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Papo de Livro

Papo de livro: o mundo irrecusável de Caio Fernando Abreu

Em "Contos completos", o poeta que marcou a contracultura brasileira explora temas como medo e solidão. Confira o "Papo de livro" da escritora Cláudia Nina sobre Caio Fernando Abreu!

Escrito por:

Julia Monsores

Redator
Caio Fernando Abreu
Divulgação Companhia das Letras
Publicado em: Última atualização:

Havia na minha mesa alguns tantos livros que eu dedilhava ao acaso na busca de uma frase que me pescasse para dentro dos parágrafos. Antes da história em si, o que me pega é a palavra, a frase improvável, aquela que não se espera e que, de repente, vira linha e anzol. Não achei nada que me motivasse até que o exemplar com os contos completos de Caio Fernando Abreu me puxasse com força.

Dei de cara com o mundo irrecusável de Caio.

A exemplo do que ocorreu com Clarice Lispector, o volume com as narrativas curtas agiganta a leitura do autor: apreende-se mais de seus profundos. A gente avança e avança rumo aos caminhos que o autor tortuosamente oferece. Que não se espere nada superficial ou luminoso; o texto é denso sem ser pretensioso, turvo, corajoso, algo triste e fatal, dramático, romântico e provocativo ao mesmo tempo. Ler Caio em perspectiva é, em uma palavra, uma experiência.

Um dos textos, “Poço”, não se pode definir como conto – um escrito? Algo bem sem rumo, a exemplo de vários outros, igualmente indefinidos quanto ao gênero. “Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. (…)”

“Então o narrador se enche de coragem e simplesmente diz – antes que o amor se despeça para sempre”

Textos cheios de coragem de morte, mergulhos cegos no mundo dos outros e no mundo íntimo de cada um, pequenos naufrágios, tragédias do amor. Caio é um turbilhão.

Um dos textos de que eu mais gosto, mas que ainda não conhecia antes de ler o volume de contos reunidos, é o belíssimo “Para uma avenca partindo”, em que um pouco da estética do autor se faz à medida que o narrador tenta se livrar do medo de penetrar no que não se sabe se terá coragem de viver ou de dizer. Mas ele persevera porque a opção no negativo é calar-se.

Então o narrador se enche de coragem e simplesmente diz – antes que o amor se despeça para sempre, depois de fechar a janela do ônibus e pegar a estrada:

“(…) você cresceu em mim dum jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira (…) em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente (…).”

Não é lindo?

Escreviver. O texto de Caio está propositadamente repleto de ecos clariceanos e aqui e ali há epígrafes da autora. Mas ele consegue respirar Clarice Lispector criando seu próprio oxigênio. Quem ainda não conhece o autor de Morangos mofados, não espere para entrar neste mundo tão cheio de imprevistos. Para quem já leu alguns dos livros, releia agora, sem pressa, os contos completos em perspectiva. Vale sublinhar frases e copiar para sempre em um diário.

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