O pastoreio de rebanhos de animais criados soltos é uma profissão antiga e evocativa – e é vital preservá-la. Conheça a Escola de Pastores de Andaluzia:

 

No fim de junho, nos morros rochosos e crestados pelo sol ao norte de Granada, na Espanha, uma moça cuida de um rebanho de 170 cabras que pastam tufos de capim.

Julia Abalos Reznk, de 23 anos parece cuidar desses animais desde que aprendeu a andar. Mas há apenas quatro meses Julia morava na movimentada Madri e estudava tradução.

Quando as cabras começam a se afastar muito, Julia pega a funda tecida à mão que pende do ombro e a dobra, inserindo uma pedra no meio. Depois de girar a funda, ela solta uma das pontas no momento certo para que a pedra saia voando e percorra uns cem metros, num arco amplo acima do rebanho, e caia com barulho no outro lado. O ruído assusta as cabras, que se afastam dele – e voltam para Julia.

Ali, a observá-la, está Juan Antonio Jiménez Almagro, 62 anos, um pastor de sorriso gentil que percorre essas terras há décadas. Pastorear animais com pedras e fundas é um método antigo que Juan se orgulha de ter ensinado a Julia. É apenas uma das muitas habilidades que a moça está aprendendo aqui na Escola de Pastores de Andaluzia, no sul da Espanha.

O fato de jovens se interessarem por cuidar de animais tem importância fundamental para os que administram a escola. Sem o pastoreio em pequena escala de animais criados soltos, as terras da Europa mudariam drasticamente. O efeito da mudança climática se aceleraria. Raças inteiras de animais domésticos e selvagens se extinguiriam.

Nos últimos oito anos, entre 15 e 20 alunos ávidos começam as aulas todo mês de março na Escola de Pastores de Andaluzia.

Eles ficam dez semanas em sala de aula, aprendendo desde ciência veterinária e criação de porcos até contabilidade. As cinco primeiras semanas se passam em um centro de pesquisa agrícola perto de Granada, enquanto as outras cinco ocorrem num lugar diferente a cada ano. Este ano é em Cazalla de la Sierra, uma hora ao norte de Sevilha. Durante o curso, os alunos também fazem três estágios de dez dias em campo, onde aprendem individualmente com pastores experientes que atuam como seus tutores.

O ensino, as refeições e as acomodações em dormitório são oferecidos aos alunos gratuitamente; o programa faz parte de uma iniciativa da União Europeia que financia cursos semelhantes na França.

Em sua maioria, os alunos são filhos e filhas de pequenos proprietários rurais, mas também há gente, como Julia, que deixa para trás a cidade grande em busca da profissão solitária de pastor. Qualquer um pode se candidatar, mas os pretendentes têm de demonstrar que entendem a realidade do trabalho. Os que não têm histórico familiar na profissão precisam de plano sólido, porque começar sem terra nem animais é quase impossível.

A tarde de terça-feira está escaldante, e a turma de 2018, com Julia e 15 colegas, curva-se diante de computadores no centro comunitário local para examinar uma planilha multicolorida.

A professora Carmen Leal Muñoz aponta uma imagem no alto. “É só clicar aqui e tudo se soma automaticamente”, diz ela enquanto os alunos inserem preços hipotéticos de ovelhas numa planilha.

Carmen é professora de administração de empresas do Instituto Andaluz de Pesquisa e Treinamento Agrícola. Ela criou esse documento especificamente para pessoas como Julia, que logo estarão dependendo de cada litro de leite de ovelha, de cada quilo de carne de cabra e de cada quilo de esterco para garantir a margem de lucro e ganhar a vida.

Um aluno de Granada chamado Mario Ballestín observa com atenção. Com experiência em telecomunicações, ele é um dos poucos alunos sem laços familiares com a profissão.

Mario já trabalhou por cinco anos como auxiliar de pastor num rebanho que terminava a transumância, a prática secular de conduzir sazonalmente os animais milhares de quilômetros pelo país para pastar em temperatura mais agradável. Ele poderia voltar a trabalhar para alguém ou até cuidar de um rebanho próprio em terras públicas. Mas o que quer é ter sua terra e seu rebanho. E nas últimas semanas ele aprendeu que há programas para ajudar jovens pastores, mas só se você já possuir 500 ovelhas ou 170 cabras.

