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Publicado em: 1 de junho de 2020

O Algarve está de volta

A ensolarada e tranquila província do extremo sul de Portugal ganha o mundo.

Imagem: IMAGE PROFESSIONALS GMBH/ALAMY STOCK.

O Algarve, província no extremo sul de Portugal, é mal-ajambrado em abundância. Os jardins transbordam sobre os muros em ruínas. Laranjeiras e figueiras largam os frutos nas calçadas, em respingos amotinados. Em todos os quintais há pilhas caóticas de motores de popa, e em cada esquina um trator avança com lentidão perigosa – ou um adolescente de motocicleta tenta tirá-lo da rua.

A questão é que boa parte do Algarve parece selvagem.

Certa noite, no meio do nada, você estará num pequeno restaurante conversando com um português com calça de trabalho e barba de três dias, e de repente ele se aproximará de você com um garfo de dois dentes trazendo um naco de algo do mar, cujo nome não dá para traduzir: um bocado quentíssimo, pingando azeite. Ele insiste: “Experimente.” E você obedece. E queima a boca. Mas é tão completamente delicioso, tão ricamente simples, que você não desejaria que fosse de outro jeito.

Nada disso é o que eu esperava. Achava que o Algarve tinha passado do ponto. No decorrer de milênios, a região foi invadida por fenícios, romanos, visigodos e mouros. Mais recentemente, nas décadas de 1970 e 1980, foi dominada pelo turismo barato do Reino Unido, da Alemanha e de outros países, e assim se definiu a reputação moderna do Algarve. (“Quando penso no Algarve, penso em pacotes turísticos”, afirmou um amigo.)

Mas aí comecei a ouvir uma história diferente: partes do litoral tinham sido recuperadas, hotéis de muitos andares foram demolidos. E, embora as viagens a Portugal estivessem explodindo, eu ouvia dizer que o Algarve era cheio de locais desconhecidos: lugares ótimos para surfar, pousadas em fazendas, hotéis-butiques e lojinhas. Isso indicava que Portugal estava encontrando um modo de reverter o efeito do turismo excessivo.


O Algarve vem perdendo a imagem de pacote turístico ao reviver setores do litoral.

O centro histórico de Faro oferece pontos turísticos e ruas de paralelepípedo.
Sardinhas grelhadas são uma especialidade regional.

Assim, em setembro, voei para Lisboa. O ar e o mar ainda estariam quentes, me informaram, mas a multidão seria menor. Meu plano era evitar o movimentado litoral sul do Algarve e explorar os limites selvagens ocidentais, cheios de regiões protegidas, penhascos dramáticos e surfe, e depois ir de carro para o leste e experimentar o agroturismo numa paisagem de aldeias antigas, vilas de pescadores e fazendas produtivas.

Peguei o carro alugado no aeroporto de Lisboa e fui para o sul, numa linha reta que levou quase três horas para chegar a Lagos, capital da província do Algarve nos séculos 16 a 18.

A antiga cidade é labiríntica e cheia de morros, um amontoado de casas caiadas, azulejos coloridos e telhados de terracota. Na manhã de domingo, o lugar estava vazio. As placas das ruas não eram abundantes.

Estacionei o carro e parti a pé para procurar meu hotel – e na mesma hora me perdi. Então, o aroma de alho me fez virar a cabeça. Por uma janela aberta, ouvi um dueto português no sistema de som de alguém. Baixei a mala e fiquei imóvel. A canção terminou e, com o equilíbrio restaurado, logo cheguei ao hotel.

“Teve dificuldade de nos encontrar?”, perguntou com um sorriso a mulher na recepção. Antes que eu mentisse e dissesse que não, ela me ofereceu um copo de vinho branco.

Localizada no tranquilo lado norte da cidade, a Casa Mãe é um hotelzinho elegante instalado numa propriedade abandonada – um salpico de arte contemporânea num ambiente antigo. Também é resolutamente português. Os tapetes, as cerâmicas, até o bloco de papel de meu quarto foram feitos por produtores locais. Depois de uma caminhada e um jantar leve, seguido por cama cedo, levantei-me na manhã seguinte, dei algumas braçadas na piscina azul-profundo do hotel e saí.

