Assisti a Tubarão em 1975, quando foi lançado. Eu tinha 9 anos e ainda me lembro que o cinema explodiu quando Brody finalmente matou o monstruoso animal. Adorei o filme e, naquela noite, sonhei com um tubarão saindo do vaso sanitário e vindo atrás de mim pelo corredor.

Cresci na água, na casa de meus avós no litoral do estado americano de Connecticut. Embora continuasse a nadar depois de Tubarão, era sempre com medo vago de dentes puxarem minha perna a qualquer momento. Não importava que, desde 1900, só tivesse havido duas mordidas de tubarão no litoral de Connecticut. Os fatos nunca têm tanto destaque quanto os sentimentos.

Assim, quando me pediram esta reportagem, decidi que faria o que nunca quis fazer: nadar com tubarões. Teria aulas de mergulho e iria a um lugar nas Bahamas chamado Tiger Beach (praia do tigre), onde mergulharia com tubarões-tigre, a espécie com mais ataques registrados a seres humanos depois do grande tubarão-branco. Seria meu primeiro mergulho após obter a certificação; ou seja, seria meu primeiro mergulho num lugar que não fosse a piscina ou alguma mina abandonada e inundada. A maioria dos que ouviram falar do plano achou que eu era muito corajoso ou muito burro.

Mas eu só queria desfazer uma ilusão. As pessoas que conhecem intimamente os tubarões costumam ser as que têm menos medo deles. Os de Tiger Beach falam com amor dos tubarões-tigre, do mesmo modo que todo mundo fala de seus bichos de estimação. Eles lhes dão apelidos e se animam quando descrevem características de sua personalidade. Aos olhos dos mergulhadores, esses tubarões não são assassinos. (Em 2017, houve apenas cinco mortes decorrentes de ataques de tubarão no mundo inteiro.)

O importante papel do tubarão-tigre no ecossistema

Mas isso de desfazer ilusões é complicado, porque a realidade raramente é uma coisa simples ou seu oposto simples. Em 2015, na véspera do meu mergulho em Tiger Beach, chegou a notícia de que um tubarão-tigre atacara um homem. O pé teve de ser amputado. Foi um dos três ataques em Oahu só naquele mês. Parte de um preocupante surto de ataques nos últimos anos que levou o Havaí a encomendar um estudo dos padrões de movimento dos tubarões-tigre.

Mas os tubarões-tigre não são importantes apenas pelas muitas pessoas que mordem. Como predadores no alto da cadeia alimentar, eles atuam como força de equilíbrio fundamental no ecossistema oceânico, restringindo o comportamento de animais como as tartarugas marinhas. Desse modo, são essenciais para a saúde dos ecossistemas de ervas marinhas, hábitat da vida selvagem do mar.

Com maxilares e dentes projetados para rasgar objetos duros como carapaças de tartaruga, um tubarão-tigre pode morder primeiro e pensar se é comestível depois.

 

Além disso, o papel dos tubarões-tigre nos ecossistemas oceânicos provavelmente aumentará se o planeta e seus oceanos continuarem a esquentar. Os tubarões-tigre adoram água morna, comem quase tudo, têm ninhadas grandes e são uma das espécies mais resistentes. Também estão entre as maiores: as fêmeas maduras podem medir mais de 5,5 metros e pesar mais de 540 quilos. Somente poucas espécies, além dos tubarões-brancos, são maiores. Portanto, esta é a explicação mais completa de minha ida a Tiger Beach: conhecer os tubarões que podem povoar cada vez mais os mares.

Conhecendo Tiger Beach

Na verdade, Tiger Beach não é uma praia. É um banco oceânico baixo, uns 40 quilômetros ao norte da ilha Grande Bahama, uma colcha de retalhos de areia, erva marinha e recifes de coral que começou a atrair mergulhadores há cerca de uma década. É um excelente hábitat para os tubarões-tigre e oferece condições ideais para observá-los. A água tem de 6 a 13,5 metros de profundidade e, em geral, é extremamente límpida. A gente prende pesos ao corpo, vai até o fundo e observa os tubarões passarem.

Mas, por mais que mergulhar seja fácil do ponto de vista técnico, em geral a técnica dos mergulhadores vai melhorando aos poucos. Meus colegas tinham centenas de mergulhos em seu histórico e, nas duas horas de barco até o local naquela manhã, não paravam de dizer coisas como “Uau, não dá para acreditar que este é seu primeiro mergulho”.

Mas a conversa acabou quando chegamos ao local e nossos operadores de mergulho, Vincent e Debra Canabal, começaram a jogar pedaços sangrentos de peixe no mar. Quase de imediato, a água se encheu de dezenas de tubarões-bico-fino, com 1,5 a 2 metros de comprimento. Então tubarões-limão – um pouco mais compridos e esguios do que os tubarões-bico-fino – surgiram aqui e ali. Finalmente Vincent avistou uma enorme silhueta escura. “Tigre!”, gritou ele, apontando.