Para conseguir o que quer, ele terá de trabalhar com inteligência. Mario sabe que essas planilhas são importantes.

No fim da tarde, os alunos se reúnem no pátio de um bar local.

“O preço do leite e da carne não sobe há 25 anos”, queixa-se Cristóbal Padilla García, um colega cuja família cria animais. “A gente tem de garantir que os animais sejam produtivos o tempo todo.”

Julia apenas escuta. Filha de arquitetos que criavam porcos, ela só descobriu seu amor pelo rural quando trabalhou numa fazenda da Colômbia depois de terminar os estudos de Literatura e Filosofia em Paris e, em seguida, Teologia em Madri.

Mas na fazenda cada dia era novo, vibrante e diferente. Ela adorou o trabalho. Sentia-se ligada aos animais e à terra. “Até hoje, eu gostava da ideia de que pastorear é mais bucólico, que não há muitos números”, diz Julia, fumando um cigarro enrolado à mão.

Agora ela aprendeu que a tecnologia moderna e a contabilidade que achava ter deixado para trás na verdade são úteis para realizar seu sonho de produzir queijo e encontrar paz de espírito na terra.“A aula me convenceu”, diz Julia. “As ferramentas que a professora nos deu são perfeitas.” Mas o que ela mais gosta em tornar-se pastora “não é a parte comercial, mas o tempo passado com os animais no campo”.

São nove da manhã do dia seguinte. Dezesseis futuros pastores de olhos cansados embarcam numa van para uma das últimas excursões educacionais do curso.

Depois de vinte minutos cheios de solavancos, eles chegam às terras de Jaime Hidalgo Ruiz, um pastor local que cria uma raça rara de porcos nativos usados para fazer o famoso jamón ibérico da Espanha.

Os alunos fitam um dos pastos verdes e luxuriantes de Jaime, no momento ocupado por grandes porcos pretos. “Esse tipo de animal não é criado em fazendas intensivas”, explica Francisco de Asís Ruiz Morales, coordenador da escola. Ele fala da prática moderna de ter milhares de animais presos em baias cobertas. “Se perdermos pastores como Jaime, também perderemos raças inteiras de animais nativos.”

Enquanto os alunos perambulam pelo prado sem arbustos que forma boa parte das terras de Jaime, Francisco explica que, sem os rebanhos no pasto, espécies invasivas como cardo, urze e giesta destruiriam rapidamente a biodiversidade que se desenvolveu nos últimos mil anos de agricultura não industrial na Europa.

“Animais como o lince e a águia, que dependem de terra limpa para caçar, poderiam desaparecer”, diz Francisco. E sem animais pastando e mantendo a terra limpa, explica ele, os incêndios florestais que assolam a Europa, graças, em parte, à mudança climática, se tornariam ainda mais incontroláveis. Ele aponta uma vaca, que mastiga um tufo de capim. “As plantas que dependem da perambulação de animais de criação para disseminar suas sementes não cresceriam mais. Há uma grande lacuna de conhecimento. A sociedade em geral não percebe o impacto do que está desaparecendo.”

Alguns dias depois chega a hora do último estágio dos alunos com um pastor como tutor.

Mario e Julia escolheram Juan Antonio. Eles mal podiam esperar pela oportunidade de estar na terra com um pastor de verdade e absorver seus conhecimentos.

“Isto se chama trovisco”, diz Juan Antonio, erguendo uma folha comprida e fina. Os três estão diante do galpão de ordenha, sem ligar para o forte sol andaluz. Ele lhes passa a planta. “É um antibiótico, antisséptico e anti-inflamatório natural”. O pastor levanta uma garrafa plástica cheia de um líquido escuro que lembra uma poção. “E isto é uma mistura de azeite e trovisco. Pode ser usada em lugar de antibióticos para tratar infecções.”

Quando uma de suas 200 cabras ou 170 ovelhas se machuca nos morros rochosos, ele enrola uma dessas folhas na pata. Quando uma ovelha em ordenha tem mastite – inflamação da glândula mamária –, um pouco do óleo resolve. Julia e Mario ficam extasiados. “Nunca trabalhei com ovelhas nem cabras”, explica Julia. “Esta experiência é perfeita. Preciso aprender tudo.”