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Fui para o norte por recomendação de um amigo: a Praia do Amado, que faz parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Essa faixa de 100 quilômetros acompanha a extensão oeste do Algarve e é margeada por promontórios cobertos de musgo, penhascos batidos pelas ondas e praias gloriosas. A reserva se beneficiou de um grande impulso por parte do governo para embelezar o litoral, e isso fica visível.

A estrada de duas pistas se tornou um caminho que serpenteia pela floresta de pinheiros. Cerca de meia hora depois, cheguei a uma longa praia de areia. Famílias tomavam sol e faziam piquenique. Estacionei ao lado de um alemão de óculos escuros que arejava a roupa de surfe. “Não está cheio demais?”, perguntei. “Aqui, não”, respondeu ele. “Há ondas para todo mundo.”

Vinte minutos e seis euros depois, graças a uma empresa amistosa acima da praia chamada Amado Surf Camp, eu estava no oceano com uma prancha alugada.

Mais tarde, perguntei a uma moça numa loja onde os habitantes almoçavam. Ela me mandou descer 200 metros pela rua até o Restaurante do Cabrita, lugar pequeno com um terraço sombreado lotado de fregueses. Por cerca de 14 euros, comi meia dúzia de sardinhas – especialidade regional, grelhadas e flocosas – com uma salada, batatas cozidas e cerveja gelada. Uma das garçonetes, com voz preocupada, me perguntou: “As sardinhas… you like?”

Garanti que gostava muito.

Depois do almoço, dirigi sem destino. Pela janela aberta, vinha a maresia, o aroma resinoso dos pinheiros e um sopro ocasional de fumaça de churrasco. Em certo ponto, parei numa estrada de terra e, durante 15 minutos, segui uma trilha de caminhada por barrancos cobertos de flores selvagens e uma velha cabana em ruínas – ou seria uma capela? – até chegar a um penhasco rochoso acima do vasto Atlântico. Era basicamente a beira do continente. Se alguém já tivesse ficado ali, pensei, e imaginado que era a borda do mundo, conseguiria entender por quê.

“Se quiser realmente apreciar o Algarve, é preciso navegar”, me disse Paulo Gonçalves no dia seguinte em seu barco enquanto nos afastávamos da terra. Embora o Algarve ocidental seja todo de penhascos escarpados e ventos oceânicos, o litoral sudeste é famoso pelas lagoas protegidas e faixas de praias perfeitas. Conheci Gonçalves, que comanda os passeios de barco, e sua funcionária Sara Kellen num cais de Faro, capital e maior cidade do Algarve, e zarpamos na maré alta, entre barcos de pesca.

O plano era explorar a laguna de Ria Formosa. Classificada como parque natural em 1987 e, mais recentemente, livrada de empreendimentos imobiliários não autorizados, a Ria Formosa fica entre o litoral sudeste do Algarve e o oceano, do qual é protegida por uma barreira de ilhas. “A gente pesca aqui há séculos”, disse Gonçalves.

Fomos para a ilha da Culatra – cerca de 6 quilômetros de comprimento e menos de 1 quilômetro de largura – e atracamos na aldeia de Culatra. Pescadores andavam pela cidade ou consertavam redes; tinham terminado a pescaria horas antes. Gonçalves sorriu. “Você gosta de ostras, não é?” Um pescador pusera no gelo para nós cerca de duas dúzias de ostras da pescaria da manhã.

Gonçalves as abriu com habilidade enquanto Kellen desarrolhava uma garrafa de vinho rosé. As ostras estavam frescas, espessamente salinas. Tinham ao mesmo tempo gosto de mar e de ar; era como se tivessem o sabor do próprio momento.

“O jeito português é ser ativo”, afirmou Lionel Alvarez, gerente de meu próximo hotel, a Vila Monte Farm House. “É desarrumado. A gente começa a apreciar a beleza de ser natural.”

