A corrente humana que salvou vidas

Quando dois meninos ficam presos na corrente de retorno, os outros visitantes da praia recorrem a um plano arriscado para salvar a vida deles.

Redação | 29 de Novembro de 2018 às 17:00

Kruck20/iStock -

Até hoje, quase um ano e meiodepois de seu ato espantoso de heroísmo grupal, as dezenas de pessoas que arriscaram a vida para salvar dois meninos do afogamento em Panama City Beach, na Flórida, se encantam com a lembrança. O carpinteiro tatuado que tinha quase se afogado um ano antes. O casal asiático que não falava inglês. A avó que sobrevivera recentemente a dois infartos e que, antes que os meninos fossem salvos, teria um terceiro. Um após outro, eles pularam nas ondas, dando as mãos e os braços para se estender quase cem metros em meio a uma corrente de retorno que ameaçava engolir quem se aproximasse.

Os socorristas a chamam de Corrente Humana. Foi mesmo a “corrente” física que salvou os meninos, passados de mão em mão até voltarem à segurança da praia. Mas foi o aspecto profundamente “humano” da estratégia dos socorristas que a tornou tão extraordinária.

“Houve gente que nem sabia nadar e estava até o pescoço dentro d’água, segurando-se em outras pessoas”, diz Bryan Ursrey, pai dos dois meninos. “Eles poderiam simplesmente ter continuado seu dia e não se importado. Mas, no fundo do coração, acharam bom ajudar a fazer o que tinha de ser feito. Isso renova a nossa fé na humanidade.”

Como tudo começou

A história começa em8 de julho de 2017, no extremo noroeste da Flórida, uma região de trabalho duro e cerveja gelada. Os integrantes da família Ursrey, oito pessoas no total, aproveitam a tarde juntos na praia. Enquanto o sol baixa no horizonte, os dois meninos – Noah, de 11 anos, e Stephen, de 8 – pegam suas pranchas de bodyboarding e vão para as ondas sem que os adultos notem. Quando chegam a uns 70 metros da praia, os meninos percebem que o oceano os puxou para fora. Depois de tentar remar de volta sem conseguir, eles começam a acenar e gritar por socorro. Mas os salva-vidas já tinham ido embora. Há uma bandeira amarela hasteada, indicando cautela, mas a maioria dos frequentadores nem se lembra de ter visto outra cor.

Os meninos estão lutando há vários minutos quando Brittany e Tabatha Monroe, um casal da Geórgia, passa por ali. A princípio, elas não veem os meninos, mas os escutam. Pulam na água e logo chegam aos irmãos, que ainda estão em água rasa, com menos de 1,80 metro de profundidade. As mulheres tranquilizam os meninos assustados e seguram suas pranchas – e descobrem que, agora, elas também estão com um grande problema. Não conseguem voltar à praia e mal tocam o fundo do mar com os pés. Em poucos minutos, elas percebem que estão todos presos numa corrente de retorno.


A corrente de retorno

Essas correntes ou refluxos se deslocam perpendicularmente à praia e podem exaurir com rapidez os nadadores que tentam combatê-las. Um refluxo forte pode levar até o nadador mais forte para o mar; a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos relata que, em 2017, 92 pessoas se afogaram nessas correntes. Os especialistas em segurança explicam que não se deve lutar contra a corrente e aconselham a quem ficar preso numa corrente de retorno nadar paralelamente à praia até sair desse cinturão mortal. É o que as mulheres tentam fazer, mas, por mais que se esforcem, descobrem que ainda estão presas.


O início do resgate

Brittany, que está com Stephen, de 8 anos, é miúda e tem dificuldade de manter a cabeça acima da água. Em pânico, ela solta o menino e faz uma tentativa frenética de se salvar. Nisso, alguns adolescentes ouvem a comoção. Um deles, um garoto com altura suficiente para ficar de pé na água, corre até Brittany, a agarra e a leva de volta para a praia.

Enquanto isso, Tabatha sente que é arrastada para mais longe. Ela bate as pernas para se manter na superfície, já exausta e começando a se desesperar, agora que tenta, sozinha, salvar os dois meninos. As ondas não param de jogá-la para baixo enquanto os meninos boiam a seu lado.

Na praia, Brittany está histérica e apavorada. Um homem, voltando para o carro, para.

– O que foi? – pergunta Shaun Jernigan.

– Minha mulher está se afogando! – diz Brittany.

Shaun olha e vê as três cabeças oscilando entre as ondas. O robusto carpinteiro da Geórgia entra na água imediatamente, apesar da razão forte e incomum para não fazer isso. Um ano antes, naquele mesmo local, Shaun foi arrastado por uma corrente de retorno e escapou por pouco de se afogar. Ele já conhece a sensação desagradável da água batendo no nariz e nas orelhas enquanto o aspirador da corrente puxa a areia sob os pés. Ainda assim, ele vadeia o mais que pode, com água até o queixo, até perceber que está à beira do ponto de onde não poderá voltar.

