Passei sete anos gerenciando um hotel em Santa Monica, além do prédio onde morava, que ficava no outro lado da rua. Viagem facílima para o trabalho. Isso é fantástico quando se mora em Los Angeles.

Dá para conhecer muita gente interessante quando se administra um prédio. Por exemplo, um casal de aposentados, os Gaskos, morava no apartamento ao lado do meu. Quando conheci o marido, eu tocava violão em casa, tentando compor uma música.

Batem à porta, e ao abrir encontro um homem de setenta e poucos anos com um estojo preto. Ele me diz que me ouviu tocar, gostou da música e achou que eu talvez apreciasse seu chapéu Stetson preto de caubói.

Um gesto bacana. Agradeço e ele me diz que se chama Charlie.

Então avance quatro anos, e estou tirando um cochilo no sofá. Trabalhei duas semanas direto, sem folga, de plantão toda noite. Mas nessa quarta-feira específica eu saí do serviço mais cedo e ia ver um show. Às duas da tarde, o telefone toca, e é meu colega de trabalho ligando do escritório… com o FBI.

O dia em que o FBI falou comigo

Antes que eu perceba, estou ao telefone com o agente do FBI, que diz:

– Preciso conversar com você sobre um inquilino do seu prédio.

– Não podemos ver isso amanhã?

Ele diz que não.

– Onde você está? Venha para cá agora.

Então vou ao escritório, sento-me, e há um homem corpulento de jeans e camiseta escura, que fecha a porta e joga na mesa um envelope pardo. Ele o abre e aponta uma folha de papel. No alto está escrito PROCURADO e embaixo há a foto de uma mulher e um homem, Catherine Greig e James J. “WhiteyBulger.

O policial pergunta se essas pessoas moram no apartamento ao lado do meu. Na primeira olhada, vejo que a mulher é minha vizinha Carol Gasko. Sim, conheço esses aí. São meus vizinhos.

E, embora nunca tenha ouvido falar de Catherine Greig, o nome Whitey Bulger é bem conhecido. Ouvi-o muitas vezes quando estava na Universidade de Boston. Mas na verdade não sei nada sobre ele. Era um sujeito como Jimmy Hoffa, tipo: “Ah, esse sujeito sumiu. Nunca vai ser encontrado.” Era quase uma piada.

E ali estou eu, e o agente do FBI diz:

– O que acha?

– O que minha cara está dizendo? – pergunto.

– Preciso de porcentagens – responde ele.

– Noventa e nove vírgula cinco, cem por cento – digo.

Ele pega o celular, e enquanto isso parece que estou num filme depois de uma explosão, quando o som some e você tenta entender algo que não é nada conhecido. Você não sabe o que está acontecendo nem o que vai acontecer.

Agente do FBI por um dia

Esse velho certa vez me trouxe um farol de bicicleta porque estava preocupado por eu pedalar à noite no escuro. E agora descubro que ele é um fugitivo famoso.

Outro agente, esse de camisa havaiana, logo aparece. O de camiseta escura diz:

– Precisamos da cópia da chave do apartamento. Não quero ter de arrombar a porta.

– Tudo bem, está aqui – digo.

O agente de camisa havaiana sai, e o outro diz:

– Olhe, esse sujeito está no topo da lista dos mais procurados. Você poderia nos ajudar a prendê-lo.

Minha primeira resposta é:

– Acabei de lhes dar a chave do apartamento dele e de dizer que ele mora lá. Sinceramente, não sei mais o que posso fazer.

– Bem, não podemos simplesmente entrar no apartamento dele – diz o agente. – Precisamos ter certeza de que ele está lá. Se for só ela, para nós não adianta. Então por que você não bate lá e vê se ele está em casa?

Nos meses anteriores, Carol andou dizendo aos moradores do prédio:

“Charlie tem demência; tem problemas cardíacos.” Puseram bilhetes na porta durante o dia: “Não bata à porta.” Por conversar com ele com o passar dos anos, sei que dormia durante o dia.

Explico isso ao agente e, sem se perturbar, ele pergunta:

– Bem, o que vai fazer hoje à noite?

– Vou a um show.

– Talvez seja bom cancelar esse programa.

Então eu ligo para meu amigo e lhe digo:

– Olha, acho que não vai dar para eu ir ao show hoje, e não posso explicar por quê.

Conforme o choque original vai se dissipando, percebo que vou ficar com o FBI até eles algemarem Charlie. Então as coisas realmente avançam. Um agente se posiciona numa janela com boa visão da varanda dos Gaskos, no outro lado da rua. O outro agente quer ir ao meu apartamento. Digo-lhe que siga por um beco e algumas ruas laterais para não passar na frente do prédio, à plena vista de Charlie e Carol. Entro pela frente e abro a porta para que ele possa entrar pelos fundos.

– Acabaram de fechar a janela – diz o agente do FBI. – Você nos dedurou?

– Estou com vocês o tempo todo. É claro que não.

Já no meu apartamento, traço para eles a planta do apartamento dos Gaskos. Ele fica tendo ideias de como tirar o sujeito de lá.

Minha sala divide a parede com o quarto de Charlie, e aviso:

– Você sabe que esse sujeito pode ouvir tudo o que estamos dizendo? Ele já repetiu conversas que tive à noite com meus amigos, me perguntando por que não xingamos tanto nem brigamos tanto quanto ele e os amigos quando jovens.

O plano para prender o criminoso

Vamos para o quarto, e ele tem uma ideia: arrombar o armário dele na garagem.

Descemos à garagem, e o agente do FBI vai buscar o carro, onde há uma torquês.

