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Publicado em: 2 de julho de 2021

Refúgios na Europa: conheça 5 lugares incríveis

Cinco editores europeus revelam seus lugares favoritos perto de casa.

Imagem: ©GETTY IMAGES

Durante a pandemia, viajar se tornou uma das maiores saudades mundiais. Por isso, nesta matéria, reunimos editores de vários países europeus que contaram com exclusividade seus lugares preferidos para visitar e relaxar perto de casa. Confira aqui os pontos que você não pode deixar de conhecer no futuro, e aproveite para viajar sem sair de casa!

A vista dos vinhedos em Stuttgart

Os vinhedos perto da Colina Württemberg. (Imagem: ©GETTY IMAGES)

Há um lado positivo em não poder viajar tanto quanto eu gostaria: estou descobrindo lugares mais perto de casa. Um deles, a Capela Sepulcral na Colina Württemberg, nos arredores de Stuttgart, se tornou meu novo destino favorito. A estrutura neoclássica foi construída em 1824 pelo rei Guilherme I para ser o descanso final da esposa, Catarina. Fica no distrito de Rotenberg, acima do Vale do Neckar – 411 metros acima do nível do mar, para ser exato –, a poucos quilômetros de minha casa na vizinha cidade medieval de Esslingen.

Adoro a vista maravilhosa dos muitos vinhedos que cercam Stuttgart, onde se produzem vinhos Riesling, Pinot Noir e o tradicional tinto Trollinger. Mas você também pode olhar para o sul e ver as fábricas em torno da sede mundial da Daimler Ag, o Museu Mercedes e a Torre de TV de Stuttgart – todos marcos da capital do estado de Baden-Württemberg que ilustram com perfeição sua diversidade.

Num prédio anexo à capela, há um pequeno restaurante que serve pratos típicos da Suábia, como maultaschen (massa recheada com carne e espinafre), salada de batata e bolo de maçã. Também há um bar ao ar livre, mas, como a vista do vale é limitada, muitos visitantes pegam uma taça do vinho local e vão para o gramado verde acima dos vinhedos a fim de apreciar a paisagem, com a capela se elevando atrás deles.

Eu e minha mulher gostamos de pedalar 15 minutos pelos vinhedos até esse lugar especial; é uma fuga maravilhosa de nossa casa numa tarde de sábado ou domingo. Com uma taça de vinho ou um coquetel Aperol Spritz, às vezes ficamos para assistir ao pôr do sol atrás da torre de TV, no outro lado do vale. Podemos até imaginar que olhamos as colinas da Toscana, na Itália, e não um vale densamente povoado da Alemanha. Não consigo pensar em nada mais agradável tão perto de casa.

Por Michael Kallinger
Editor da revista alemã

A mais holandesa das paisagens

O castelo de Muiderslot, do século 16. (Imagem: BEEMFLIGHTS/CORTESIA DO CASTELO DE MUIDERSLOT)

Há um lugar onde sempre paro para apreciar a paisagem quando estou de bicicleta: fica na borda do Lago Markermeer, a uns 15 quilômetros (40 minutos pedalando) de minha casa em Almere. Pego uma estrada vicinal ao longo da base do dique, junto ao lago, e, num ponto específico, desço da bicicleta e subo no dique. Para mim, esse lugar é a mais holandesa das paisagens e abrange a história de meu país. No dique, pode-se realmente sentir o que significa a palavra Nederland – “países baixos”.

O Markermeer, no nível do mar, fica de um lado e, do outro, começam as terras baixas, nas quais nós, holandeses, só conseguimos manter os pés secos drenando milhões de litros d’água por dia. Antes eram nossos famosos moinhos de vento que bombeavam a água, até serem substituídos por estações de bombeamento a motor.

O dique onde fico é ladeado de salgueiros; nos dias quentes, eles dão sombra para vacas e ovelhas se juntarem. A distância, consigo ver o castelo de Muiderslot (hoje chamado de castelo de Amsterdã para atrair os turistas da capital a 10 quilômetros). Fica na entrada do Rio Vecht, pequeno mas importante, e foi construído defensivamente, mas também para cobrar impostos. Seu morador mais famoso, o juiz e coletor de impostos P. C. Hooft, do século 17, foi um intelectual de destaque. Poeta e historiador, ele trabalhou na gramática do idioma neerlandês que se tornaria oficial e substituiu uma mistura de dialetos. O castelo foi restaurado no século 19 e é esplêndido.

