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Publicado em: 1 de julho de 2020

Nova Zelândia: terra de espírito e beleza

Uma viagem terrestre de ponta a ponta revela as maravilhas naturais da Nova Zelândia e a generosidade de seu povo.

Imagem: © Nur Ismail /roomrf/GETTY IMAGES

Eu esperava cruzar o caminho de um tiranossauro a qualquer momento.

O acidentado litoral oeste da Ilha do Sul da Nova Zelândia parece mesmo pré-histórico. Meio andando, meio escorregando por uma trilha estreita coberta de árvores que pingavam musgo emaranhado, eu procurava um homem chamado Merv.

Começara minha busca em Jackson Bay, em Southland, uma tranquila aldeia de pescadores com um punhado de moradores fixos. Quando saí do carro, uma mulher magra e loura numa varanda ensolarada me perguntou se eu estava perdida.

– Estou procurando Merv? – falei. Era mesmo uma pergunta.

– Ele está lá no rio, pescando alevinos – respondeu ela. – Sou mulher dele. Vou lhe explicar onde encontrá-lo.

Haka Pohiri, dança maori de boas-vindas, na praia Muriwai, na Ilha do Norte.

E assim fui parar numa trilha lamacenta, procurando a plataforma de pesca de Merv. As plataformas são docas formadas de pedras que se estendem pelos rios que dão no oceano, pontos de vantagem perfeitos para pescar com rede os jovens peixes galaxídeos, uma iguaria valiosa.

Saí de carro do hotel Lands End (“fim do mundo”), em Bluff, na extremidade sul da Ilha do Sul, para ir ao cabo Reinga, no extremo norte da Ilha do Norte. Mesmo depois de quinze anos morando aqui, as viagens terrestres pela Nova Zelândia são minha experiência de viagem favorita. Em toda esta terra há um sentimento – um calor, uma acolhida, uma sensação de ser cuidada. A palavra maori para isso é manaakitanga. Mal traduzida, significa hospitalidade.

Essa cultura de cuidar um do outro chamou a atenção mundial depois do ataque terrorista a duas mesquitas em Christchurch, na Ilha do Sul, em março de 2019. O modo como os neozelandeses reagiram com uma conclamação nacional de “não somos isso” e uma enxurrada de mensagens de inclusão foi um exemplo de manaakitanga.

O hotel Lands End fica no extremo sul da Nova Zelândia.

Minha viagem de carro se inspirou em manaakitanga, com o itinerário decidido pelas pessoas que encontrasse no caminho – suas recomendações, sua generosidade, seus bons votos – enquanto eu viajava num encadeamento de gestos amistosos.

Minha busca por Merv começara exatamente três dias e 459 quilômetros antes, no saguão do Lands End. Eu tomava uma cerveja com a proprietária Lynda Jackson, seu marido Ross e outra hóspede, Gaye Bertacco, de Christchurch. O clima na taberna era, ao mesmo tempo, adorável e solitário, adequado a um bar no fim do mundo.

“Vim aqui para buscar meu parceiro Mark”, disse Gaye. “Ele é pescador e está no mar faz uma semana.”

Como se ouvisse a deixa, Mark Muir entrou pela porta.

Algumas cervejas depois, Gaye e Mark me convidaram para jantar com eles no Oyster Cove, o restaurante ao lado. Diante da lagosta-espinhosa e do bobo-de-cauda-curta (uma grande ave marinha que é um prato maori tradicional), ambos obtidos no local, observamos o retorno dos barcos de pesca, as luzes verde e vermelha piscando no escuro.

“Há personagens ótimos no litoral oeste”, disse Mark. “Você deveria procurar Merv Velenski, em Jackson Bay, se passar por lá. É o maior personagem de todos. Ele pesca desde que eu existo. Daria a roupa do corpo a qualquer um, e qualquer um tem vontade de lhe dar a roupa do corpo.”

Enlameada e sem Merv, voltei a Jackson Bay. Não havia muito no lugar além de beleza. A estrada sombreada por faias e rimus acabava num povoado com poucas casas, um café laranja-vivo com telhado azul (o Cray Pot) e um cais desgastado que se estendia pelo mar turquesa. Era uma fatia intacta do paraíso.

De volta à varanda encharcada de sol, enquanto contava a Liz Velenski minha falta de sucesso em encontrá-lo, Merv chegou em sua picape. “Vou fazer um chá”, anunciou Liz.

Merv me cumprimentou com reserva bem-educada. Disse-lhe que Mark Muir me mandara.

