Durante a pandemia, o distanciamento social tem causado estranhamento e dificuldade para ser seguido à risca. Imagine para os idosos como tem sido esse tempo longe dos familiares, sem nenhum contato físico com eles.

Pensando nisso, a criatividade ganhou espaço na luta pela melhora da saúde mental dos idosos.

“Isso é de verdade?” Essa é a reação de alguns dos moradores da Clínica Geriátrica Três Figueiras, em Gravataí (RS), ao verem uma cortina de plástico com mangas para que possam abraçar seus familiares com segurança durante a pandemia do coronavírus.

A ideia partiu da administradora do local, Rubia Santos Lima, após notar certo desânimo dos idosos após 60 dias isolados. Desde o surgimento da clínica, em 2016, o Dia das Mães por lá é sempre uma data agitada; as senhoras se maquiam e se arrumam e celebram o domingo com suas famílias. 

Dia das Mães na casa de atendimento a idosos

Neste ano, Rubia ficou pensando o que poderia fazer para melhorar o ânimo dos residentes, já que as visitas estão suspensas desde o início da quarentena e o contato que eles tinham com as famílias era por meio de videochamadas.

Ela combinou, como surpresa, com cada família para que levassem um presente para sua respectiva mãe e entregassem no portão. Passado o momento, porém, Rubia foi ver as fotos tiradas durante o dia e achou que elas não “tinham amor”. A festa não tinha sido como nos outros anos.
Logo depois, ela recebeu um vídeo que viralizou nas redes sociais, no qual uma mulher nos Estados Unidos que criou uma cortina plástica com braços abraça sua mãe durante o período de isolamento social. Vimos também o de uma menina de 10 anos que queria abraçar sua avó. Veja neste link.

“Liguei para a minha artesã e disse que precisava de uma daquelas para ontem”, diz a administradora do local, que afirma se preocupar com a saúde mental dos idosos que moram por lá, já que durante o período de isolamento social eles, por estarem longes de familiares, podem apresentar quadros de ansiedade ou depressão. 

Rubia diz que no início da pandemia ela e a assistente social do local fizeram uma palestra para explicar a crise sanitária e esclarecer por que durante um período as visitas seriam suspensas. “Eles ficaram bem tristes”, lembra a administradora, que explica que cerca de 80% dos 28 idosos da clínica são lúcidos e por isso entendem exatamente a situação que o país enfrenta.

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Contornando o distanciamento social

Para a inauguração do que a administradora batizou de “túnel do amor”, os familiares foram chamados ao local na semana passada. “A maioria estranhou, ficou preocupada ou perguntou ‘aconteceu alguma coisa?’. Quando eles se veem pelo túnel, é uma choradeira”, relembra ela. Rubia conta que as reações foram emocionantes durante o encontro, como de senhores olhando nos olhos dos filhos e dizendo que os amam.

Em menos de uma semana, todos os idosos receberam visitas. Para que o tal túnel seja seguro, os encontros acontecem com hora marcada e têm um intervalo de, pelo menos, 40 minutos entre em e outro. Nesse tempo é feita higienização com água, sabão e hipoclorito da superfície dos dois lados. Além disso, todos que entram no local têm a temperatura medida. 

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Alguns dos idosos sofrem de mal de Alzheimer e, logo de cara, estranharam a novidade. Nesses casos, a equipe da casa auxilia, dizendo que o túnel é como vestir um casaco, colocando os braços dentro da manga. Ela também fez braços adaptados para os idosos que usam cadeira de rodas.

A repercussão da novidade na casa de repouso foi tamanha que Silvia Regina Lopes, a costureira responsável pelo túnel, foi procurada por pessoas de outros estados querendo encomendar um igual.

A artesã, que é especializada em cortinas, chegou a produzir máscaras durante a pandemia, mas relata que esse desafio foi ainda maior. Em poucos dias, porém, Regina e seu marido conseguiram entregar o pedido. “Saiu bem como a gente queria”, diz.

ISABELLA MENON
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)