Em menos de 50 anos, a Coreia do Sul passou de um dos países mais pobres do mundo para um expoente da tecnologia inteligente. Acompanhe uma viagem pelo país, onde a presença de robôs na vida cotidiana já é realidade:

 

Depois de um voo de 14 horas partindo de Nova York, pouso em Seul e descubro que a Coreia do Sul se encontra num leve estado de choque. O maior campeão de Go do país tinha sido derrotado pelo programa de computador AlphaGo, projetado pela DeepMind, empresa do Google que desenvolve inteligência artificial.

Go é um jogo estratégico de tabuleiro extremamente complexo. O torneio é exibido sem parar nos monitores do metrô de Seul. Poucos esperavam que o software vencesse. Mas o que mais surpreendeu foi a originalidade do programa e seu jogo pouco ortodoxo. O AlphaGo não se limitou a garimpar o jogo de antigos mestres de Go; ele inventou uma estratégia própria. Os jornais coreanos ficaram alarmados. Como proclamou o Korea Herald: “Choque de realidade: a Coreia não pode se dar ao luxo de ficar para trás da concorrência na IA”.

Cinquenta anos atrás, o país estava entre os mais pobres do planeta

Hoje, mais parece um posto avançado do futuro. Há latas que pedem educadamente para serem enchidas de lixo e apartamentos inteligentes automatizados que preveem cada necessidade nossa. Vim à Coreia do Sul descobrir até que ponto a humanidade está perto de transformar a vida cotidiana usando a inteligência artificial e os robôs que, cada vez mais, estão dotados dela para inserir tecnologia inteligente em todos os aspectos da vida.

Uma estudante coreana pensa na próxima jogada no Go, jogo popular de tabuleiro.

Seul é um lugarque oscila com velocidade alarmante entre a utopia e a distopia. A cidade dorme menos do que Nova York, e sua vigília permanente a deixa exausta. Quando saímos de carro do aeroporto, temos a sensação de que Seul não acaba nunca. A extensa área metropolitana lança tentáculos em todas as direções, com uma população de 25 milhões de habitantes. Ainda assim, andar pela cidade é um sonho. O sistema de metrô é impecável, eficiente e onipresente; com Wi-Fi tão potente que meus dedos não conseguem acompanhar meus pensamentos. Durante uma semana, só vi três pessoas lendo um livro de papel no metrô.

Numa visita ao próspero bairro de Gangnam, a mulher a meu lado, o rosto emoldurado pelo cabelo magenta, envia uma torrente de emojis e selfies. Imagino que seja adolescente, mas, quando se levanta para sair, percebo que deve ter bem mais de 50 anos.

Eu mesmo não fico imune aos prazeres da tecnologia avançada.

Em Nova York, meu vaso sanitário é um Toto Washlet japonês, com aquecimento e função de bidê. Mas o Smartlet da empresa coreana Daelim deixa meu vaso no chinelo: tem um painel de controle com quase vinte botões, e não consigo adivinhar a função de alguns deles – um abaixador de língua sob três losangos?

Encontro o Smartlet quando visito os apartamentos inteligentes de Seul com uma corretora chamada Lauren. Algumas unidades mais avançadas foram desenvolvidas pela Raemian, divisão imobiliária da poderosa Samsung.

Os prédios da Raemian são exemplos polidos e reluzentes do que Lauren chama de “internet das coisas”. Quando entramos na garagem, um sensor lê a placa do carro e avisa ao anfitrião que você chegou. Outra função monitora o clima e avisa quando é preciso levar o guarda-chuva. Um monitor de cozinha ligado à internet pode baixar seu livro de receitas favorito.

Os donos dos apartamentos usam pulseiras que lhes permitem abrir portas e, de fora, ter acesso a serviços no prédio. E a tecnologia funciona em mão dupla: dentro dos apartamentos, é possível verificar onde estão os membros da família usando GPS.

Pergunto à minha guia Sunny Park, repórter do jornal Chosun Ilbo, se os coreanos estão resistindo à diminuição contínua da privacidade.

“Eles não se importam com o Big Brother”, observa ela.

Sunny, de uma geração um pouco mais velha, admite que, às vezes, tem dificuldade de se orientar no admirável mundo novo dos imóveis coreanos. “Certa vez, fiquei num apartamento que era inteligente demais para mim”, diz ela. “Não consegui descobrir como fazer a água sair da torneira.”

Certa manhã, pego um trem reluzente de alta velocidade para ir ao Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia, uma hora ao sul da cidade. Vou conhecer Hubo, um robô humanoide encantador que venceu a competição do último Desafio de Robótica patrocinado pela DARPA (agência de pesquisa militar dos EUA).

