Acompanhe uma jornada pela Islândia e a descoberta de que, para a populução local, as piscinas representam muito mais do que locais de lazer:

 

Em Reykjavik, num dia frígido de fevereiro, eu estava de peito nu, todo molhado, à porta do vestiário da piscina de Vesturbaejarlaug, diante de uma longa e fria caminhada até a piscina quente ao ar livre. Meu anfitrião era estoico, forte, um viking. Eu gemia.

– Não quero ir lá fora – eu disse. – Como você se obriga a isso?

– É preciso, para poder nadar na piscina – disse Valdimar Hafstein, dando de ombros. Ele é folclorista da Universidade da Islândia e estuda as piscinas do país. – As crianças também detestam. Tenho de levar meus filhos no colo, aos gritos e se debatendo.

Inspirei fundo. Vestido apenas com um calção de banho Speedo – levei três, em homenagem à fama que a ilha tem de ser um dos melhores mercados da empresa –, pisei no deque. Estava alguns graus abaixo de zero.

Imagine a sensação de segurar um cubo de gelo com força, aquela combinação de dor e ardência, mas no corpo inteiro. Contra meu instinto de nunca correr para a piscina, adotei um tipo de trote rápido rumo ao maior conjunto de piscinas quentes interligadas no centro do complexo. Tenho certeza de que estava ridículo. O bom é que nunca me preocupei tão pouco com minha aparência, mesmo estando quase nu em público.

Os Banhos Naturais Mývatn situam-se numa reserva natural.

Floquinhos de neve cintilavam no céu, que, às quatro da tarde, já se aproximava do crepúsculo. Cheguei à maior das piscinas quentes e mergulhei até o queixo. Por um momento glorioso, senti a mente se esvaziar: só havia meu corpo envolto em calor, e o vento frio nas orelhas só aumentava o prazer. Atrás de mim, Valdimar andava pelo deque para cumprimentar um vizinho em outra piscina quente.

Todas as cidades islandesas, por menores que sejam, têm uma piscina.

Há retângulos de cimento rústicos sob nuvens de chuva nos campos com ovelhas espalhadas. Há elegantes complexos aquáticos com piscinas quentes em vários níveis e toboáguas incríveis. No total, existem mais de 120 piscinas públicas – geralmente com aquecimento geotérmico, a maior parte delas ao ar livre, abertas o ano inteiro – na Islândia, país com pouco mais de 350 mil habitantes.

“Se não houver uma piscina, provavelmente nem é uma cidade”, disse-me Dagur Eggertsson, prefeito de Reykjavik. É claro que o entrevistei enquanto relaxávamos numa piscina quente no centro da cidade.

Essas piscinas públicas ou sundlaugar (plural de sundlaug) são o coração comunitário da Islândia; lugares sagrados cuja acessibilidade e onipresença são consideradas um tipo de direito civil. Famílias, adolescentes e idosos descansam e conversam todo dia na sundlaug, no verão ou no inverno. Apesar do clima do país, de seu isolamento e dos invernos com noites de 19 horas, a população é uma das mais contentes do mundo.

À medida que visitava mais piscinas, fui me convencendo de que a extraordinária satisfação dos islandeses está ligada à experiência de fugir do feroz ar gelado e mergulhar em água quente ao lado dos conterrâneos.

Na verdade, as piscinas parecem ser o segredo do bem-estar islandês.

Nadei em 14 piscinas do país inteiro. Conheci imigrantes recentes na cidade de Bolungarvík, nos Westfjords, que se misturavam aos novos vizinhos. Vi pais islandeses mergulharem com os filhos para acalmá-los antes da hora de dormir. Ouvi histórias de casais no meio de um divórcio que dividiam as piscinas locais junto com seus bens. Observei quatro septuagenários darem braçadas numa piscina no norte da Islândia enquanto o pôr do sol iluminava as montanhas e a garçonete trazia copos de café equilibrados numa pranchinha.

“Acho que são as piscinas que possibilitam viver aqui”, confessou a jovem artista Ragnheiður Harpa Leifsdóttir. “Temos tempestades, temos escuridão, mas a piscina é o lugar onde você se reencontra consigo mesmo.”