Eu me lembro de ir lá quando criança com meus pais e com os colegas de sala como parte da aula de história. Eu fitava as coleções de espadas, elmos e alabardas antigas e fantasiava cavaleiros em combate, mas não entendia o significado histórico do lugar. À direita, a distância, fica a minúscula Ilha de Pampus, onde era feita a quarentena do porto de Amsterdã no século 17. Quando havia alguém doente num dos navios que chegavam, a embarcação ficava semanas de quarentena.

Ainda temos uma expressão holandesa para alguém que esteja extremamente cansado e sonolento: “Está lá em Pampus.” Quando estou na própria Amsterdã, na verdade não sinto sua história, provavelmente porque nasci e me criei lá. Para mim, os canais magníficos e as casas inigualáveis da cidade são o papel de parede de minha juventude, de meu lar. Mas a linda cena que aprecio em meus passeios de bicicleta pelo Lago Markermeer me deixa hiperconsciente da história desse lar.

Por Paul Robert
Editor da revista holandesa

Acima do Lago Genebra

O Mirador de Ferodentos dá para o Atlântico. (Imagem: S.PLEZ. / SFRAMIL-PN ILLAS ATLÁNTICAS CORTESIA DO PARQUE NACIONAL DAS ILHAS ATLÂNTICAS) 

Há um prado que parece sobrevoar o Lago Genebra, bem acima de Montreux. Vou lá sempre que posso; a paisagem é muito calmante e poderosa, muito suíça. Quando criança, eu ia lá todo mês de maio com minha mãe, meu irmão menor e minha avó para colher narcisos. Com nosso cão boiadeiro de Berna, subíamos até a cidade pela pequena ferrovia de cremalheira e depois andávamos um pouco. Meus pais tinham deixado a Bélgica alguns anos antes para morar na Suíça, e, todo ano, minha avó vinha de Bruxelas a fim de passar um mês conosco às margens do Lago Genebra.

Para ser franco, na época o interesse meu e de meu irmão não era colher narcisos, mas ficávamos contentes de passar o dia com nossa avó, que, por sua vez, ficava feliz por estar conosco. Íamos para os pastos unidos pela mesma tarefa. “Não arranquem os bulbos”, avisava nossa mãe, “senão as flores não voltarão a brotar!” Minha avó era mais dedicada do que nós; de cócoras, passava os dedos pelo capim no nível do chão e escolhia com cuidado as melhores flores. Ao observá-la de longe, não percebíamos que ela nos enviava uma mensagem: a felicidade está em toda parte, ao alcance das mãos. Minha avó era cega. Não podia se maravilhar com a paisagem, mas gozava a felicidade da vida. Ela teve de esperar muito tempo por essa felicidade.

Quando fez 70 anos, disse: “Minha infância foi feliz, com pais amorosos, assim como minha velhice é feliz com vocês. Mas no meio…” Ela não entrava em detalhes, mas sabíamos que falava das privações da guerra – e da vergonha das atividades do marido no mercado negro, ao mesmo tempo em que ela participava da Resistência. Meu avô abandonou sua honra, enquanto a mulher cuidava de alimentar os filhos com cupons de racionamento e legumes da horta, ao mesmo tempo que fazia sua parte para defender o país. Veio a libertação, mas esse marido indigno a maltratou por duas décadas até ele morrer. Mais tarde, ela perdeu a visão; nas visitas à Suíça, o perfume dos narcisos tinha ainda mais valor para ela. Quando descíamos do prado, levávamos buquês. Vovó nos incentivava a colocá-los na estufa para secarem e se conservarem. Ainda os tenho. Acho que não tenho nada mais precioso.

Por Stéphane Calmeyn
Editor da revista francesa

Dois lugares especiais na Espanha

Adoro explorar lugares em meu país. Um dos pontos favoritos de minha família no verão é um grupo de ilhas no
noroeste da Espanha, perto da fronteira com Portugal. Quando vamos à Ilha de Ons, é como se chegássemos à borda do mundo. Na verdade, Finesterra, que significa “fim da Terra”, fica a poucos quilômetros pelos penhascos íngremes da chamada “Costa da Morte”. Chegamos à ilha de barca e desembarcamos no pequeno porto de Ons. Não há carros nem estradas, e seguimos a pé um dos vários caminhos que levam às lindas praias de água azul, transparente e muito fria, se nossos filhos e eu ousarmos nadar! Você pode seguir o caminho do farol ou dos belvederes, como o Mirador de Ferodentos. Seu círculo de pedra foi construído há poucas décadas, mas me dá uma sensação de antiguidade. Outro lugar especial da ilha é o Buraco do Inferno. É uma caverna de granito com uma entrada pelo mar que, há muito tempo, diziam ser os portões do inferno: o rugido das ondas, combinado com os gritos das aves marinhas, soava como almas em sofrimento.