Nadando com tubarões em Tiger Beach

Vincent vestiu a roupa de mergulho e pulou com um caixote de cavalas para alimentar os tubarões. Em parte para ocupá-los enquanto entrávamos na água, em parte para assegurar que não estivessem com muita fome quando entrássemos. Achei tudo isso tranquilo até que cheguei ao fundo e, imediatamente, tive de rechaçar o primeiro tubarão-tigre em que pus os olhos, com todos os seus 360 quilos.

Na descrição que Debra fez do caso mais tarde, era apenas “Sophie”, que estava curiosa e queria fazer amizade. “Ela adoroooooou você”, disse ela, por causa de toda a atenção que Sophie me dedicou durante o mergulho. Na hora, não tive tanta certeza. Eu parecia um ninja cuidadoso demais com a vara de plástico de um metro que levava para afastar os tubarões.

Mas, depois de observar como Vincent e Debra lidavam com eles nos mergulhos da semana seguinte – acariciando-os depois de lhes dar um peixe, afastando-os com gentileza quando chegava a hora de irem embora –, ficou fácil ver os tubarões a uma luz muito benigna. Em nenhum momento eles fizeram um movimento súbito ou agressivo na direção de ninguém; eles se deslocavam devagar e com atenção, nadando em grandes círculos e depois deslizando até a caixa de comida. Eu me senti surpreendentemente seguro na presença deles.

Os tubarões-tigre de Tiger Beach, em sua maioria, estão acostumados com mergulhadores e habituados a ser alimentados. Mas até os que não conhecem a rotina geralmente não são perigosos para mergulhadores. Os tubarões-tigre são caçadores de emboscada, que recorrem à furtividade e à surpresa para pegar a presa. Na Tiger Beach, ninguém está remando ou nadando às cegas na superfície, como a maioria das vítimas de ataques. Você está no nível dos tubarões, apresentando-se como algo diferente de uma presa – e isso torna relativamente seguro mergulhar com eles.

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Mas não mais do que isso. Há vídeos de quase acidentes em Tiger Beach. Num deles, um tigre vai atrás da perna de um mergulhador, e, em outro, em 2014, um mergulhador simplesmente desapareceu.

Nosso grupo chegou a levar um susto quando um peixe-anjo veio parar em nosso meio, e os tubarões-bico-fino e os tubarões-limão ficaram frenéticos, perseguindo-o enquanto ele se escondia entre nossas pernas. Todos acharam que alguém seria mordido na confusão. Havia três tubarões-tigre de 450 quilos por ali que, de repente, poderiam se interessar por um mergulhador ferido a se debater.

Voltamos à água no dia seguinte. Mas aquele foi o tipo de acaso que nos lembra que os tubarões são selvagens e inerentemente imprevisíveis. E, de acordo com os cientistas que os estudam, os tubarões-tigre são mais imprevisíveis ainda.

Entendendo melhor os tubarões-tigre

Peguei o avião para Oahu para me encontrar com Carl Meyer na Universidade do Havaí e conversar sobre sua pesquisa acerca do aumento recente de ataques de tubarões-tigre. Meyer e sua equipe instalaram marcadores rastreados por satélite e dispositivos de acompanhamento acústico em centenas de tubarões. Ele diz que mal estão começando a entendê-los.

Os movimentos da maioria das espécies de tubarão não são muito previsíveis, diz ele.

“Os tubarões-tigre podem aparecer a qualquer momento do dia e da noite e podem estar aqui num dia e voltar no seguinte ou vir um dia e sumir por três anos.”

Pelo menos parte dessa imprevisibilidade deve ser causada pelos hábitos de caça dos tubarões. Os tubarões-tigre recorrem à surpresa para caçar, e, “se eles forem previsíveis, as presas se adaptarão a essa previsibilidade. Desse modo, faz sentido aparecer de repente numa área e não ficar muito tempo por lá”.

Meyer diz que não sabe por que o número de mordidas de tubarão aumentou no Havaí, pulando de uma média de apenas quatro por ano, de 2000 a 2011, para mais de dez por ano, de 2012 a 2016. Mas ele diz que esperaria ver mais ataques a longo prazo por causa do aumento do número de pessoas em águas havaianas.

O crescimento do número de ataques no outono (de setembro a dezembro), padrão observado há gerações pelos nativos havaianos, também pode ser em função da existência de mais tubarões em torno das ilhas nessa época do ano. Ele ressalta que é quando os tubarões-tigre vão às ilhas principais para procriar. As fêmeas fazem um imenso investimento de energia quando ovulam. Seus óvulos são do tamanho de bolas de beisebol, e pode haver 80 filhotes numa ninhada. Assim, as fêmeas chegam à ilha com fome, precisando repor as reservas de energia depois do parto.

O filhote recém-nascido, de um metro de comprimento, tem no corpo as listras que dão nome ao tubarão-tigre. As listras desbotam quando o tubarão cresce.