Eles sobem um morro cheio de arbustos atrás de Juan Antonio. A terra quase árida é seca e ondulada, marcada por ervas sedentas que são ótimos petiscos para cabras e ovelhas. O trio chega ao laticínio improvisado de Juan Antonio, cortado numa pedreira natural de três metros de mármore cor de creme. Dentro de suas paredes frias, Mario e Julia observam o tutor demonstrar como transforma o leite das cabras em queijos artesanais perfeitamente circulares. Primeiro, ele filtra o leite em duas camadas de pano; depois, acrescenta uma pitada de estômago de bezerro moído para agir como coagulante; então, vira os queijos à mão, para que curem por igual. O produto final é orgânico, de cabras criadas soltas, sem antibióticos e vendido no local.

Nesses simples círculos de queijo Julia vê o futuro.

Ela descreve seu sonho: um pedaço de terra e um pequeno rebanho de ovelhas e cabras; produzir queijo orgânico de alta qualidade e vendê-los na cidade. “Quero ser autossuficiente”, explica ela. “Quero pintar e escrever, mas não é do que pretendo viver; quero fazer queijo.”

É claro que ser pastor é mais do que extrair tinturas oleosas e fazer queijo. O calor do verão está apenas começando, e as ovelhas de Juan Antonio se encontram cobertas de lã. Está na hora da tosquia. No estábulo, Julia e Mario observam o filho de Juan Antonio deitar uma ovelha de costas; segurar suas quatro patas com uma das mãos e amarrá-las com uma corda. Então ele liga uma grande tosquiadeira elétrica e se põe a trabalhar. Em questão de minutos, a ovelha antes cinzenta e com a pelagem embaraçada está de pé, livre e contentíssima com a nudez recém-descoberta.

As coisas não vão tão bem com Julia. Juntar as patas finas da ovelha lhe exige minutos em vez de segundos, e segurar o grande animal enquanto o tosa é bem difícil. Quando termina, 25 minutos depois, o animal sai cambaleando, com marcas de sangue onde a tosquiadeira beliscou a pele. Oito horas depois, Mario e Julia desmoronam num muro de pedra perto do rebanho, exaustos, encharcados de suor e cobertos com uma camada áspera de lã e poeira. Farão isso da aurora ao crepúsculo nos próximos três dias.

“A vida de pastor tem muitas horas de trabalho duro”, admite Juan Antonio. Mas isso não é nada, insiste ele. Surpreendentemente, a carga administrativa é que o derruba. “A amargura da vida vem da papelada”, diz o velho pastor, balançando a cabeça.

Juan Antonio fala do número cada vez maior de regras desde as mudanças da Política Agrícola Comum da União Europeia, no início dos anos 2000. As regras são projetadas para baixar o preço dos alimentos e controlar sua qualidade e constância. Os pastores dizem que elas favorecem a criação intensiva e tornam insustentável o modo de vida dos pequenos pastores e seus animais criados no pasto.

Antes, ninguém perturbava Juan Antonio, mas agora até algo tão básico quanto levar uma cabra de um pasto a outro exige a aprovação do órgão agrícola local. Seu laticínio doméstico na montanha ficou tecnicamente ilegal. O filho está construindo um laticínio na cidade vizinha para que eles possam voltar a vender legalmente os queijos de Juan Antonio.

Mas em vários aspectos os pastores ainda são mais livres do que a maioria.

A tarde termina nos prados ondulados, e Julia, Mario e Juan Antonio estão à sombra de uma árvore esquálida, a terra em torno deles banhada pelos últimos raios de sol. Em silêncio, eles trançam fibras cor de palha enquanto Juan Antonio demonstra como tecer os fios numa funda boa e forte. “Isso existe desde Davi e Golias”, diz Juan Antonio. “Vocês sabiam que Davi era pastor?”

Para Julia, esse é o ponto alto do curso: estar sentada nessa montanha, ao lado do sábio tutor, observando os animais e ouvindo seus cincerros. É um contentamento que ela pretende preservar. “Tenho as ferramentas para tornar o pastoreio sustentável e mudar o sistema”, diz ela. São os pastores jovens como ela, peritos nas coisas da cidade e do campo, que podem evitar que essa antiga profissão desapareça no passado. Julia sabe que o caminho à frente será difícil, mas a paz que encontra nesses momentos faz tudo valer a pena. Ela fita o horizonte enquanto o sol baixa sobre o terreno rochoso. “Há muita razão para lutar.”

 

Por LIA GRAINGER