Ionut Ursu passou mais de uma hora no chuveiro do alojamento da Universidade de Bucareste, onde era estudante de geografia. Gel de banho, gilete e desodorante pareciam artigos de luxo para o romeno após passar quatro semanas em meio aos destroços do terremoto que sacudiu o Nepal em 25 de abril de 2015. O tremor deixou 8.500 mortos, 20 mil feridos e centenas de milhares desabrigados.

A história de Ionut Ursu

Ionut, deixara a capital do Nepal, Katmandu, às cinco da manhã, depois de doar sua barraca, sapatos e equipamento de montanhismo aos seus anfitriões: a Cold Feet Foundation, organização nepalesa sem fins lucrativos cuja função é ajudar as vítimas do terremoto.

No aeroporto, deu todas as roupas, exceto as que trazia no corpo.

Na noite anterior, chorara em sua barraca para purgar tudo o que havia visto: casas reduzidas a entulho, membros quebrados, crianças que perderam os pais e pais que perderam os filhos. Durante 28 dias, não teve tempo para ser emotivo. À noite, ia dormir exausto depois de comer uma tigela de arroz; de manhã, banhava-se no rio e começava tudo outra vez.

Ionut, aterrissara em Katmandu na quarta-feira, 6 de maio, com duas mochilas gigantescas – uma para o seu equipamento e outra com suprimentos médicos; era a sua primeira vez em um país estrangeiro. Não falava nepalês nem inglês e tinha de procurar as palavras no Google Translate. Foi para lá após ver no noticiário cenas com crianças nepalesas órfãs e desabrigadas, sabendo o quanto fora difícil para ele crescer sem o amor da mãe.

A infância e adolescência no orfanato

Abandonado com cinco dias de nascido, Ionut, era uma das cem mil crianças romenas que viviam em orfanatos – resquícios do regime comunista que impunha leis antiaborto, fazendo explodir a taxa de natalidade. Seus responsáveis tinham uma forma particular de torturar crianças que faziam xixi na cama. Ele jamais esquecerá o método da régua: uma mulher media as manchas de urina em centímetros, então batia nele o mesmo número de vezes. Para fugir da vida no orfanato, Ionut, encontrou refúgio no trabalho voluntário. Aos 16 anos, fez um curso de primeiros socorros. Ao se mudar para Bucareste, estudou para se tornar paramédico voluntário do Serviço de Ambulâncias.

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Ida para o Nepal e o trabalho voluntário

Para ir ao Nepal, Ionut, fez uma lista de todos os pertences que poderia vender: telefone, tablet, máquina de lavar, máquina fotográfica e relógio. A venda rendeu quase 1.500 euros, e amigos e professores também ajudaram. Cinco dias depois, foi recebido em Katmandu pela equipe da Cold Feet Foundation.

Ionut, e uma equipe médica foram para o distrito de Dhad­ing, 64 km a oeste, até uma região com oito vilarejos onde quase todas as 300 casas tinham desmoronado e 30 pessoas e inúmeros animais haviam sido esmagados sob os escombros. Todas as manhãs, durante duas ou três horas, voluntários da Cold Feet escalavam uma trilha na montanha até o local.

“Corações conversam entre si e, contanto que um deles saiba sorrir, a língua não é tão importante”.

Ionut, ajudou a carregar medicamentos, alimentos e lonas para erguer barracas militares destinadas a abrigar as mais de 500 pessoas que dormiam ao relento e durante o dia remexiam os escombros com as mãos nuas. Então, acompanhando a equipe, foi de porta em porta examinar os pacientes. Mediu pressão arterial, limpou feridas, fez curativos, preencheu prontuários. Nos momentos livres, Ionut, cavava buracos para as estacas que ancoravam as barracas e abraçava as crianças. Elas sorriam para ele, e um garotinho o fez prometer que aprenderia inglês. “É muito importante”, disse, e Ionut, concordou. Mas ao mesmo tempo sentiu que “corações conversam entre si e, contanto que um deles saiba sorrir, a língua não é tão importante”.

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Com o passar dos dias, Ionut, sentiu-se distanciar de seu próprio sofrimento, um fardo que carregava desde a infância. Numa das noites em que se deitou exausto na barraca, elaborou a missão de sua vida: “Enquanto eu tiver saúde, posso ajudar. Preciso oferecer gentileza.”

De volta em Katmandu

Depois de dez dias, Ionut, voltou para Katmandu e trabalhou como voluntário em hospitais. No Hospital Memorial Man­mohan, a equipe gostou dele de imediato, impressionada com o fato de ele ter vindo de um lugar tão distante como a Romênia para ajudar. O cirurgião ortopédico Shirish Karki recorda: “Aquele rapaz foi como um anjo para nós. Estávamos desfalcados porque muitos membros da equipe foram vítimas do terremoto. Ionut, levantava pacientes, limpava utensílios e executava outras pequenas tarefas tão importantes.”

Por Ionut, ser tão trabalhador e mostrar grande interesse pela cirurgia, Shirish permitiu que o voluntário o assistisse no centro cirúrgico. De início, Ionut, apenas passava os instrumentos, depois começou a inserir cateteres e cânulas e aprendeu a segurar músculos para serem suturados. Os feridos chegavam às dúzias todos os dias, e havia outros, talvez centenas, do lado de fora aguardando tratamento. As cirurgias podiam se estender até as nove ou dez da noite. Shirish e Ionut, lanchavam e conversavam, usando um aplicativo de telefone para a tradução.

A vida após o Nepal

Ao deixar o Nepal, Ionut, estava exausto e dez quilos mais magro, mas descobrira sua vocação. Hoje é voluntário do Serviço de Ambulâncias de Bucareste e continua a estudar geografia na universidade. Também faz trabalhos de design gráfico e oferece serviços de TI como freelancer.

Nas horas vagas, vende fotografias da viagem ao Nepal e procura novas formas de captar recursos para comprar e enviar kits médicos para Dhading e adquirir um eletrocardiógrafo para o hospital romeno onde nasceu.

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