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Conheça os museus que expõem amores malsucedidos, invenções fracassadas e até horríveis obras de arte:

 

Em zagreb, num canto tranquilo de um palácio do século 18, há um pedestal branco onde fica uma colorida lagarta de 30 centímetros feita de feltro.

Algumas das patas estão soltas ao seu lado. Perto dela, em um cartão, leem-se as seguintes palavras: “Eu tinha um grande amor, realmente grande, uma relação a distância, Sarajevo-Zagreb. Durou 20 meses. É claro que sonhávamos com uma vida em comum, e, pensando nisso, comprei esta lagarta enorme. Toda vez que nos víamos, arrancávamos uma pata. Quando não tivéssemos mais patas para arrancar, estaria na hora de juntar os trapinhos. Mas, como costuma acontecer com os grandes amores, o relacionamento acabou, e, no fim das contas, a lagarta não ficou totalmente inválida.”

A lagarta e a história triste que a acompanha são apenas um dos mais de cem itens expostos no Museu das Relações Rompidas, uma cápsula do tempo de casos de amor malsinados abrigada em pequenas salas da capital da Croácia.

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CORTESIA DO MUSEU DAS RELAÇÕES ROMPIDAS

Cada objeto exposto conta uma história. Às vezes, é bem curtinha; uma torradeira está ao lado das palavras: “Quando fui embora para o outro lado do país, levei a torradeira. Isso vai lhe mostrar o que é bom. Como você vai torrar alguma coisa agora?”

Outros objetos contam histórias muito mais longas, de romances de férias azarados, primeiros amores, casos de escritório.

Em geral, os objetos em si são bastante mundanos (um rolo de pastel, um vestido de noiva), mas as histórias ligadas a eles provocam riso, tristeza e, às vezes, até choque.

Por exemplo, um machado acompanha a história de uma alemã cuja amante a trocou por outra mulher com quem viajou de férias. Assim, a parceira rejeitada comprou um machado e destruiu um móvel da ex-namorada a cada dia em que ela esteve fora. “Quanto mais seu quarto se enchia de móveis quebrados, adquirindo a aparência da minha alma, melhor eu me sentia”, escreveu ela.

Num pequeno estojo de vidro logo à entrada do museu está um objeto de importância particular. É um coelho de brinquedo, branco e peludo, acompanhado das palavras: “O coelho deveria percorrer o mundo, mas nunca foi além do Irã.”

Ele pertenceu a Olinka Vištica e Dražen Grubiši, fundadores do museu. Quando algum deles viajasse sozinho, a ideia era levar o coelho no lugar do parceiro.

Eles romperam quatro anos depois, e o coelho assumiu outro papel: o de primeiro objeto exposto em sua ideia de um museu totalmente novo.

“Acho que fomos um daqueles casais cujo combustível simplesmente acabou”, recorda Olinka no museu, numa tarde chuvosa. “Ainda éramos jovens, não queríamos nos acomodar.”

Ambos eram artistas e se conheceram no meio artístico local. Enquanto o relacionamento se desfazia, eles tinham “conversas intermináveis, tarde da noite, sobre o que fazer com os resíduos de um caso de amor passado”.

Uma ideia “maluca” foi criar um museu contendo todo o bricabraque sentimental dos dois. Eles esqueceram tudo isso até 2006, dois anos depois da separação, quando Dražen buscava ideias para uma exposição de arte em Zagreb e recordou aquela ideia maluca. E telefonou para Olinka.

“A ideia era criar um espaço onde pudéssemos guardar poeticamente toda a herança emocional das relações rompidas”, diz ela. “Achamos que a melhor coisa seria usar um objeto compartilhado e a história ligada a ele, pois nós mesmos estávamos cercados de objetos, e cada um deles tinha sua história.”

A apenas dez dias da abertura da exposição, eles mandaram e-mails desesperados a amigos e parentes para recolher objetos, que foram instalados num contêiner velho fora da galeria.

Nascia o Museu das Relações Rom- pidas. No entanto, eles não estavam preparados para a reação.

“Para mim, era só outro projeto artístico. Eu o faria e depois passaria para outra coisa”, diz Dražen, rindo. “Aí ele começou a ter vida própria, e estamos indo atrás.”

“Foi uma exposição de muito sucesso, que chamou a atenção dos meios de comunicação internacionais, o que para nós foi um choque”, diz Olinka. “A Reuters nos ligou, perguntando sobre o primeiro museu de relações rompidas que ia abrir em Zagreb, e dissemos: ‘Não, é só um contêiner com quarenta objetos no jardim de uma galeria de arte, e não vai ficar muito tempo!’ Virou uma bola de neve. Só deixamos rolar, e ela cresceu.”

Depois do fim da exposição, o museu começou a viajar pelo mundo – como continua a fazer até hoje, visitando mais de 40 locais. De metrópoles como Nova York, Londres e Berlim a cidades menores, como Kilkenny, na Irlanda, e Whitehorse, no território de Yukon, no Canadá.

