ficam abaixo dos 10%. No entanto, mesmo com a baixa, seguem refletindo a desigualdade entre os domicílios: 8% daqueles com crianças e adolescentes passaram pela situação, o dobro dos sem residentes nessa faixa etária.

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Para além da fome, o Unicef também considera preocupante o aumento do consumo de alimentos industrializados observado em quase um quarto da população de modo geral. Mais uma vez, o problema é pior entre as famílias com crianças (31%) do que entre as sem (18%).

O aumento do consumo de fast food e bebidas açucaradas também foi mais comum nesses domicílios (20% e 19%, respectivamente) do que nos demais, em que as taxas observadas foram de 14% e 15%.

"Isso tem um impacto sobre o excesso de peso. O que vemos nessa pesquisa é que a Covid-19 pode agravar a epidemia de obesidade entre crianças e adolescentes.", diz Cristina Albuquerque, chefe de saúde do Unicef no Brasil.

Regiões norte e nordeste são as mais afetadas

Considerando o recorte geográfico, a pesquisa observou um impacto maior nas regiões Norte e Nordeste. Já no recorte de renda, o impacto foi nos estratos de renda C, D e E, reforçando o quadro já apontado por outros levantamentos.

Criança estudando com auxílio da mãe
(Imagem: Drazen Zigic/iStock)

Por outro lado, um resultado positivo encontrado pela pesquisa foi a continuidade das atividades escolares durante a pandemia de crianças e adolescentes. Entre as famílias com membros entre 4 e 17 anos que estavam matriculados, 91% seguiu ativo. Ítalo Dutra, chefe de educação da organização afirma que o índice surpreendeu o Unicef.

"A questão agora é entender a qualidade dessa frequência de atividade", avalia. Um problema já observado é a desigualdade entre o ensino público e o privado – enquanto quase 100% dos matriculados em escolas particulares realizam atividades pela internet, o percentual cai para 81% entre aqueles na rede pública.

FERNANDA PERRIN || FOLHAPRESS

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