 

Outra teoria possível envolve a proliferação de tartarugas marinhas. Depois de décadas de intensa exploração, as tartarugas-verdes foram protegidas em 1978 por uma lei federal americana. Hoje, elas são comuns ao largo da costa do Havaí e um alimento frequente dos tubarões-tigre. Com mandíbulas largas e dentes inclinados, os tubarões-tigre conseguem esmagar e rasgar a carapaça de uma tartaruga adulta, ao contrário da maioria dos outros tubarões. Assim, se há mais tartarugas dividindo a água com mais gente, o resultado pode ser mais mordidas de tubarão.

A relação entre tubarões-tigre e tartarugas marinhas pode ter amplas consequências para a saúde dos ecossistemas oceânicos do mundo inteiro.

Numa parte remota do litoral oeste da Austrália chamada Shark Bay [baía do tubarão], uma equipe de pesquisa comandada por Mike Heithaus, da Universidade Internacional da Flórida, documentou que os tubarões-tigre impedem as tartarugas-verdes e os dugongos de comer em excesso as ervas marinhas que embasam o ecossistema. Não apenas comendo os animais, descobriram os pesquisadores. A presença dos tubarões muda os hábitos de tartarugas e dugongos e os força a comer com mais cautela para reduzir riscos.

“Se você olhar os lugares onde a população de tubarões se reduziu e a de tartarugas é protegida, como nas Bermudas, parece que essas áreas estão perdendo as ervas marinhas”, diz Heithaus.

Nas Bahamas, que proibiram a pesca com espinhel em 1993 e declararam suas águas um santuário de tubarões em 2011, os ecossistemas marinhos são relativamente saudáveis. Mas o adjacente Atlântico ocidental, que inclui as Bermudas, protege muito menos os tubarões e parece estar sofrendo as consequências.

Neil Hammerschlag, ecologista marinho da Universidade de Miami, estuda os tubarões-tigre no Atlântico ocidental. “Trabalho na Flórida e nas Bahamas, e são situações opostas”, disse ele. “Vemos diferenças enormes no tamanho e no número dos tubarões. Eles vão bem nas Bahamas, mas quase nunca os pegamos ao largo da Flórida. E são apenas 80 quilômetros de distância.”

Em 2012, a Flórida proibiu que se matassem tubarões-tigre em suas águas. Mas é o único estado americano do litoral leste a fazer isso, e a lei federal permite que, dentro de certos limites, esses animais sejam capturados e mortos em águas dos EUA, na pesca comercial ou recreativa.

A influência do cinema na vida marinha

O filme tubarão não foi responsável pela maioria das ameaças enfrentadas pelos tubarões-tigre – ocupação imobiliária da costa, poluição marítima, pesca de espinhel, a popularidade da sopa de barbatana de tubarão –, mas criou uma atitude cultural que se mantém há muito tempo. Depois de Tubarão, além de paranoicas com tubarões, as pessoas ficaram insensíveis e até vingativas.

Nas décadas de 1970 e 1980, surgiram torneios de pesca de tubarão na costa leste dos Estados Unidos; dezenas deles continuam a existir e comemoram o espetáculo dos “tubarões monstros” pendurados nas docas. Fui a um desses torneios, e a lembrança que me ficou é a de uma mulher com o filho pequeno, apontando um anequim com os maxilares ensanguentados abertos para as câmeras e dizendo, como se quisesse que ele repetisse: “Aaah, que medo!” Os tubarões podem dar medo, é verdade. Mas passei alguns dias em Kauai com Mike Coots, fotógrafo que, aos 18 anos, perdeu metade da perna direita no ataque de um tubarão-tigre quando praticava bodyboard em 1997. Ele logo voltou à água e diz que quase nunca pensa em tubarões quando está surfando. “As pessoas daqui entram na água desde que usavam fralda”, disse ele. “Elas simplesmente não têm medo de tubarão.”

Para confirmar, perguntei aos meninos que brincavam na frente de casa se tinham medo de tubarão, e eles responderam “Não” como se fosse a pergunta mais burra que já ouviram. Tinham mais ou menos a mesma idade que eu quando assisti a Tubarão.

No verão de 2015, enquanto eu planejava meu mergulho em Tiger Beach, veio a notícia de que um tubarão-tigre de 360 quilos fora capturado ao largo da costa da Carolina do Sul. O jornal USA Today chamou o tubarão de “monstruoso” e descreveu os pescadores como “corajosos”. Quando voltei do Havaí, olhei a reportagem outra vez. Ao ver a imagem do tubarão eviscerado na doca, pensei que tinha mais ou menos o mesmo tamanho de Sophie, e aquelas não foram as palavras que me vieram à mente – nem para o tubarão, nem para os homens que o mataram.

POR GLENN HODGES DA NATIONAL GEOGRAPHIC

DA NATIONAL GEOGRAPHIC MAGAZINE (JUNHO DE 2016), © NATIONAL GEOGRAPHIC CREATIVE SERVICES. NATIONALGEOGRAPHIC.COM