Durante séculos, a Islândia foi um país de marinheiros que se afogavam perto da praia.

Um jornal local noticiou, em 1887, que mais de cem pescadores tinham se afogado num único inverno. Esses incidentes promoveram o entusiasmo pela natação. Na época, o único lugar para aprender a nadar era uma vala lamacenta na fonte de água quente onde as mulheres de Reykjavik lavavam roupa.

Inspirada por aquela fonte de água quente e usando uma escavadeira caríssima comprada a crédito e levada à Islândia para uma busca infrutífera por ouro, a cidade logo aproveitou a água quente do subsolo vulcânico da ilha.

A pitoresca piscina de Seljavellir, construída em 1923.

O calor geotérmico da Islândia começou passando por sessenta residências e três prédios públicos: uma escola, um hospital e uma piscina. O órgão nacional de energia ofereceu empréstimos sem risco a aldeões do país inteiro a fim de incentivar as escavações geotérmicas, e, dali a uma geração, as antigas casas de turfa quase tinham desaparecido do país, substituídas por casas e prédios modernos, todos tão quentinhos que até nas noites de inverno a maioria dos islandeses deixa uma janela aberta.

Com água quente correndo pelo país e uma população ansiosa para dar um mergulho, em 1943, o ensino de natação se tornou obrigatório nas escolas.

 Logo surgiram piscinas públicas em todas as cidades.

“Por causa do clima, não temos praças de verdade”, explicou-me o escritor Magnús Sveinn Helgason. “Até 1989, a cerveja era proibida na Islândia, e assim não temos a tradição dos bares da Inglaterra ou da Irlanda.”

A piscina é o espaço social da Islândia, onde as famílias encontram os vizinhos, onde os recém-chegados recebem as boas-vindas, onde rivais não podem se evitar. Para os reservados islandeses, que “não costumam conversar com os vizinhos nas lojas nem nas ruas”, talvez seja difícil criar conexões, disse-me o prefeito Dagur. (Em geral, os islandeses usam sobrenomes patronímicos e matronímicos e tratam todo mundo, até o prefeito, pelo primeiro nome.) “Na piscina quente, a gente tem de interagir”, continuou ele. “Não há mais nada a fazer.”

Além de interagir, é preciso que seja num estado de exposição bastante literal.

A maioria dos islandeses conta histórias sobre visitantes, em geral americanos, levados às piscinas que recuaram horrorizados com a exigência de se despir completamente, tomar banho de chuveiro e se ensaboar da cabeça aos pés.

Os vestiários masculino e feminino têm cartazes mostrando todas as regiões que é preciso ensaboar muito bem: cabeça, axilas, virilhas, pés. Os islandeses levam muito a sério essas regras, necessárias porque as piscinas são só levemente cloradas; os guardadores costumam chamar a atenção de turistas e adolescentes tímidos por não se lavarem direito.

Os islandeses não têm muita vergonha da nudez quando a questão é a limpeza da piscina. Isso ficou muito claro para mim num vestiário da cidade de Ísafjördur; onde Snorri Grimsson, gerente conversador de uma loja de bebidas, me contou uma longa história sobre uma linda moça australiana que lhe pediu para ir à piscina mas depois revelou que não tomava banho antes de nadar. Ele fez uma careta cômica de horror e depois soltou o final: “Foi uma decisão dificílima. Ainda bem que a piscina estava fechada!”

Essa frase causou gargalhadas entre seus conterrâneos islandeses. Mas minha avaliação foi um tanto dificultada porque Snorri contou a história nu,  alongando-se como uma bailarina na barra.

“É maravilhoso”, disse-me a atriz Salóme Gunnarsdóttir certa noite na piscina.

“Como crescemos numa cultura de banhos, vemos todos os tipos de corpo feminino real. Mulheres de sessenta anos, de meia-idade, grávidas. Não só nas fotos de revista ou na TV.”

Suas amigas, todas de vinte e poucos anos, concordaram com entusiasmo. “É importantíssimo”, disse Salóme muito séria. “A gente se acostuma com seios e vulvas!”