Ainda há enormes quatro metros e meio entre Tabatha e os meninos e ele. Ela grita por socorro, e ele quase não suporta abandoná-los, mas sabe que, se continuar, se tornará outra vítima. Então dá meia-volta.

– Por favor, não me abandone – implora Tabatha ao desconhecido musculoso. – Estou quase morrendo!

– Não estou indo embora – responde Shaun. – Já volto.

Mais oumenos nesse momento, Roberta Ursrey, mãe dos meninos, volta do banheiro e procura pelos filhos. Fica chocada ao vê-los em suas pranchas muito além do que tinham permissão de ir. Ela grita para que voltem para a praia, e, entre lágrimas, eles gritam que estão presos. Um raio de pânico a atinge. Ela joga o celular na areia e sai correndo para a água. Combate as ondas para chegar aos filhos que gritam e à desconhecida que tenta salvá-los.

– Vou ajudar vocês – diz Roberta. – Vou tirar vocês todos daí.

Ela agarra a prancha dos meninos e começa a bater os pés para voltar à praia, mas logo descobre a mesma dificuldade. É quase impossível avançar em qualquer direção.

Agora, outras pessoas começam a notar o grupo isolado, embora a gravidade da situação não esteja totalmente clara. A alguns metros, um casal asiático caminha na água rasa e tenta encher uma boia redonda de criança. Provavelmente, pretendem ajudar os meninos, mas, quando tenta conversar com eles, Roberta esbarra na barreira do idioma. Um pouco além deles há um rapaz numa prancha de surfe tentando pegar onda. Tabatha e Roberta lhe pedem ajuda aos gritos; elas sabem que, se todos segurarem a prancha, sobreviverão até que chegue um barco de resgate. Mas o surfista ri e se afasta.

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Roberta vê Justin Hayward, seu sobrinho adulto, emergir perto da praia. Ele estava explorando o fundo das águas rasas, sem saber o que acontecia mais além. Agora, ele vê que a tia e os primos pequenos estão em dificuldade. Embora tenha fraturado a mão jogando futebol americano nessa mesma praia uma semana antes, ele nada com força em direção aos meninos.

– Não venha para cá! – grita Roberta. – Vamos nos afogar.

Mas, mesmo assim, o rapaz nada até eles.

– Me dê um dos meninos – diz ele à tia.

Roberta não consegue se forçar a soltar nenhum dos filhos. Justin finalmente a convence a lhe dar Noah, de 11 anos, e tenta rebocá-lo sobre a prancha até a praia. Mas Justin também percebe que não está à altura da força da água.

Felizmente, mais ajuda está a caminho. Shaun Jernigan, o carpinteiro que quase se afogou um ano antes, pediu à filha que ligasse para a emergência e está voltando para a água. Ele procura freneticamente uma corda ou outro equipamento salva-vidas quando vê um homem correndo na direção da água. Ele tenta impedi-lo.

– Não vá para lá! – diz Shaun. – Estamos tentando tirá-los!

Mas Bryan Ursrey continua correndo, desesperado.

– É a minha família que está lá! – diz ele.

A corrente humana

Shaun avista dois policiais e dispara até eles. Mais tarde, ele dirá que os dois, além de se recusar a ajudar, também tentaram impedir que ele e outros entrassem na água. O homem os ignora e reúne mais alguns frequentadores da praia, que, juntos, começam a entrar na água. Para não perder o pé na corrente, eles se dão as mãos, e isso faz com que tenham uma ideia. Por que não formar uma corrente humana que vá da praia até os nadadores presos no refluxo? Contanto que o elo mais distante fique ligado a quem ainda esteja com os pés firmes na areia, todos ficarão a salvo.

É claro que isso exigirá mais elos, talvez dezenas deles. Shaun avista Derek e Jessica Simmons, um casal de moradores locais de 20 e poucos anos que começa a incentivar as pessoas que assistiam ao drama com preocupação passiva.

– Não fiquem aí parados! – grita Derek. – Tem de haver algum resto de esperança pela humanidade em vocês!

Então, o mais espantoso acontece: um a um, elo a elo, desconhecidos entram nas ondas e se seguram pelos pulsos, decididos a não deixar ninguém morrer na praia.

A miúda Jessica Simmons é uma nadadora extremamente forte. Enquanto seu marido Derek continua a recrutar socorristas, ela agarra duas pranchas de bodyboarding e nada até além da fila que está se formando para ver como pode ajudar. Quando chega ao fim da corrente humana, vê que ainda faltam quase dez metros até o grupo de nadadores. Um homem alto, na ponta da fila de voluntários, lhe diz:

– Acha que consegue trazê-los até aqui, o suficiente para podermos agarrá-los?

– Acho que sim – responde Jessica.

Quando se vira, ela vê o marido nadando logo atrás dela.

– Eu não deixaria você aqui sozinha – diz Derek.