Fico tenso e empolgado. Estou envolvido na coisa. É como um filme. Estou quase me divertindo nesse momento. A adrenalina me ajuda a esquecer meu relacionamento com essas pessoas durante tantos anos. Quer dizer, é o mesmo homem que sempre me comprou um presente de Natal nos quatro anos que moro aqui.

Depois de quebrado o cadeado, voltamos a meu apartamento, e o agente me diz:

– Pronto, eis o que vai acontecer. Vou descer, preparamos tudo, ligo para você e você bate à porta dele e o leva lá embaixo.

– Não – replico. – Vou para meu escritório, chamo-o de lá e digo a ele que me encontre lá embaixo. Aí vocês cuidam da coisa.


Conhecendo melhor o vizinho da porta ao lado

Estou no escritório e penso nesse homem, meu vizinho, que cuidou de uma velhinha no primeiro andar. Que certo ano, quando não lhe escrevi um bilhete de agradecimento pelo presente de Natal, me deu uma caixa de papel de carta.

E penso: o que esse sujeito realmente fez?

Vou à Wikipédia e leio sobre homicídios, extorsão e apostas ilegais. Em uma de suas últimas aparições em público com um dos colegas da Máfia, há uma citação:

“Quando cair, vou cair atirando.”


Convenientemente, meu telefone toca; é o FBI, e eles dizem:

– Dê o telefonema.

– Olha, cara, acabei de ler uma coisa sobre esse sujeito… e não sei não.

– Não, não, não… ele nunca vai saber. Ele nunca vai saber.

O que, obviamente, não é verdade. Mas estou tão perto de ir a meu show que digo:

– Tudo bem, vou ligar.

Ligo para os Gaskos, e ninguém atende. Fico aliviado. Fico felicíssimo por não atenderem o telefone. Ligo de volta para o agente e digo:

– Ei, cara, sinto muito. Não atenderam. Vocês vão ter de fazer outra coisa.

– Tem certeza de que não quer bater à porta deles?

– Olha, cara, cortinas fechadas, cair atirando. E se ele atender à porta armado?

– Basta dizer: “Ei, cara, o que é isso?”

Penso comigo: Ele me mataria antes de eu terminar a frase.

Digo ao agente que não vou lá. Mas, no meio do papo, Carol me liga. E assim pego o telefone e lhe explico que o armário da garagem foi arrombado. Que posso chamar a polícia ou Charlie pode me encontrar na garagem para darmos uma olhada.

Ela conversa com ele e diz:

– Ele vai descer em cinco minutos.

– Tudo bem, ótimo.

Desligo e chamo o FBI.

– Ele está a caminho. Façam seu serviço.

Então saio, e Carol, na varanda, fica bem no outro lado da rua. Ela me olha, depois olha rapidamente a garagem, depois me olha outra vez. Não sei se ela sabe, mas parece preocupada.

Ela entra outra vez, e então recebo um telefonema do FBI, e eles dizem:

– Pegamos. Vá a seu show.

A prisão e o final de um dia emocionante

Atravesso a rua e volto a meu apartamento para trocar de roupa, e a adrenalina, o jorro de adrenalina, me pega. Desço e, assim que abro a porta da garagem, é como uma tomada em câmera lenta: há duas picapes e meia dúzia de agentes do FBI. E meu vizinho Charlie Gasko está ali em pé, algemado, cercado de agentes, rindo e contando histórias.

Ele parece quase aliviado. Vejo Carol em pé a poucos metros, também algemada. E a magnitude de tudo o que aconteceu começa a se instalar.

Ela me olha e diz “Oi, Josh”, e não consigo falar.

Só aceno de leve, ando até meu carro, vou para a estrada, ligo para meu irmão e digo:

– Você não vai acreditar no que me aconteceu hoje.

– O quê?

– Ajudei o FBI a prender o homem mais procurado do país.

Alguns meses depois minha família está um pouco preocupada comigo, e meus amigos fazem apostas de quanto tempo eu ainda tenho de vida. Certo dia, chego em casa e encontro uma carta da Penitenciária de Plymouth. Abro e vejo a mesma letra e o mesmo tom de prosa tranquila que conheci durante quatro anos morando ao lado de Charlie Gasko. Nessa carta, porém, ele se reapresenta como Jim Bulger.

Assim, respondo sua carta, dizendo: “Você sabe que eu tive algo a ver com o dia da sua prisão, e minha família está um pouco preocupada. Então, um bilhete dizendo ‘está tudo bem’ seria bem legal.”

Ele me escreve de novo e diz: “Olhe, eles me pegariam com ou sem sua ajuda. Não se preocupe.”

E isso fez minha mãe se sentir melhor, definitivamente.

Logo, novos vizinhos acabaram chegando e pareciam legais. Mas como saber?


Embora tenha sido preso várias vezes na vida, Bulger ficou 16 anos na lista dos mais procurados do FBI até ser preso definitivamente em 2011.

Depois da prisão,  foi julgado em Boston e condenado por 11 homicídios e outros crimes. Recebeu duas penas de prisão perpétua e, hoje, está numa penitenciária federal na Flórida.


POR JOSH BOND DO LIVRO ALL THESE WONDERS

ADAPTADO DE THE MOTH PRESENTS ALL THESE WONDERS: TRUE STORIES ABOUT FACING THE UNKNOWN, © 2017 THE MOTH. PUBLICADO POR CROWN ARCHETYPE, SELO DA PENGUIN RANDOM HOUSE LLC. “CALL ME CHARLIE” © 2017 DE JOSH BOND.