Era uma noite quente de fim de verão na região vinícola da Toscana – e eu estava tendo uma inesperada aula de astrologia.

Sob uma grade de parreiras verdes e luxuriantes, entre morros e vales que ondulavam até o horizonte, uma mulher angelical com um grande chapéu de palha, chamada Helena Variara, apontava para o céu. “Temos dias de fogo e ar e dias de terra; as doze constelações são nossas ajudantes”, disse ela com tranquilidade. “Nosso trabalho é entrar no ritmo dos planetas.”

Em termos técnicos, o trabalho de Helena também é fazer vinho. Ela e seu sócio, Dante Lomazzi, possuem uma pequena vinícola chamada Colombaia, perto de Siena. “Trabalhamos o solo nos dias da terra”, disse ela. “Trabalhamos as folhas nos dias da água. O açúcar das uvas aumenta quando a lua cresce. Portanto, só colhemos as uvas depois da lua cheia.”

O que é a agricultura biodinâmica?

Apesar de pouco ortodoxo, o método de Helena, chamado de vinicultura biodinâmica, está se tornando cada vez mais importante entre um pequeno grupo de produtores de vinho italianos. Essa prática segue o ethos criado pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner no início da década de 1920, e os princípios praticados pelos agricultores hoje são bem simples: não pode haver produtos químicos sintéticos nem irrigação mecânica. A fazenda também deve produzir várias frutas, legumes e verduras e tem de haver animais para manter esse miniecossistema sob controle.

E o agricultor precisa seguir um calendário celeste específico. Por isso, minha aula de astrologia. Sebastian Nasello, vinicultor de Podere Le Ripi, em Montalcino, explicou assim:

“A agricultura orgânica não faz mal à terra. A agricultura biodinâmica visa tornar a terra mais saudável.”

A maioria dos vinhedos biodinâmicos produz de 10 a 20 mil garrafas por ano. Em comparação, vinhedos imensos como Antinori e Frescobaldi produzem milhões de garrafas por ano.

Embora as vinícolas maiores possam ter fábricas imensas que recebem visitas de turistas, as fazendas biodinâmicas geralmente consistem em um agricultor, um trator e, talvez, alguns amigos que ajudam na época da colheita.

Oficialmente, essas vinícolas não costumam ser abertas ao público. Extraoficialmente, esses produtores adoram mostrar suas fazendas e suas safras. As vinícolas são a apresentação perfeita de uma parte da Itália que não vemos com muita frequência, uma parte intocada por multidões de turistas.

E, talvez, o mais fascinante seja a deferência às coisas ocultas. “Engarrafamos na lua minguante”, diz Helena. Todo ano, a Colombaia faz dois vinhos tintos, um branco não filtrado e um lote pequeno de espumantes branco e rosé. “Precisamos da lua certa porque ele está vivo. Ele sabe que está na garrafa.”

Levei um segundo para perceber que falávamos do vinho.

Quando ouvi falar de gente que trabalhava de acordo com a leitura das fases da lua e usava as estrelas como um tipo de enólogo extraterrestre, fiquei fascinada. E, assim, fui parar na Itália (com marido e dois filhos), atrás de vinícolas como a Colombaia: as que são mais fazenda do que fábrica, existindo em harmonia com a terra e fazendo alguns dos vinhos mais interessantes do país. Não consigo beber vinho convencional”, disse-me Gabriele da Prato. “Sinto o gosto dos produtos químicos. Sinto até o gosto do controle da temperatura. O vinho convencional tem sabor morto.”

Podere Còncori

Estamos visitando a Podere Còncori, o vinhedo de Gabriele, perto de Luca, numa área conhecida como Garfagnana. A Podere Còncori produz vários rótulos, como um shiraz, um pinot blanc e um rico e elegante pinot noir.

Gabriele me levou até a adega. Entre barris de aço gigantescos havia uma mesa com uma enorme pilha de exuberantes tomates vermelhos. Ele pegou um punhado, enxaguou-os e os arrumou em um prato de terracota com um ramo de alecrim fresco. Estava na hora de comer.

Nós nos sentamos à pesada mesa de madeira da sala de provas com aqueles tomates, travessas de crostini, pratos de pasta e fagioli feitos em casa e doses generosas de Podere Còncori Melograno. “Este não é um vinho simples, é mais complexo, mas esquenta a gente”, disse Gabriele.