“Meu irmão trabalhou com Mark durante muito tempo”, disse Merv. “Mark tem um barco bem construído.”

Conversamos por uma hora. Merv fizera um pouco de tudo: serviu o exército na Malásia, em Bornéu e na Tailândia; foi coletor do revestimento aveludado da galhada de veados; trabalhou em serrarias; uma vida inteira como pescador; e, agora, esculpia em pedra.

“Estamos em Jackson Bay há mais de quarenta anos”, contou Merv. “Não há outro lugar onde eu prefira estar. Mas as pessoas não percebem. É preciso pegar estradas vicinais e dar uma olhada. É onde estão os trabalhadores. Vá, fale com eles e você aprenderá dez vezes mais do que em qualquer cidade turística. É onde se vê a Nova Zelândia.”

Merv e Liz se despedem de mim com um aceno amistoso e dois presentes de despedida: o telefone de um velho amigo de Merv, do exército, que mora em Hokitika, e um lagostim já cozido embrulhado numa página do Otago Daily Times para meu almoço.

O Monte Taranaki, um vulcão ativo, fica 80 quilômetros a oeste de Whangamomona.

Eu estava 1.179 quilômetros ao norte de Jackson Bay, um pouco para o interior do litoral oeste da Ilha do Norte, no Whangamomona Hotel. Talvez seja o hotel campestre mais remoto da Nova Zelândia, localizado na Forgotten World Highway (a “estrada do mundo esquecido”) que vai de Stratford a Taumarunui. Whangamomona é a única república da Nova Zelândia, e declarou sua independência em 1989.

Um amigo de Wellington me lembrou da Forgotten World Highway quando eu ia para o norte, e acabei no Whangamomona Hotel tomando cerveja num copo emprestado.

“Este é o único lugar para beber a menos de uma hora de distância, e os moradores se reúnem aqui”, disse Vicki Pratt. Ela e o marido Richard são donos do Whangamomona Hotel. Canecas de meio litro pendem da parede, cada uma com um brinco bovino amarelo com um número de identificação. Eu bebia no número 13.

Vicki e Richard Pratt recebem os visitantes na “república” de Whangamomona.

“Esse é o copo de Pete. Ele mora na casa de tosquia mais abaixo na estrada”, contou Vicki. “Acho que não vai se importar.”

Quem precisa falar com um morador que não tenha telefone liga para o hotel e deixa recado com Vicki ou Richard. Eles, por sua vez, deixam um bilhete na caneca de cerveja da pessoa.

Enquanto conversávamos, um leitãozinho entrou correndo no bar, disparando entre os grandes barris que servem de mesas. Foi seguido por um cordeirinho mais hesitante (chamado Roast, “assado”) e dois ciclistas de aparência cansada que buscavam uma refeição quente e um lugar para montar a barraca.

O leitão e Roast foram enxotados enquanto eu tomava um drinque com Jamie Lessard e Alanah Correia – canadenses de 20 e poucos anos no décimo mês de uma viagem planejada para durar 15.

Tinham passado o inverno na península de Coromandel, mais ao norte da Ilha do Norte, e agora pedalavam para o sul. “Nunca teríamos pedalado até aqui se alguém que encontramos não nos falasse do lugar. Fizemos um baita desvio”, revelou Alanah.

Tradicionalmente, os visitantes de Whangamomona são neozelandeses, mas nos últimos anos o hotel tem atraído mais estrangeiros, a maioria deles em viagens de um dia para obter carimbos exóticos no passaporte.

“Seria bom se alguns desses visitantes internacionais ficassem mais tempo”, disse Vicki. “Os que ficam se divertem bastante. Cuidamos deles. Aqui é um lugar ótimo para conhecer os habitantes.”

Antes um movimentado posto de fronteira avançado com 300 moradores, hoje Whangamomona tem “dez ou onze moradores na cidade e talvez 120 na área mais ampla”, segundo Richard.

A decisão do governo de retraçar os limites territoriais locais dividiu a região ao meio e levou os moradores a se declararem uma república. “Não se pode simplesmente alterar a fronteira e mudar de onde as pessoas são”, protestou Richard. “E eles não nos consultaram. A princípio foi um gesto, mas sempre tivemos um prazerzinho com a rebelião. Somos um povo teimoso e amigável.”

“Acho que isso se aplica aos neozelandeses”, acrescentou Vicki. “Cuidamos uns dos outros, principalmente nas comunidades rurais. Foi com manaakitanga que cresci, mesmo que não conhecesse a palavra. Acho que tem a ver com o fato de que todos se conhecem na Nova Zelândia. Os hóspedes chegam e, com três frases, descubro que conheço alguém que eles conhecem. E gosto disso.”