Em 2009, o casal fez um empréstimo para financiar um lar permanente em Zagreb para a coleção.

Foi o primeiro museu particular da Croácia, pois o governo decidiu que era uma ideia “esquisita” demais para ser financiada. O museu se tornou uma das atrações mais populares da cidade.

Os donos, que continuam amigos, têm hoje 20 funcionários e supervisionaram recentemente a fundação de um segundo museu em Los Angeles. Quanto a seus relacionamentos, hoje Dražen é casado e tem uma filha pequena; enquanto Olinka só diz, enigmaticamente, que tem “alguns rolos”.

Eles recebem objetos e histórias novos duas a três vezes por semana. Num depósito, há mais de 2.500 objetos, todos esperando sua vez de ficar sob os refletores. Tanto Olinka quanto Dražen veem isso como um esforço artístico em evolução.

E o que aprenderam sobre o amor e os relacionamentos com todas essas histórias?

“É tão desconcertante quanto era”, diz Olinka. “Não estou mais sábia, se é que é possível ser sábio em algo assim. No mínimo, aprendi que são os relacionamentos que contam quando estamos vivos e que eles nos tornam realmente humanos. As diferenças culturais e a duração da interação não importam; o relacionamento é algo precioso, que deveríamos homenagear.”

“Acho que as histórias me ensinaram que a verdade é mais estranha do que a ficção”,diz Dražen com um sorriso.

Uma pessoa que ficou impressionada com uma visita ao museu foi o psicólogo e especialista em inovação Samuel West. A visita, em meados de 2016, mudou sua vida. Fazia algum tempo que ele tentava encontrar um modo de expor sua pesquisa sobre fracassos empresariais. De repente, uma lâmpada se acendeu em sua cabeça.

“Fiquei fascinado pelo modo como conseguiam transmitir um conceito abstrato com itens concretos e histórias curtas”, diz ele.“Foi lá que decidi criar o Museu do Fracasso. Foi um momento ‘eureca’.”

Samuel é um californiano que se casou com uma sueca e acabou indo morar em Helsingborg, na Suécia. Cheio de entusiasmo depois da viagem, ele conseguiu recursos do governo sueco para criar seu museu, aberto em Helsingborg. E foi um grande sucesso com o público em geral. “Nenhuma outra atração na Suécia teve repercussão tão positiva na imprensa em tão pouco tempo”, diz ele.

Como consequência da popularidade, o museu agora reabriu no centro cultural Dunkers da cidade. Em exposição, haverá mais de 70 objetos que satisfazem os critérios de inclusão: “Tem de ser uma inovação, tem de ser um fracasso e tem de ser interessante.”

Isso significa a inclusão de fiascos de alto nível como a New Coke, mas também extensões de marcas fracassadas e menos famosas, como o perfume Harley-Davidson e as refeições congeladas Colgate, chamadas de Colgate Kitchen Entrees (“Entradas Culinárias Colgate”). E há aparelhos indesejados, como a Máscara Facial Elétrica Rejuvenique. Essa máscara facial “rejuvenescedora” parece saída de um filme de horror e dá leves choques elétricos no rosto do usuário. Não foi um sucesso.

Um dos favoritos de Samuel é a linha Wow de batatas fritas Frito-Lay, feita com olestra, um substituto sem calorias da gordura que pode causar diarreia. “Você não vai engordar, mas pode passar o dia sentado no vaso sanitário!”, diz ele com uma gargalhada.

Brincadeiras à parte, o museu tem uma razão séria.

“Quando as pessoas têm medo de fracassar e são punidas pelo fracasso, a criatividade não é incentivada”, diz Samuel. “É importante saber que até marcas como a Coca-Cola às vezes se arriscam a errar.”

Como não poderia deixar de ser, Samuel também cometeu seu erro quando fundou o museu. “Uma das primeiras coisas que fiz foi comprar o domínio da internet museumoffailure.com”, diz ele. “Fiquei muito contente por ainda estar disponível. Então, alguns dias depois, veio o recibo. Para minha surpresa, dizia: “Parabéns, você comprou musumoffailure.com.” Eu tinha pulado o “e”. Estraguei tudo mesmo!

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Outras exposições estranhas

Museu da Arte Ruim, Massachusetts, EUA:

Museu particular com 500 obras de “arte ruim demais para ser ignorada”. Entre os destaques, está a “Mana Lisa” (na foto).

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Plastinarium, Guben, Alemanha:

Dedicado às técnicas de “plastinação” do anatomista alemão Gunther von Hagens, que usa polímeros para conservar de um único órgão a um corpo humano inteiro.

Museu da Felicidade, Londres, Reino Unido:

Uma “aventura experimental” que oferece exposições interativas, oficinas e eventos sobre o tema da felicidade e do bem-estar. Não esqueça o sorriso.

Museu dos Vampiros, Paris, França

Único museu de vampiros do mundo, aninhado num beco parisiense adequadamente soturno e administrado pelo autoproclamado “vampirólogo” Jacques Sirgent (de dia, professor de inglês).

Por TIM HULSE