Justin tentava desesperadamente levar o primo mais novo até a corrente humana, em parte mergulhando sob as ondas para “andar” no fundo do mar, segurando a prancha acima da cabeça.

Derek tira das mãos de Justin a prancha de Noah e diz ao menino:

– Tudo vai dar certo. Fique em sua prancha.

Em certo momento, Noah cai; Justin o agarra pelo calção e o põe de volta na prancha. Assim que Derek chega com Noah à ponta onde Shaun se encontra, é como se ocorresse um relâmpago. Shaun começa a passá-lo para trás. E ouve as pessoas gritarem “Puxem! Puxem!” até a praia. Em pouco mais de um minuto, o menino é levado para terra firme.

Jessica estava ajudando o pequeno Stephen a chegar à corrente humana, agora com uns 70 voluntários; quando a alcança, o garoto também é levado para a praia.

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Em seguida vem Roberta, tão exausta que desmaia enquanto Jessica a ajuda a chegar aos voluntários. De um elo a outro, as pessoas passam adiante o corpo inerte de Roberta e o depositam na areia. Ela levará cinco minutos para despertar. No fim das contas, foi uma bênção, considerando o que está acontecendo com sua mãe no oceano.

Barbara Franz, de 69anos, vê os dois netos lutarem e nada para a zona de perigo logo atrás de Justin, apesar de ter sofrido dois infartos nos dois meses anteriores. Em minutos, a água a vence. Ela ainda está na água quando Roberta e os meninos são transportados até a praia. Na verdade, ela não percebe que foram resgatados e perde a esperança, porque seu corpo continua a frustrá-la.

Justin, desesperado, tenta fazer a avó se manter numa prancha, mas ela escorrega, os membros não respondendo ao seu comando. Repetidamente, as ondas os atingem; ela afunda e Justin a traz de volta, tomando cuidado com a mão fraturada. Derek nada até lá para ajudar. Nisso, Barbara está delirante e incoerente, dizendo: “Larguem-me, salvem-se”.

Aparentemente, ao perceber a gravidade da situação, o surfista retornou e deu sua prancha ao casal asiático, também preso na corrente de retorno. Derek, já quase exausto, vê a oportunidade de salvar Barbara e reza para ter forças. Com um jorro de energia, ele a pega e a iça entre o casal. E ela fica ali até que os três consigam levá-la até a uns três metros da corrente humana, onde há outra prancha de bodyboarding. Eles a colocam sobre a prancha menor.

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Justin dá um jeito de nadar até o fim da corrente humana para acrescentar mais um elo e assegurar que sua avó seja levada até a praia. Quando o homem a seu lado agarra sua mão ferida, Justin ouve os ossos voltarem a quebrar. O homem solta a mão e se encolhe, mas Justin diz que está tudo bem.

Momentos depois, a corrente humana retira o casal asiático, e Justin e um desconhecido carregam Barbara até a praia. Ela parece sem vida, mas um instante depois começa a vomitar água do mar. Mais tarde, Barbara diz que sentiu Carl, o marido morto, chamá-la enquanto estava inconsciente e acredita que também esteve morta durante parte daquela provação. Ela passará alguns dias no hospital e levará meses se recuperando daquele terceiro infarto.

Agora todos estão napraia, a não ser Tabatha, que se debate a uns seis metros do fim da corrente humana, e Bryan, o pai dos meninos. Tabatha está mais do que exausta, mais do que desesperada.

Várias e várias vezes, ele enfia a ponta dos dedos do pé na areia e a empurra para a frente – e, várias e várias vezes, o mar desfaz seu pequeno progresso.

Shaun e os outros veem o que está acontecendo, e sobe o grito de mover a operação de resgate pela praia para mais perto de onde Tabatha está agora. Há um grande tumulto na beira d’água, e, um instante depois, a corrente se refaz, alinhada para resgatar Tabatha. Um nadador descansado vai até ela.

Tabatha lhe estende as mãos, e ele a reboca alguns metros até a corrente humana, que a leva rapidamente para a praia. Enquanto isso, Bryan consegue pisar no fundo e sai andando por conta própria. Milagrosamente, todos se salvaram.

Depois do resgate

A imensa maioria dos socorristas daquele dia continua anônima: o adolescente que ajudou Brittany na praia, o rapaz magro que trouxe Tabatha, o casal asiático. Todos eles merecem ser homenageados – mas não serão. Isso comove os Ursreys de uma maneira que eles não conseguem explicar. “Não importa a origem nem a idade”, afirma Bryan agora. “Todos pararam o que estavam fazendo. Largaram os celulares, tablets, tudo, e ajudaram a tirar minha família da água.”

“Aquelas pessoas na praia naquele dia foram anjos na Terra”, diz Roberta. “Do primeiro ao último elo daquela corrente, todos foram nossos heróis. Todas aquelas pessoas foram igualmente importantes.”

Por Derek Burnett