Dr. Kentaro Takaoka, fluminense de Niterói, revolucionou a anestesiologia no fim da década de 1950, quando criou um pequeno aparelho que permitia a ventilação mecânica durante a cirurgia. 

Dr. Takaoka.

Médico, torneiro mecânico e inventor, Dr. Takaoka concebeu um pequeno aparelho que revolucionou as cirurgias no Brasil. Esse pequeno aparelho permitiu que, naquela época, fosse realizada a ventilação controlada em sistema aberto com oxigênio. Nascia, assim, o miniventilador Takaoka 600, de baixo custo e eficiência comprovada. 

As histórias do aparelho e de seu inventor estão no site do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo.

Quando Dr. Takaoka decidiu fabricá-lo em maior escala, fundou a K. Takaoka Indústria e Comércio Ltda. 

A oportunidade

Recentemente, o médico Alberto Esteves Gemal, também anestesiologista, recebeu uma proposta que o fez voltar no tempo: “Vamos refazer o Takaokinha?”. “Usei o cebolinha em dezenas de cirurgias”, lembra Gemal, que se formou no fim dos anos 1970.

“Cebolinha” e “Takaokinha” são os apelidos carinhosos do miniventilador Takaoka 600, uma invenção brasileira que ressurge para salva vidas em meio à pandemia do novo coronavírus.

O Takaoka 600 é pequeno – cabe na palma da mão –, é portátil e não precisa de energia elétrica para funcionar. Atributos que levaram os médicos Luiz Fernando Michaelis e Diógenes de Oliveira Silva a escolherem o modelo como ponto de partida para o projeto Breath4life, que busca desenvolver um ventilador mecânico de baixo custo e fácil replicação em impressoras 3D.

O resgate

Primeiramente, o desafio foi conseguir os aparelhos antigos, que no fim dos anos 1980 começaram a ser substituídos por respiradores mais modernos vindos de fora do Brasil. “Mas o aparelho funcionava tão bem que, quando entrou em desuso nos hospitais, muitos anestesiologistas os levaram para casa, com saudosismo”, conta Silva, que mora em Santa Catarina.

A Sociedade Brasileira de Anestesiologia fez um chamado, e logo quatro Takaokas foram disponibilizados para o projeto. Dois foram emprestados pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e os outros dois vieram de museus particulares de médicos de Campinas e do Rio de Janeiro.

Reuniram-se 56 voluntários de 12 estados brasileiros, entre eles médicos, designers, engenheiros e advogados, em torno da tarefa de reproduzir e certificar o equipamento.

Engenharia reversa

“Em oito horas fizemos a engenharia reversa dos aparelhos e em uma semana fizemos um protótipo que já ventilava”, diz Silva.

Um dos voluntários é o anestesiologista gaúcho Felipe Rech Borges, que tem dois Takaokas na garagem de casa, em Bento Gonçalves. Ele explica que o aparelho tem várias limitações se comparado aos respiradores modernos, que permitem um controle muito mais sutil da quantidade de oxigênio e da frequência respiratória. Mas, em um cenário de superlotação de UTIs, o equipamento seria um reforço precioso para ventilar pacientes menos graves ou ganhar tempo nos casos mais severos. “Não é um aparelho para ventilar uma pessoa por 10 ou 15 dias. Mas, se um paciente chega com insuficiência respiratória podemos deixá-lo no Takaoka por algumas horas ou até por um dia, até que seja possível achar um equipamento superior”, diz Borges. 

Por ser portátil e não precisar de energia, o aparelho também poderá ser usado em deslocamentos e locais com pouca estrutura. “É um equipamento que um soldado pode colocar no bolso da farda e levar de barco para o interior da Amazônia”, explica Silva.

Produção

Três Takaokas produzidos por impressoras 3D estão passando pelos ajustes finais. O próximo passo é o teste em porcos, e depois em seres humanos. A expectativa é que o processo seja concluído até o dia 27 de abril, quando um pacote de arquivos será disponibilizado para download no site do projeto.

O pacote vai incluir as indicações técnicas para impressão e um manual que explica como montar e usar o aparelho. O download será gratuito, e poderá ser feito de qualquer lugar do mundo. “Temos pessoas esperando pela conclusão deste projeto na Argentina, Colômbia e outros países latino-americanos, além de diversos estados brasileiros”, afirma Silva. 

Todo o processo vem sendo acompanhado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que precisa certificar o produto. O Takaoka deverá ser produzido por indústrias que tenham a expertise e as impressoras 3D necessárias para a missão. “Estamos nos preparando para uma situação de catástrofe, mas a verdade é que esperamos que nenhum desses respiradores tenha de ser usado”, admite Borges.

O Takaoka foi criado em 1951 por um brasileiro, filho de imigrantes japoneses. O médico Kentaro Takaoka faleceu em 2010, aos 91 anos. Sua grande perspicácia foi criar um ventilador que usa a pressão do próprio oxigênio para entrar em movimento, impulsionando o ar para dentro e para fora dos pulmões. “Este aparelho é uma obra de arte”, diz Borges. “Uma genialidade da física e da engenharia”, acrescenta Silva. “Orgulho nacional”, diz Gemal.

A partir de reportagem de FERNANDA WENZEL
PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS)