Quão perigosas são as novas mutações do Coronavírus?

Novas mutações de coronavírus estão circulando e aumentando os casos de infecção. Médicos americanos falam sobre cada uma.

Louise Cyrillo | 4 de Fevereiro de 2021 às 15:00

Jubjang/Rapixel -

Assim como outros vírus, o Covid-19 sofreu mutações ao longo do tempo. As mutações são chamadas de variantes ou cepas. Assim que duas vacinas contra o Covid-19 (Pfizer-BioNTech e Moderna) foram lançadas nos Estados Unidos, relatórios de novas mutações do vírus começaram a aparecer nas manchetes.

Primeiro, foi a cepa do Reino Unido (conhecida como B.1.1.7). Depois veio a cepa da África do Sul (1.351). E agora também há a cepa do Brasil (P.1). Elas provavelmente serão sucedidas por outras.

O quanto devemos nos preocupar com essas novas cepas? As vacinas serão efetivas?

“Todas as cepas parecem compartilhar a característica de serem mais fáceis de se espalhar”, explica Dan Jones, vice-presidente da divisão de patologia molecular do Centro Médico Wexner da Universidade do Estado de Ohio, dos EUA. “No decorrer de algumas semanas, essas cepas passaram de indetectáveis a responsáveis por 20 a 50% da atividade do vírus que estamos observando”, continua.

E elas estão se espalhando ao mesmo tempo. “Não é bom ter essa quantidade de vírus diferentes na população enquanto tentamos dar um fim à pandemia”, afirma Dr. Jones.

Entendendo a replicação do vírus

créditos: Sarita Rungsakorn /Rawpixel

Todos os vírus se transformam por meio de mutações genéticas. Os vírus de RNA, como o Covid-19, fazem isso mais facilmente do que os vírus de DNA. No entanto, a maioria dessas mutações não causa novas cepas da doença.

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“Mutações ocorrem todos os dias”, afirma Stuart Ray, professor de medicina no departamento de doenças infecciosas da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, EUA. “O vírus comete erros sempre que se copia. Mas a maioria dessas mudanças não são vantajosas para ele”. Em outras palavras, o vírus não é sortudo o suficiente para entrar nas células e causar infecção.

O coronavírus consegue entrar nas células por meio de mutações na espícula de sua superfície. Essas espículas se ligam à enzima conversora de angiotensina 2. Imagine uma chave sendo inserida em uma fechadura. 

Alguma dessas novas cepas é mais letal do que a original? Ainda não se sabe ao certo.

“Mas mesmo que sejam iguais ou menos virulentos, muito mais pessoas morrerão apenas por conta dos números”, comenta Dr. Jones. “Veremos mais mortes, mesmo que a gravidade não seja diferente, por causa de como essas novas cepas são transmissíveis”.

Isso também significa aumento nas hospitalizações e sobrecarga dos sistemas de saúde.

Shawn Nasseri, especialista em ouvido, nariz e garganta, explica: “Se eu espirrar em uma sala e tiver a variante do Reino Unido, duas a três vezes mais pessoas serão infectadas do que se eu tivesse o variante comum ou original”.

Parece haver algumas semelhanças entre as novas cepas, mas há também diferenças. É importante ressaltar que existem muitas, muitas incógnitas.

Confira o que os especialistas sabem até o momento:

créditos: Sora Shimazaki/Pexels

Cepa do Reino Unido

Espalha-se mais rápido? Sim

É mais letal? Provavelmente não

Há risco de reinfecção? Sim

As vacinas disponíveis protegem contra? Provavelmente

Está no Brasil? Sim

Esta cepa é conhecida há mais tempo, portanto os pesquisadores sabem mais sobre ela. Até o momento, não há evidências de que cause doenças mais graves ou aumente o risco de morte, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos. Os primeiros casos confirmados no Brasil aconteceram no final de 2020.

Cepa da África do Sul

Espalhe-se mais rápido? Sim

É mais letal? Provavelmente não

Há risco de reinfecção? Sim

As vacinas disponíveis protegem contra? Provavelmente sim

Está no Brasil? Sim

Há evidências que sugerem que esta cepa pode ser mais resistente às vacinas e mais propensa a reinfectar pessoas. Em um estudo divulgado em janeiro, pré-publicado no bioRvix, os pesquisadores analisaram o sangue de pessoas que se recuperaram da Covid-19 e descobriram que essa cepa era resistente a anticorpos neutralizantes de infecções anteriores.

