Há 60 anos, um Fusca era produzido totalmente no Brasil, montado com peças nacionais. O carrinho, que já vendeu mais de 21 milhões de unidades em todo o mundo, vive no coração do brasileiro como nenhum outro. Sua tradução do alemão é “carro do povo” (Volkswagen); em Portugal ele é chamado de “carocha” (que no Nordeste tem outro significado) e, no Brasil, de o inesquecível “fusquinha”.

Em 1970, após algumas alterações no motor e no seu desempenho, era lançado o Fuscão, com 1.700 cilindradas. O último ano de produção do Fusca no Brasil foi 1996, quando teve um período da nova versão produzia de 1993 a 1996, durante o governo de Itamar Franco.

Criado para ser um carro do povo, idealizado por Hitler em maio de 1934 e desenvolvido por Ferdinand Porsche, a criatura desvencilhou-se do seu criador e sobrevive até os dias de hoje. O fusca parou de ser produzido durante a guerra. A produção comercial foi retomada no fim de 1947. Se você procura um carro para comprar, veja nosso artigo e responda às 8 perguntas.

Alguém pediu opinião?

“O veículo não apresenta requisitos técnicos fundamentais… seu desempenho e características não interessam ao comprador médio. É muito feio e barulhento. Poderá, no máximo, ser popular por dois ou três anos.”

Esta foi a opinião da comissão britânica, formada no fim da Segunda Guerra Mundial, para elaborar um relatório sobre o futuro do principal produto da indústria automobilística alemã, o Volkswagen. Os americanos corroboraram a opinião acrescentando uma frase lapidar: “Não vale nada.” Sessenta anos depois, o “carrinho feio”, conhecido como “Beetle” nos EUA, ainda está no coração do povo – e, claro, ainda em muitas garagens.

Hitler ficou no passado

Hitler, que sempre fora um apaixonado por automóveis, estava interessado no “carro do povo” como veículo de propaganda. Estipulou que o Volkswagen devia poder transportar um casal e três filhos, consumir no máximo 8,3 litros de combustível a cada 100 km e alcançar 100 km/h. Exigia também que fosse vendido por 1.000 Reichsmarks (cerca de 400 dólares na época), um preço muito baixo e completamente artificial, possível apenas à custa de pesados subsídios à indústria automobilística – ordenados pelo ditador.

Mas Hitler não chegou a ver o Volkswagen tornar-se o “carro do povo”. Os cidadãos alemães foram incentivados a pagar as prestações dos carros, mas nunca receberam nenhum. Até o fim da guerra, a fábrica só produziu veículos militares. Contudo, o dinheiro das prestações foi desviado para os cofres do Estado. No fim da guerra, Hitler estava morto e a fábrica do Volkswagen praticamente reduzida a escombros.

Sucesso pós-guerra

Embora inicialmente os aliados tenham revitalizado a produção do carro, não se interessaram pela hipótese de investir nele, e a Volkswagen voltou para a mão dos alemães. Seu sucesso nacional contribuiu para o renascimento da economia alemã, mas as ligações com Hitler e o design não convencional inviabilizaram sua exportação.

No fim dos anos 1950, uma agência de publicidade americana o batizou de Beetle (besouro) e o lançou numa campanha muito bem planejada – e o resto é história. Por aqui e pelo mundo ele já foi táxi, carro da polícia (“joaninha”)  e hoje é um bem inestimável para quem tem um.

fusca

Como carro de polícia, o nosso teve o apelido de “joaninha”. Foto: RUBEN RAMOS/iStock.

Entretanto, se o carro é econômico ou não são outros quinhentos. Embora o carro esteja fora de linha, muitos acreditam que possa voltar a ser produzido, mas sem alterações, por favor. Reza a lenda que nenhum Fusca é acompanhado de perto por carros novos e de outras marcas; já que se envolver em um acidente com o carrinho é o maior prejuízo, graças à sua “carcaça” de besouro.

Os que ainda rodam por aqui hoje são de estimação. Saem para dar uma volta e retornam para sua garagem sem nenhuma reclamação do barulho. Nem da falta de ar-condicionado ou do gasto de combustível. Quem tem um não se importa se ele chega a 100 km ou quantas pessoas cabem dentro dele. Ele continua a ser uma paixão nacional.

É tanto amor envolvido que muitos Fuscas têm até nome. Eu mesma conheci dois Guris e um Bombeirinho, vermelho naturalmente.

Por ELEN RIBERA