Hubo descende de uma família de robôs na qual seu “pai”, o roboticista JunHo Oh, trabalha há quinze anos.

Hubo é da quinta geração: um humanoide de alumínio, com dois braços, duas pernas, 80 quilos e 1,70 metro de altura. Em vez de cabeça, ele tem uma câmera e um laser que lhe permitem modelar a topografia tridimensional do ambiente em tempo real.

Parte da genialidade do projeto de Hubo é que, embora consiga andar como um bípede quando necessário, ele também pode ficar sobre os joelhos equipados com rodas e se transformar num veículo que roda em um ritmo lento – uma forma muito mais simples de um autômato desengonçado se deslocar.

Embora tarefas específicas exijam robôs especializados – Ubers autônomos, drones de entrega da Amazon –, JunHo diz que os robôs humanoides “são os únicos que podem resolver todos os problemas gerais” que as pessoas enfrentam, como se deslocar por terreno irregular e manipular objetos pequenos.

A Dongdaemun Design Plaza é um marco simbólico do setor coreano de design.

JunHo, um homem elegante de óculos redondos, testa alta e sorriso amistoso, explica que, no desafio da DARPA, projetado para simular uma situação de desastre como o derretimento da usina nuclear de Fukushima em 2011, cada robô tinha de cumprir tarefas que seriam exigidas em situações assim, como subir escadas, girar uma válvula, orientar-se numa trajetória cheia de escombros e dirigir um veículo. Os senhores humanos de Hubo estavam a mais de quinhentos metros e seu acesso sem fio aos robôs era deliberadamente instável, como aconteceria num desastre de verdade. Embora possa executar as tarefas de forma autônoma, Hubo ainda precisa que lhe digam o que e quando fazer.

Uma dessas tarefas da DARPA exigia que os robôs saíssem do veículo depois de dirigi-lo. Hubo faz isso obedecendo a um conjunto de comandos meticulosamente escritos e programados por JunHo e seus colegas. Para sair do carro, primeiro ele levanta os braços até encontrar a estrutura do veículo; depois a segura e identifica a quantidade certa de pressão a aplicar antes de manobrar o corpo para fora do veículo sem cair.

A maioria dos robôs humanoides confia demais nos braços e, no processo, se arrisca a quebrar um dedo, a mão e até todo o membro metálico. Ou pode supercompensar usando a força das pernas e cair quando estiver fora do carro.

Faz parte da intuição especial de Hubo reconhecer como usar seus componentes de formas variadas, dependendo da tarefa.

Assim, quando levanta os braços para segurar a estrutura do carro, ele está simplesmente se apoiando antes de “saltar”.

“É a mesma coisa que as pessoas fazem, na verdade”, diz JunHo. “Se tentar sair do veículo usando os braços, você verá que é dificílimo. Melhor relaxar os braços e pular.”

O laboratório de JunHo está desenvolvendo duas versões novas de Hubo, uma com autonomia total – dentro das restrições de tarefas específicas, é claro. A outra não terá toda essa inteligência, diz JunHo, mas será projetada visando à velocidade e agilidade física.

Pergunto a JunHo por que a Coreia do Sul, dentre todos os países, se tornou tão boa na inovação tecnológica.

Ele explica que, embora o país só tenha se industrializado na década de 1980, o governo fez um investimento enorme em pesquisa científica e financia setores fundamentais de crescimento, como os monitores de tela plana.

Por volta do ano 2000, o governo decidiu que a robótica era um setor-chave do futuro e começou a financiar pesquisas.

Falamos dos boatos sobre o uso de robôs em ambiente de guerra, talvez na zona desmilitarizada entre as Coreias do Sul e do Norte. “É perigoso demais”, diz JunHo.

Ele explica que os robôs devem ser programados com um nível de inteligência na proporção inversa da força física. “Se você tiver um robô forte e rápido com alto nível de inteligência, ele pode matá-lo”, afirma JunHo. “Por outro lado, se ele só se mover como for programado, não haverá autonomia, o que reduz sua criatividade e utilidade.”

Hubo representa um meio-termo: forte, mas não forte demais; inteligente, mas não inteligente demais.

JunHo me dá a oportunidade de passar um tempo de qualidade com Hubo. Um grupo de alunos de pós-graduação tira o robô de um aparelho que parece um gancho de carne, e observo quando ele é ligado.

Desafio do dia: escalar uma pilha de tijolos se projetando para todos os lados. Como um bebê que descobre as próprias pernas, Hubo não se apressa; sua câmera examina cada passo difícil, o torso gira e as pernas se movem de acordo. Hubo é o supremo avaliador de riscos, o que explica como subiu de costas uma escada e completou a competição da DARPA sem falhar.