Como jornalista, nunca esquecerei a experiência de apertar as mãos do simpático prefeito Dagur e, minutos depois, entrevistá-lo enquanto nos despíamos. A princípio, achei desconcertante, mas no fim vi que era confortador ver todos aqueles peitos, traseiros e barrigas – que, na maior parte, pertenciam a corpos humanos normais, não a obras-primas esculpidas. E esse conforto se estende à piscina propriamente dita, onde podemos estar cobertos, mas ainda à vista.

A quase nudez, por estimular uma leve distância dos outros, também permite ao visitante se concentrar, de maneira profunda e pouco comum, no próprio corpo, em suas reações e necessidades.

Apesar de ser um centro social, a piscina também cultiva a introversão.

O resultado de um questionário distribuído pela equipe de pesquisa de Valdimar mostrou que as mulheres, principalmente, vão à piscina em busca de solidão. De acordo com as mulheres com quem conversei, quase todos respeitam a postura do devaneio aquático – a cabeça inclinada para trás contra a parede da piscina, olhos fechados, a boca com um sorrisinho de satisfação – adotada por quem vai à piscina querendo ficar em paz.

Sigurlaug Dagsdóttir, aluna que pesquisa as piscinas, especulou que a utilidade social do sundlaug vem, em parte, da intimidade da experiência física: na piscina, disse ela, é possível “tirar as cinco camadas de roupa que geralmente nos separam dos outros.”

Desse modo, a piscina é um grande nivelador.

O cineasta Jón Karl Helgason, que está fazendo um documentário sobre as piscinas da Islândia, comentou: “Quando as pessoas estão na piscina, não importa se você é médico ou taxista.” Sua namorada Fridgerdur Gudmundsdóttir acrescentou: “Todo mundo usa a mesma roupa.”

No caminho para o aeroporto de Keflavík fica o Blue Lagoon, um luxuoso spa de águas quentes que é um dos principais destinos turísticos da Islândia. Lá, por 54 euros, pode-se tomar banho em cabines privadas e flutuar em água rica em minerais, vinda da usina elétrica vizinha.

A piscina infinita de Hofsós, uma das mais bonitas.

Em meu último dia na Islândia, saí da estrada pouco depois do Blue Lagoon e fui para uma cidadezinha, o porto de Reykjanesbær. O saguão da piscina da cidade é equipado, de forma muito adequada, com uma série de janelas que lembram escotilhas. A mulher que trabalha no balcão perguntou:

– É sua primeira vez numa piscina islandesa?

– Não – respondi com algum prazer.

Os conhecidos cartazes do vestiário eram complementados por avisos em polonês, dirigidos à nova onda de imigrantes em Reykjanesbær. Vesti minha sunga, juntei coragem e saí do saguão quentinho para o frio.

A piscina aquecida entre 36°C e 38°C estava cheia de homens enormes que lembravam o Brutus, adversário do marinheiro Popeye, e uma menininha de maiô cor-de-rosa com babados. O maior dos Brutus saiu da água, pegou a menina no colo e a levou, rindo, para a piscina familiar. Seu bíceps exibia a tatuagem de um urso feroz consumido pelas chamas.

Dessa vez não abordei ninguém, não fiz nenhuma pergunta.

Não falei nada. Concentrei-me no que conseguia sentir: a leve pressão da água na pele, o vento espetando a barba. À minha volta havia o suave ruído branco de uma comunidade. A conversa, a conexão, a liberdade – com aquela agitação de sociabilidade, de se recolher e simplesmente ficar dentro de si. Isso me trouxe à mente algo que uma aluna chamada Katrín Gudmundsdóttir me disse em meu primeiro dia na Islândia. Ela descrevia a noção de conforto do islandês nativo mergulhado na sundlaug de seu bairro. Quando pensei no que ela disse, um acorde perfeito soou dentro de mim. “Não é exatamente como estar feliz”, disse ela. “É que a gente sabe como estar na piscina.”

O sol estava baixo no horizonte, brilhante mas evanescente. A única outra coisa no céu azul cristalino era o rastro de um jato apontado para oeste. Fechei os olhos. Eu estava na piscina.

 

POR DAN KOIS DO NEW YORK TIMES