Confira a resenha do livro A memória do mar, de Khaled Hosseini, autor do sucesso O caçador de pipas feita por Cláudia Nina, jornalista e escritora:

 

Em geral, quando se começa o ano, a ideia é criar a famosa lista de intenções e encher de futuro a planilha.

Mas, neste janeiro, eu queria fazer diferente: tentar recuperar algumas memórias para não me esquecer de tanta coisa que, com o tempo e a idade, a gente acaba deixando na beirada do caminho. Como carregar tanta bagagem estrada afora?

Já pensaram em fazer uma lista de lembranças que não gostaríamos de perder jamais? Eu tenho uma memória péssima. Mas, de repente, um facho de luz vindo não sei de onde ilumina uma recordação muito antiga e eu sei que, se não anotar ou transformá-la de algum modo na minha escrita, esta lembrança irá desaparecer como espuma na areia. Sei que é impossível guardar tudo. Nossa precária máquina de alojar vivências parece uma noz perto do que se tem para acumular em uma vida.

Eu tenho várias lembranças lindas do mar pois a praia era o programa de quase todos os finais de semana da infância.

Talvez a melhor delas seja a do meu pai me ensinando a boiar. Ele achava que era uma questão de segurança máxima alguém saber boiar e não sossegou enquanto não me fez boiar. Íamos juntos para o fundo e eu gostava de mostrar que já sabia nadar e mergulhar debaixo das ondas. Nunca meu pai foi tão imenso quanto naquela brincadeira molhada. Eu sabia que ele nunca iria me deixar afundar – e aí cabem todas as metáforas do mundo…

Ando às voltas com o tema da memória porque será o assunto central do meu próximo livro.

Além disso, gosto de vasculhar textos que falem sobre os temas que me perseguem. Um deles é A memória do mar, do mesmo autor do best-seller O caçador de pipas.

O trabalho, breve e lindamente ilustrado, é inspirado na história do menino sírio de 3 anos que morreu afogado no Mediterrâneo quando tentava chegar à Europa. O livro inicia recuperando as memórias que o narrador desejaria que o menino tivesse tido. Cenas de um país encantador, cheio de belezas e cheiros e cores, antes de ser devastado pela guerra.

A vivência do caos e sofrimento não apagou os cenários que ainda sobrevivem na mente de quem conta a história:

“A gente acordava de manhã cedo com o farfalhar da brisa nas oliveiras, os berros da cabra de sua avó, o tilintar das suas panelas, o ar fresco e o sol, um risco pálido cor de caqui ao leste. A gente levou você até lá quando era pequeno. No fundo do meu coração, guardo uma memória daquela viagem, de sua mãe mostrando para você um rebanho de vacas pastando no campo repleto de flores silvestres.”

A vida é assim: às vezes fica difícil “dessoterrar” as coisas boas do fundo do mar da memória.

A ideia de listar recordações que não deveriam sumir me pareceu de repente uma forma de construção de um futuro melhor. Assim, o que foi bom pode sobreviver de algum modo na planilha dos novos dias…
Um feliz 2019 para todos!

A memória do mar
Khaled Hosseini
(Globo Livros)
Por CLAUDIA NINA