Cait Disberry, minha guia de caiaque, e eu percebemos que ambas moramos em Raumati Beach, uma minúscula cidade praiana 50 quilômetros a noroeste de Wellington, a capital da Nova Zelândia. É aquela conexão das “três frases” de que Vicki falou.

Os visitantes acorrem a Cathedral Cove nas férias de verão.

Eu fazia um passeio de caiaque em Hahei, na península de Coromandel. Os ciclistas canadenses tinham me dito que Cathedral Cove era um lugar imperdível. Com paisagem luxuriante, enseadas secretas e praias de água quente, a apenas duas horas e meia de carro de Auckland, maior cidade do país, esse é um lugar que faz os visitantes examinarem a sério os anúncios de imóveis. Tem cerca de 400 moradores permanentes, mas esse número explode no verão.

Nosso passeio de três horas de caiaque nos levou pelas águas verdes e transparentes da Reserva Marinha Whanganui-A-Hei, que viu um aumento enorme da vida marinha desde sua criação há 28 anos. Os sinais estavam evidentes por todo lado que olhei, da multidão de aves oceânicas empoleiradas nas rochas à dúzia de pequenas arraias que passaram rapidamente pela baía Stingray (“arraia”).

Andy Mora, nosso guia-líder de caiaque, apontou as ilhas Mercury a distância. “Foi nessa área que o capitão Cook identificou o trânsito de Mercúrio pela Nova Zelândia”, disse.

Viajei 600 quilômetros para o norte, da península de Coromandel até o Cabo Reinga, local mais ao norte da Nova Zelândia que pode ser visitado e ponto final de minha viagem. Um farolzinho branco coroava um trecho de terra que lembra o focinho de um dragão, marcado apenas por uma antiquíssima árvore pohutukawa ou árvore-de-fogo, onde o Mar da Tasmânia e o Oceano Pacífico se juntam, criando uma linha branca nas águas.

O Oceano Pacífico e o Mar da Tasmânia se encontram no Cabo Reinga, no extremo norte da Nova Zelândia.

Nesse lugar desembarcou Kupe, o navegador extraordinário das lendas maori que encontrou o caminho até aqui mil anos atrás, vindo do Pacífico oriental. O Cabo Reinga também é o lugar de onde parte o espírito dos maoris a caminho do outro mundo.

Quando recordo essa viagem de carro de uma ponta a outra da Nova Zelândia, lembro que o oceano além do Cabo Reinga me sussurrou sobre o mundo para lá dessas ilhas e que a retorcida árvore pohutukawa falou ainda mais alto sobre todas as razões para eu ter feito desta terra meu lar.

Recentemente, soube que Merv faleceu. Ele era um ser incrível, uma pessoa que não esquecerei e a personificação de manaakitanga.

DICAS DE VIAGEM

Transporte

A Transfercar (transfercar.co.nz) oferece bons preços com a devolução do carro alugado no ponto de origem. Você terá mais sorte se viajar do sul para o norte. A maioria das estradas da Nova Zelândia é sinuosa, de duas pistas. Encostar para deixar passar os motoristas mais velozes agradará aos moradores.

Hospedagem

A vista do oceano enche as janelas dos quartos do Lands End Boutique Hotel, em Bluff, landsendhotel.co.nz; o Whangamomona Hotel é um hotel estilo pousada que serve de eixo comunitário da República de Whangamomona, whangamomonahotel.co.nz; o Tatahi Lodge Beach Resort fica a cinco minutos das praias de areia branca que tornam famosa a península de Coromandel, tatahilodge.co.nz.

Comida

Os frequentadores do restaurante Oyster Cove, em Bluff, têm vista para a baía enquanto apreciam ostras na concha, mariscos da baía Cloudy e pratos como salada de cordeiro, jantar com pratos a partir de 22,50 dólares neozelandeses; The Cray Pot, quiosque à beira-mar em Jackson Bay, oferece lagostim, outros frutos do mar e hambúrgueres.

Informações

Verifique o horário de abertura de restaurantes e o preço e a disponibilidade dos hotéis em seus sites ou entrando em contato com Tourism New Zealand (newzealand.com).

POR CARRIE MILLER (DA NATIONAL GEOGRAPHIC TRAVELER)

National Geographic Traveler (junho/julho de 2019), © 2019 de National Geographic

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