Com certeza, Vila Monte segue esse princípio. Empoleirado num morro entre Faro e Tavira, o lugar transpira rusticidade de alto nível. O saguão contém uma feira de hortaliças em miniatura; minha suíte de dois cômodos ficava num laranjal muito bem-cuidado. Escondidos no terreno extenso, havia um cinema ao ar livre, duas piscinas e dois restaurantes.

“A principal atividade aqui é nada”, disse Alvarez. “Não há ‘faça’ nem ‘não faça’. Não é complicado.”

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Passei o resto de minha estada praticando o mantra de Alvarez. Pelo menos, tentei. Perambulei pelo centro histórico da minúscula Cacela Velha. Escalei os contrafortes de um castelo medieval em Tavira. Em Santa Luzia, uma cidade de pescadores, desci o cais e notei pessoas embarcando numa balsa. Por 2 euros, disse uma moça, eu poderia ir até a praia e voltar.

Alguns minutos depois eu atravessava uma passarela de madeira com mais uma dúzia de pessoas e, depois de mais alguns minutos, nadava em águas imaculadas e opalescentes margeadas por uma praia vazia. Um jovem casal de roupas urbanas tomava vinho num pequeno bar que alugava cadeiras de praia e guarda-sóis. Perguntei se tinham vindo passar o dia na praia. “Não, só um coquetel.”

Voltei na balsa e parei num pequeno restaurante no outro lado da rua. Por sugestão da garçonete, pedi camarões grelhados no alho e uma taça de vinho verde. Perguntei de onde tinham vindo os crustáceos. A garçonete pareceu confusa. “De lá”, disse, apontando para além dos barcos. “Do oceano.”

O interior oriental do Algarve é principalmente agrícola: aldeias pequenas e tranquilas e estradas de terra. A Fazenda Nova Country House, meu último hotel, perto de Tavira, é uma fazenda de oliveiras em funcionamento e um refúgio elegante. Datada do início do século 19, é cercada por 10 hectares de olivais, um pomar e hortas.

Mas nem tudo é pastoral. Havia uma piscina infinita, e as refeições servidas na sala de jantar ao ar livre eram maravilhosas. No segundo andar havia uma “biblioteca de vinil”, equipada com cadeiras confortáveis, toca-discos, fones e mais de 3 mil discos.

Os donos da Fazenda Nova são um casal de londrinos chamados Hallie e Tim Robinson. O sul de Portugal está passando por um tipo de renascimento, contou Tim. Os moradores do leste do Algarve ainda estão tentando entender. “Na verdade, eles não conseguem acreditar que tanta gente venha para cá.”

Tim e eu devemos ter definições bem diferentes de “tanta gente”. Vi poucos viajantes em minha visita. Mas a ideia era essa mesmo.

Em minha última manhã na região, fui de carro a Olhão. O mercado de peixe fervia. Encontrei o Chá Chá Chá, restaurante abrigado num antigo bordel a uma breve caminhada do mercado. Comecei o almoço com uma salada de figos e queijo salgado com cerejas em conserva. Em seguida, veio um prato fumegante de mexilhões com feijão-branco, servido com um leve molho de tomate. Era opulento, simples e excepcionalmente bom.

Perguntei ao proprietário Kevin Gould, ex-escritor sobre comida e viagens do Reino Unido, por que se instalara em Olhão. Ele mencionou o clima, o mercado, a cultura. Mas a principal razão, disse ele, era mais intangível. “Neste lugar, você pode ser rico ou pobre, preto ou branco, homo ou hétero”, explicou. “Para ser aceito, a única coisa necessária é ser autêntico.”

Não pude questionar. Fui ao Algarve em busca de algo real, algo sem verniz. No fim das contas, o que procurava estava em toda parte.

POR ROSECRANS BALDWIN

DE TRAVEL + LEISURE (JUNHO DE 2019), © 2019  ROSECRANS BALDWIN, TRAVELANDLEISURE.COM

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