“Os anticorpos das pessoas foram menos eficazes em neutralizar o vírus”, alega o Dr. Ray. Mas “não sabemos se os níveis de anticorpos abaixam o suficiente para permitir que o vírus volte”. Existem também outros componentes do sistema imunológico que desempenham um papel na nossa defesa contra infecções.

Cepa do Brasil

Espalha-se mais rápido? Sim

É mais letal? Ainda não se sabe

Há risco de reinfecção? Sim

As vacinas disponíveis protegem contra? Desconhecido

Esta mutação é preocupante, de acordo com o Dr. Nasseri. “Existem tantas mutações na proteína Spike que ela pode não ser receptiva às vacinas”, esclarece. “Pode haver uma mutação de escape”.

A variante foi encontrada inicialmente no Amazonas. Dr. Ray acrescenta que essa cepa parece ser especialmente capaz de reinfecção. “A preocupação é que ela seja mais capaz de causar reinfecções do que outras variantes”, indica o médico. “Mas ainda não temos evidências convincentes disso”.

Novas cepas Covid-19 e vacinas disponíveis

créditos: Nataliya Vaitkevich/Pexels

Ninguém pode dizer com certeza se as vacinas disponíveis serão eficazes contra as cepas novas ou emergentes de Covid-19. Parece provável, entretanto, que as vacinas Moderna e Pfizer-BioNTech ofereçam alguma proteção contra as cepas do Reino Unido e da África do Sul.

“Ainda não temos os dados sobre as vacinas, mas todas elas têm como alvo a mesma proteína Spike do vírus, na qual ocorre a maioria das mutações”, Dr. Jones relata. A Moderna está trabalhando em um reforço para a variante da África do Sul – só para garantir.

Uma analogia pode ser feita com a vacina contra a gripe. “A cada ano, a vacina contra a gripe atinge em média cerca de 40% em termos de eficácia, pois é uma espécie de jogo de adivinhação prever quais cepas vão circular”, explica o Dr. Nasseri. (Uma vacina contra a gripe é considerada eficaz se reduzir as hospitalizações e as mortes relacionadas com a gripe.)

“Existem outras cepas da gripe que se infiltram ou sofrem mutações o suficiente para que os anticorpos da vacina não as neutralizem de verdade”, comenta. “A boa notícia é que estamos começando com uma taxa de sucesso percentual muito alta com as vacinas Covid-19, então, mesmo que perdessem alguma eficácia, ainda teríamos proteção”.

Possibilidade de modificar vacinas no futuro

Imagem: Ca-ssis

As vacinas podem ter de ser modificadas no futuro, explica Len Horovitz, especialista em pulmão do Hospital Lenox Hill em Nova York. “Pode ocorrer por causa de novas cepas ou porque as vacinas serão dadas anualmente, muito parecido com a vacina contra a gripe”.

As vacinas Covid-19 são um tipo totalmente novo de vacina conhecida como vacinas de mRNA. Elas funcionam de forma diferente de outros tipos em que um germe enfraquecido é injetado em seu corpo e desencadeia uma resposta imunológica. As vacinas de mRNA, por sua vez, ensinam suas células a fazer uma proteína que desencadeia uma resposta imunológica.

Elas podem ser fabricadas rapidamente, garante o Dr. Ray. “Se precisarmos reequipar, será possível”.

Uma melhor vigilância ajudará os especialistas a controlar o que essas novas cepas de coronavírus são ou não capazes de fazer. “Precisamos fazer um trabalho melhor de sequenciamento do vírus em nível nacional para que tenhamos dados suficientes para saber se novas variantes estão mudando a epidemiologia do vírus”, defende o Dr. Ray.

Dr. Jones concorda: “Este é o momento de aumentar a vigilância em todo o mundo, para que possamos detectar essas áreas potenciais onde o vírus está se desenvolvendo, ir lá e revacinar se necessário”.

A última palavra

Os especialistas concordam que a melhor defesa contra a Covid-19 é usar máscara, praticar o distanciamento social e vacinar-se. “Nunca é tarde demais”, afirma o Dr. Jones. “Ainda podemos obter controle aumentando a vacinação”.

Há um lado bom nessa preocupação geral acerca das novas cepas, acrescenta o Dr. Ray. “Se gera um pouco mais de medo funcional e faz com que as pessoas tomem as precauções que sabemos funcionar para todas as cepas, é bom”,  discorre. “Se encorajar as pessoas a tomarem a vacina, também é bom”.

Por Denise Mann, publicado originalmente em The Healthy