A luta global contra a disseminação do coronavírus ganhou um capítulo local tão dramático quanto oportunista: a batalha pelo álcool em gel. A orientação da OMS (Organização Mundial da Saúde) de que o uso de álcool em gel a 70% é medida eficiente de prevenção e combate à pandemia do coronavírus gerou uma corrida pelo produto, que sumiu das prateleiras.

A escassez abriu caminho para aproveitadores, que criaram versões falsificadas (e ineficientes); para ludibriadores, que divulgaram receitas caseiras já refutadas por químicos como perigosas; e para especuladores, que inflacionaram o produto para lucrar com a aflição alheia.

Embalagens de 500 ml, que normalmente custam em torno de R$ 18, são oferecidas por até R$ 90. Frascos de bolsa, de cerca de 50 gramas, chegam a custar R$ 20.

Procon cria “Operação Corona”

Só em fevereiro, a procura por gel antisséptico no mercado online aumentou mais de 150% no Brasil, segundo levantamento da Compre & Confie.

Nos EUA, a Amazon baniu fornecedores que estavam praticando preços abusivos de álcool em gel ou marketing enganoso de seus produtos no início da crise do coronavírus.

Em São Paulo, o Procon deflagrou nesta semana uma força-tarefa de fiscalização contra essas práticas, chamada de Operação Corona. Equipes visitaram 50 estabelecimentos e notificaram 30 deles, que deverão apresentar, em 3 dias, documentos oficiais de compra desses produtos nos últimos três meses.

“Desta maneira, podemos verificar se a empresa está agindo de maneira oportunista por conta da crise, aumentando o preço de um produto em alta demanda para obtenção de lucro”, explica Guilherme Farid, chefe de gabinete do instituto paulista de defesa do consumidor.

Ações também têm sido disparadas pelo órgão em outros estados; em Santa Catarina, um mercado foi notificado.

Conduta é considerada prática abusiva

Segundo o Código de Defesa do Consumidor, aumentar preços de produtos ou serviços sem justa causa e obter vantagem desproporcional é caracterizado como prática abusiva.

O Procon, que lançou um canal específico de reclamações ligadas à pandemia do coronavírus, recebeu mais de 1.900 denúncias, e pede que os consumidores postem imagens dos produtos com preços inflacionados em redes sociais, marcando o perfil do órgão e discriminando o endereço do estabelecimento suspeito de cometer abusos por conta da crise.

“Precisamos de ajuda dos consumidores nessa fiscalização”, explicou Farid.
Foi o caso da professora Juliana Martins, 44. Alertada por parentes da falta do produto na cidade de São Paulo, ela resolveu passar numa farmácia na Riviera São Lourenço, no litoral paulista, mas encontrou o álcool em gel de 500 ml a R$ 50. O registro da compra foi postado nas redes sociais.

“Fiquei assustada porque achei que, neste momento de crise, as pessoas teriam mais respeito e empatia”, diz. “A gente se sente lesado e triste com a atitude de busca de um lucro desmedido em cima de uma fragilidade que pode custar uma vida.”

Para ela, empresas com esse tipo de prática não serão perdoadas pelo consumidor.

Bom exemplo

Se for assim, a papelaria Brasileirinho, no bairro do Paraíso, vai ganhar centenas de clientes.

Ao perceber o aumento da demanda por álcool em gel, o empresário William Lee, 33, resolveu comprar todo o estoque de seu fornecedor: 4.000 unidades de frascos de bolso, com 52 gramas cada, foram vendidas a R$ 5 cada.

“Comprei tudo pra poder vender mais barato. O álcool em gel se tornou uma necessidade básica neste momento de crise do coronavírus, e não dá pra querer lucrar mais com isso”, explicou ele. “Precisamos que as pessoas não fiquem doentes porque, se o comércio parar, São Paulo vai parar também.”

A política da papelaria ganhou as redes sociais e, portanto, novos clientes. Em 24 horas, o álcool em gel de Lee também acabou. E a solução, como destacam os médicos, é água e sabão.

FERNANDA MENA / FOLHAPRESS