Um estudo liderado pelo pesquisador brasileiro Miguel Nicolelis chegou à conclusão de que o histórico de dengue pode contribuir para a imunidade contra o Covid-19. Lugares onde a população teve dengue no ano passado ou no início deste ano demoraram mais para ter a contaminação comunitária.

Ainda de acordo com o estudo, é possível que medicamentos ou vacinas em desenvolvimento para a dengue possam contribuir de alguma forma na proteção contra o coronavírus. 

“Essa descoberta surpreendente levanta a intrigante possibilidade de uma reação cruzada entre o vírus da dengue e o SARS-CoV-2. Se comprovada correta em futuros estudos, esta hipótese pode significar que a infecção pela dengue ou uma eventual imunização com uma vacina eficaz e segura para dengue poderia produzir algum tipo de proteção imunológica para SARS-CoV-2, antes de uma vacina para SARS-CoV-2 se tornar disponível”, diz o estudo. 

Correlação Dengue e Coronavírus

(Imagem: jarun011/iStock)

A pesquisa observou que houve uma série de falsos positivos relacionados entre pacientes que estavam com dengue. Algumas pessoas receberam um falso positivo para Covid-19 quando na verdade estavam com dengue.

“Isso indica que existe uma interação imunológica entre os dois vírus que ninguém poderia esperar, porque os dois vírus são de famílias completamente diferentes”, afirmou.

Além disso, foi percebido uma relação entre o crescimento de casos de covid-19 e a queda dos casos de dengue. Além da demora no crescimento da curva do coronavírus em lugares onde a dengue foi epidêmica no ano passado e/ou no início deste ano. 

Segundo o pesquisador, a descoberta foi feita durante a observação da curva geográfica do do coronavírus no Brasil e como as rodovias influenciaram na disseminação do vírus. Ao observar a disseminação geográfica da dengues, foi feita a correlação entre as doenças.

“Foi um choque, foi um acidente total. Em ciência isso acontece, você está atirando para um lado e acerta no alvo que você nunca imaginou que iria atirar”, disse o pesquisador. 

(Imagem: Bertrand Blay/iStock)

“Fui olhar no Ministério da Saúde se tinha alguma explicação para essas coisas estranhas, se tinham outros indicadores de doenças que eu não estava percebendo, e de repente encontro o mapa de dengue de 2020 do Brasil. Eu peguei o mapa de casos de coronavírus e coloquei lado a lado com o mapa de dengue, e encontrei o que a gente chama de distribuição complementar: regiões com pouco coronavírus estão cheias de dengue.”

Dengue desacelerou com a chegada do Covid-19

O estudo ainda mostra que a dengue iniciou 2020 muito mais acelerada do que 2019, no entanto, diminuiu o ritmo na semana anterior ao início da pandemia do coronavírus. E além disso, o surto acabou bem antes do que o mesmo período no ano anterior. Vale lembrar que este é um estudo epidemiológico e não teve nenhum teste sorológico que comprove a hipótese. 

“Ainda de acordo com a nossa hipótese, à medida que o coronavírus se espalhou mais rapidamente e infectou mais gente, sobrariam menos pessoas para serem contaminadas pelo vírus da dengue, e isso poderia explicar a queda repentina da curva de dengue este ano que ocorreu em todo o mundo”, disse.

Após os resultados, Nicolelis decidiu expandir os estudos para outros 15 países da América Latina, África e Ásia, que mostrou um comportamento parecido. O exemplo utilizado pelo pesquisador é o fato de que cidades com mais de 2000m de altitude, onde a dengue não chega, houve maior índice de casos de Covid-19.

Tentando encontrar uma correlação entre o mosquito Aedes Aegypt, foi analisado também dados da chikungunya, no entanto não foram encontradas relações, como na dengue. 

“Evidentemente que este é um estudo preliminar do ponto de vista do que fazer, mas ele abre uma porta que pode ser rapidamente explorada, e se ela for verdadeira, você pode ter um grau de proteção para coronavírus se você teve dengue ou se você é imunizado para dengue. Eu não sei dizer qual é a porcentagem, mas ela é suficiente para aparecer nesses gráficos. Alguma coisa existe”