Arte e erudição fazem parte desse mundo, que atrai italianos que vão para as montanhas refletir e filosofar. Muitos agricultores que conheci eram músicos, alguns, pintores e todos tentaram me instruir.

“Você precisa ler Goethe”, disse Stefano Amerighi, me deixando intrigada: como ele sabia que eu não lera? Estávamos em seu vinhedo perto da aldeia de Cortona, 240 quilômetros a sudeste. “A Metamorfose das plantas explica nossa filosofia. Os seres humanos desperdiçam muito. Com os métodos biodinâmicos, não se perde nada; aproveitamos tudo. Goethe ajudará você a entender.”

Ele me guiou por um caminho de terra que passava entre as parreiras verdes e luxuriantes. Embora a tarde estivesse muito quente, o mundo sob as parreiras parecia mais fresco, quase com ar condicionado. Chegamos ao pasto, lar das vacas brancas Chianina de Stefano.

“Monocultura não é agricultura”, disse ele. “A fazenda é como um ser humano: precisamos da cabeça, do coração e dos órgãos para fazer um organismo completo.”

Antes de eu ir embora, visitamos a adega. Enquanto andávamos por entre grandes barris de um shiraz que envelhecia, notei que os barris de cerâmica estavam cobertos de desenhos a giz de borboletas, estrelas e arco-íris: o mundo feliz, em tons pastel, da filha de 7 anos de Stefano.

Foi o lembrete mais incisivo de que estávamos bem longe de uma fazenda fabril. Embora possam estar separados por centenas de quilômetros, esses fazendeiros são quase uma família. “Quando cai granizo, ligamos uns para os outros e pedimos sugestões”, disse Gabriele. “Não há rivalidade entre mim e Stefano, Helena e Arianna. Fico muito impressionado com o que Arianna fez.”

Arianna Occhipinti: uma das maiores produtoras de vinho biodinâmico

Pode-se dizer que a matriarca desse mundo é Arianna Occhipinti, embora não seja a melhor palavra para descrevê-la. Com 35 anos, essa mulher de cabelos pretos e grossos, pele mediterrânea e grandes olhos castanhos iniciou seu vinhedo orgânico e biodinâmico no sudeste da Sicília em 2010.

Arianna é uma das maiores produtoras de vinho biodinâmico (mais de 130 mil garrafas por ano), um dos primeiros de alta qualidade a serem reconhecidos pelos críticos.

Encontrei-a no pátio de sua vinícola, não muito longe da cidade histórica de Ragusa. Cercados de oliveiras e pés de lavanda, nós nos sentamos em cadeiras de vime, bebericando taças de Occhipinti Nero d’Avola.

Fazendeiros como Arianna acreditam que “têm responsabilidade pelas pessoas do futuro”, como ela disse. “Estamos num bom momento: os jovens estão fazendo vinho, há mais sensibilidade. O mais importante é pensar pequeno e não em produção, produção, produção.”

Estou percebendo que essas fazendas biodinâmicas são paraísos autossustentáveis. Plantam o que precisam, não produzem muito lixo, respeitam a terra. Fui convencida.

Vinícola Fonterenza

Foi mais ou menos nesse momento que deixei meus filhos pequenos perambularem sozinhos pela horta da vinícola Fonterenza, administrada por duas irmãs, Margherita e Francesca Padovani. Quinze anos atrás, elas transformaram um palazzo de quatrocentos anos nos morros de Montalcino em um tipo de éden vinícola afastado de todas as coisas ruins do mundo.

Meus filhos saqueavam os tomates maduros e as ameixas caídas da horta. No bosque de ciprestes, eu ouvia o som de seus risos, das brincadeiras, de uma infância feliz. Estava me sentindo bem orgulhosa, até ouvir a voz de Margherita: “Crianças, se virem uma cobra, batam o pé no chão com toda a força!”

Mudança de planos! Ao sentir o pânico materno, Francesca sugeriu que fôssemos almoçar na cidade de Sant’Angelo in Colle.

A partir dos limites da cidade secular no alto de um morro, o campo se espalhava como uma verdejante colcha de retalhos costurada por estradas de terra. Andamos até a praça principal, onde uma criança solitária caminhava com uma bola de futebol. Em 2014, ano do último recenseamento, a população era de 204 habitantes.

A Trattoria Il Pozzo: lugar da clássica culinária toscana

Éramos dez para almoçar: meu marido, os pais dele, nossos filhos, as irmãs Padovani, John, marido de Margherita, e sua filha pequena. Juntamos algumas mesas no terraço do Il Pozzo, pequena trattoria que serve a clássica culinária toscana. Sob a copa dos guarda-sóis brancos, a luz do fim do verão nos banhava. “Aqui, vinho é alimento: é nossa cultura, nossa história”, disse Francesca. “O vinho sempre foi feito pelos fazendeiros, não por pessoas que se consideravam vinicultores.”

O garçom distribuiu pratos de fiori di zucca quentes e crocantes com insalata caprese, enquanto Francesca enchia nossos copos com Fonterenza Rosso di Montalcino.

“As grandes vinícolas fazem vinhos que têm o mesmo gosto”, disse ela. “Isso não é vinho. Vinho é o encontro da beleza da safra, sua personalidade: 2014 foi uma safra fria e difícil; 2015 foi o oposto, cheia, madura e feminina. A safra sempre tem de contar uma história.”

Os sinos lentos e pesados da igreja nos lembraram que era meio-dia e, aos poucos, o céu ficou nublado. A paisagem escureceu. “Peguem suas coisas; vai cair um toró”, disse Margherita, enrolando o bebê numa manta e se levantando da mesa.

Um segundo depois veio o dilúvio. Rios de água da chuva escorriam pela rua. Entramos para nos proteger (e tomar um caffè macchiato) – todos menos meus filhos, que correram para a praça.

Observei-os pulando nas poças, os braços estendidos, querendo que chovesse mais. Margherita ficou a meu lado e passou o bebê para o ombro.Perguntei-lhe se era difícil ser mulher naquele setor. “Ninguém achava que conseguiríamos”, disse ela. “E não sabíamos muito. Plantamos meio hectare de cabernet sauvignon. Não deu certo. E, se soubéssemos o que estávamos fazendo, não teríamos quebrado tantas máquinas. Mas acreditávamos que fazíamos a coisa certa.”

Esses jovens agricultores de pele bronzeada e pulseiras de couro vivem um tipo de utopia boêmia: fazer um belo vinho usando apenas as ferramentas oferecidas pela Mãe Terra.Que a lua e as estrelas sejam seu guia.Pense pequeno e não desperdice nada. Escute música e leia Goethe.


DICAS DE VIAGEM

Vinícolas

  • Na Podere Còncori (39-338 3031367; podereconcori.com), uma aula de agricultura biodinâmica, prova de vinhos e um prato quente por 30 euros.
  • Podere Le Ripi (39-0577835-641; podereleripi.it) é uma elegante vinícola biodinâmica em Montalcino. Reserve a cantina com antecedência.
  • Os proprietários da Colombaia (39393-3623-742; colombaia.it) não oferecem visitas oficiais, mas têm dificuldade de recusar visitantes.
  • A Fonterenza (39-338 4620489; fonterenza.it) faz os vinhos típicos da região e mais um vinho de mesa suave e levemente tânico.
  • Na fazenda de Stefano Amerighi (39-335609-5187; stefanoamerighi.it), é tão divertido conhecer suas vacas quanto provar as diversas safras de shiraz.
  • A Azienda Agricola Arianna Occhipinti (39-0932-186-5519; agricolaocchipinti.it/en), no sul da Sicília, é bem equipada para visitas com provas.

Restaurantes onde se pode provar os vinhos

  • Osteria La Porta (Via del Piano 1, Monticchiello; 39-0578-755-163; osterialaporta.it). Escolha uma mesa no terraço.
  • Cerca de duas horas ao norte de Florença, a Locanda di Mezzo (Piazza Santissima Annunziata 7, Barga; 39-0583-171-7525) oferece a moderna culinária toscana.
  • A Trattoria Il Pozzo (Sant’Angelo in Colle; 39-0577-844-015; trattoriailpozzo.com) oferece um cardápio toscano clássico.

POR DANIELLE PERGAMENT DO NEW YORK TIMES