“Não te amo mais.” A frase estava sufocada na garganta de Nina (sim, a personagem do livro que escolhi para este mês tem meu nome, mas juro que não estou me escondendo atrás dela). Ela ensaiava formas de dizer o que só depois de algum tempo conseguiu encontrar o caminho do outro, no caso o namorado, Pedro, de quem se distanciou aos poucos à medida que ela percebia a falta de comprometimento dele no relacionamento. Não eram as diferenças imensas entre os dois o que impediu que ficassem juntos, mas a dissintonia entre os desejos. Clichê? Sim, mas quem não viveu uma história semelhante que atire a primeira vírgula.

A história muito bem contada, ágil e certeira, está no romance de Anna Monteiro chamado Granulações. É bacana a forma como ela narra o momento em que o corpo vai sendo retirado da relação como último ato grandioso depois que a alma já se debandou há tempos. O que sai por fim? Os cheiros…

“Nina retira as roupas do armário, guarda em malas, fecha o zíper. Com ela se vai o cheiro que me embriaga e acende todos os meus sentidos. Joga tudo de qualquer jeito em cima da cama, guarda perfumes e cremes em nécessaires. Os cheiros, meu deus, os cheiros, ela vai embora com eles.”

Metade do livro é ele quem narra; metade, ela. As vozes se alternam, como a dizer para o leitor: escolha um lado ou, então, pense no que o amor significa para cada um e o que é a felicidade. O que ambos querem da vida são realidades distintas. A voz de Pedro é para mim a mais bem elaborada.

A história remonta às origens do encontro desde a construção da vida em comum, passando pela compra dos móveis à organização da casa, quando as dissintonias já existiam, mas ficavam latentes. Melhor fingir que não tinham importância.

O mundo perdido de Pedro e suas andanças pela madrugada regadas a uísque ajudam a desconstruir o que talvez, em hipótese, poderia render um romance mais longo a julgar pelo desespero do homem quando a mulher o abandona.

Fiquei pensando nas construções: se é difícil fazer subir os andaimes de uma relação amorosa, passo a passo, dificuldade a dificuldade, mais difícil ainda é a desconstrução final. Aquele momento em que se caminha por ruínas, mas há sempre o medo do arrependimento. Contudo, quando o outro parece não acrescentar sequer um tijolo à construção, de que vale seguir? São questionamentos (granulações) que permanecem depois desta leitura que pode ser um eficiente manual para quem está às voltas com a questão do rompimento final de um amor.

A pergunta: amor de verdade acaba?

Por Claudia Nina

Claudia Nina é jornalista  e escritora, autora, entre outros,
de Paisagem de porcelana (Rocco)

 

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