É difícil confundir Hubo com um humanoide como os “replicantes” de Blade Runner. Mas ainda é difícil não achá-lo encantador, o que pode acontecer em nossas interações em geral com os robôs. Quando os outros robôs caíam na competição da DARPA, o público gritava como se as máquinas fossem seres humanos.

Com o avanço da tecnologia, o papel social dos robôs, como na prestação de serviços a idosos, pode incluir, além dos cuidados básicos, também a simulação de companhia verdadeira.

E esse talvez seja apenas o começo do relacionamento emocional que construiremos com eles. Algum dia os robôs sentirão empatia por nós se tropeçarmos e cairmos? Eles chorarão?

Hoje, essas perguntas podem parecer prematuras, mas duvido que daqui a uma década continuem assim. Quando faço a JunHo perguntas sobre o futuro, ele não hesita: “Tudo será robotizado”.

Outro trem de alta velocidade me leva à cidade costeira industrial de Pohang, lar do Instituto de Robôs e Convergência da Coreia (KIRO, na sigla coreana).

Apalavra “convergência” tem significado especial, pois sugere que a humanidade e os robôs estão destinados a se tornarem um só algum dia. Enquanto espero dois pesquisadores, noto uma revista chamada Journal of Happy Scientists & Engineers. E me lembro do que Oh disse: “Para nós, a ciência são só coisas boas”.

As exposições no arejado museu do primeiro andar mostram toda a variedade dos robôs do instituto. Ali está Piro, robô subaquático capaz de limpar o leito dos rios e as áreas costeiras. E também Windoro, um robô lavador de janelas já em uso na Europa. Há um robô cachorro de estimação chamado Jenibo.

Hubo junto a seu “pai” JunHo Oh, que trabalha com robôs há quinze anos.

É em Pohang que fica a Posco, uma das maiores usinas siderúrgicas do mundo. E isso deu origem a uma das invenções mais interessantes do instituto, um exoesqueleto azul que se encaixa no corpo dos metalúrgicos. Ele permite que operários mais velhos continuem cumprindo tarefas que exigem força física. Esse quase robô já está em uso nas usinas da Posco.

Ao fim da visita, perto da estação ferroviária cuja arquitetura parece da era espacial, observo uma senhora de macacão preto caminhando, acelerada, num trecho de mato vasto e desolado, como numa cena saída de um filme de Fellini. Acima dela veem-se prédios de apartamentos utilitários recentes que os coreanos chamam de “caixas de fósforo”. Lembro-me da frase de William Gibson, romancista de ficção científica: “O futuro já está aqui. Só não está distribuído por igual.”

Outro dia, pego o trem para a montanha Inwangsan, que se ergue a oeste de Seul e oferece uma vista espetacular, embora enevoada, da metrópole.

Lá, pode-se visitar um grupo eclético de xamãs chamados mudangs que, por um preço exorbitante, invocarão espíritos capazes de prever o futuro, curar doenças e aumentar a prosperidade. Nesse dia, os mudangs rasgam tiras de lençóis coloridos, associados a espíritos específicos. O branco está ligado ao espírito do céu; o vermelho, ao da montanha; o amarelo representa os ancestrais, e o verde, os espíritos ansiosos.

Recorrer aos espíritos faz sentido. A tecnologia traz eficiência e conectividade, mas não felicidade e autoconhecimento. Um celular com GPS nos diz onde estamos, mas não quem somos.

A Seonbawi, ou “Pedra Zen”, é uma formação espetacular onde as mulheres vão orar para pedir fertilidade. Uma jovem pôs um iPhone em pé no centro de seu tapete de oração. Mais tarde, pergunto a algumas amigas por que esse ritual foi acompanhado por essa peça tecnológica. Uma me diz que a moça provavelmente estava registrando a oração para provar à sogra, que possivelmente está zangada porque ela não teve filhos, que rezou horas a fio. Outra sugere que o celular pode pertencer a uma amiga com dificuldade de conceber e que, ao levá-lo consigo, a moça criou uma conexão entre os espíritos e a amiga sem filhos.

Gosto dessa explicação. A moça sai de sua cidade de 25 milhões de habitantes conectados para passar horas no alto de uma montanha e promover os sonhos da amiga, com as mãos unidas em oração. Diante dela, uma rocha gigantesca e atemporal e um pequeno aparelho eletrônico a conduzem suavemente para o que está por vir.

POR GARY SHTEYNGART DE SMITHSONIAN MAGAZINE
SMITHSONIAN MAGAZINE (JUNHO DE 2017), © 2017 DE GARY SHTEYNGART. SEU ROMANCE LAKE SUCCESS FOI PUBLICADO PELA RANDOM HOUSE NOS ESTADOS UNIDOS EM SETEMBRO DE 2018.