Amanhã é dia dos avós e também aniversário do meu pai.

O que causa um grande rebuliço no meu peito em ter apenas um dia direcionado as três pessoas que eu mais amo na vida.

Mas avós são seres iluminados, são seres intocáveis.

Ninguém pode fazer mal a um avô ou uma avó.

É algo impensável.

Se você é pai e vira avô, automaticamente tem uma cadeira no céu te esperando com um pote de sorvete Häagen Dazs dulce de leche.

Nós, netos e netas, sempre queremos ser iguais a eles, porque eles são exemplos de superação, de amor imensurável.

Penso nos meus avós como deuses e deusas.

Minha avó Lucy seria Afrodite: deusa da beleza que se originou da junção entre o céu e o mar.

Curiosamente, nós sempre conversamos na varanda, onde, da janela, avistamos o horizonte da praia. A junção entre céu e mar.

Minha avó América seria Atena, a deusa da sabedoria. Apesar de já morar no céu, lembro de seu carinho e seu olhar cuidadoso sobre mim.

A mulher sábia era ela.

Foto: Marisa9/iStock

Meu avô Antônio seria uma mistura de Apolo e Dionísio.

Um pouco de vinho, festas, natureza, safadeza, alegria.

E também sabedoria, arte, poesia, música, cura.

Foi  a pessoa que me incentivou a ser artista, no sentido amplo da palavra.

Pintávamos, escrevíamos, desenhávamos.

Apesar de Hermes ser o deus responsável de encaminhar as almas para o submundo, ele era o deus da sorte, das viagens, das estradas, da linguagem.

Esse seria meu avô Paulo, viajante, aprendiz da vida e que faz questão de contar como ir de um lugar a outro muda nossa visão de mundo.

Com ele, eu vou de Blumenau a Bilbao em horas de histórias infindáveis.

Mas, sorte tenho eu, de tê-los.

E de poder ter um pouco da magia de todos eles.

Ser ponderada como Paulo e bruxa como Lucy.

Ser cuidadosa como América e alegre como Antônio.

Eles são amores além da vida.

Deveriam viver pra sempre, apesar de sempre dizerem que seria um saco.

Então, penso: quando eu for avó, eu serei um pouco de tudo isso.

Foto: Jovanmandic/iStock

Safada, bonita, sábia, cheia de histórias… Viajada?

Talvez eu seja a melhor avó do mundo.

Porque eu vou me esforçar.

E meu neto ou neta escreva um texto assim pra mim no futuro, quem sabe?

Ou eu posso escrever do céu?

Até lá, a tecnologia já vai ter criado um 0800 direto pra lá.

E eu vou estar sentada nas nuvens comendo um Haagen Dazs dulce de leche.

Marina Estevão
Marina Estevão
Formada em Jornalismo pela PUC-RJ, sua paixão é escrever sobre o que vive, o que vê e o que sente. Afinal, toda história tem vários lados, o que muda é a forma de contá-la – sempre de bom humor.