Visitar a Ilha de Ons é como voltar no tempo, quando a única alma viva lá seria o faroleiro. Ali consigo esquecer os problemas da vida moderna. Também amo o teatro romano de Mérida, na Extremadura, a oeste de minha casa em Madri. Mérida é a antiga cidade romana de Emerita Augusta, fundada em 25 a.C., cheia de sítios arqueológicos. Um dos mais famosos é o anfiteatro romano, onde todo verão se realiza o Festival de Teatro Clássico de Mérida. Nas noites quentes, é possível apreciar a brisa fresca enquanto se assiste aos espetáculos. À medida que espera a peça começar, você absorve o clima do lugar. Fico espantada ao ver que o anfiteatro data do século 8 a. C. e que lá gladiadores e animais selvagens se enfrentavam. Sentada nesse clima, nessas pedras, quase sentimos que Júlio César também está lá, decidindo que gladiador vai viver ou morrer. Isso me dá arrepios. Nós, europeus, temos a sorte de estar cercados pela história do Velho Mundo. Na Espanha, parece que ela está em toda parte. Visitar o anfiteatro de Mérida me lembra de valorizar isso ainda mais.

Por Natalia Alonso
Editora da revista espanhola

No oásis de Londres

Hampstead Heath: o “pulmão de Londres.” (Imagem: ©GETTY IMAGE)

Hampstead Heath, às vezes descrito como o pulmão de Londres, fica a apenas 6 quilômetros do centro da cidade. Os prados e as colinas cobertas de florestas ocupam 325 hectares, e há muito tempo a área tem aspectos artísticos e literários.

Em 1819, por exemplo, quando Hampstead ainda era uma aldeia, o famoso pintor de paisagens John Constable andou pelo Heath esboçando nuvens. No mesmo verão, John Keats, outro morador do local, passeou por lá com amigos entre poemas como “Ode a um Rouxinol”. O Heath mantém seu poder de atração.

A vista dos contornos da cidade é belíssima no alto do Parliament Hill, onde as pessoas vão soltar pipa, fazer piquenique e, em ocasiões mais raras, se maravilhar com um eclipse. Moro em Londres, perto do Heath. Tenho muitas árvores favoritas lá, mas nenhuma mais do que a sequoia-sempre-verde que habita um ponto especial perto de um dos muitos laguinhos. E isso porque certa noite, várias décadas atrás, plantei essa árvore quando ela era só uma muda. Aconteceu assim: minha mulher, Linda, é da Califórnia, onde as sequoias chegam a uma altura de 100 metros e podem viver mais de mil anos; são encontradas em florestas em partes do litoral do estado. Linda encontrou um horto florestal do País de Gales, no oeste do Reino Unido, que produzia mudas da espécie e podia enviar uma delas à nossa casa em Londres. Mas não pudemos plantá-la em nosso pátio minúsculo. Assim, numa noite escura e tempestuosa de 1976, saí com a pá e fui para o Heath com nossa mudinha num carrinho de mão.

Escolhi um ponto que achei discreto abaixo do lago, onde ficaria escondida e se beneficiaria de estar perto da água. Desde aquela noite, a árvore sobreviveu a muitas ameaças. Nos primeiros anos, temíamos que fosse confundida com uma árvore de Natal e cortada. Certo inverno, o peso da neve na folhagem superior curvou e ameaçou quebrar a copa. Sacudimos a neve, que nos cobriu também; uma leve curva no tronco é um lembrete até hoje. Outra ocasião, participei de um passeio guiado pelas árvores do Heath, cheio de vontade de contar a origem da sequoia, mas me calei quando o guia especializado desdenhou o que, então, era uma “árvore exótica” adolescente com 7 metros de altura. Nós nos recusamos a ficar envergonhados com sua crítica cortante a quem tinha achado adequado plantá-la. Hoje, 45 anos se passaram, e os guardas-florestais que cuidam do Heath ainda não sabem como a sequoia foi parar lá. Ainda assim, eles e os caminhantes de fim de semana a aceitam pela lindeza que é, ocupando seu lugar entre as faias, as bétulas e os carvalhos veteranos que dominam a paisagem.

Caminho no Heath toda manhã e dou uma paradinha para lhe prestar homenagem. Faço um carinho na casca vermelha e esponjosa. Linda e eu não conseguimos mais dar as mãos em torno da circunferência crescente do tronco. Esperamos que os netos de nossa filha vejam nossa sequoia-sempre-verde chegar em segurança ao próximo século, crescendo sempre para cima e se aproximando do próximo milênio.

Por Alex Finer
Ex-editor da revista internacional

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