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Publicado em: 3 de março de 2019

Britânica supera perda auditiva para conquistar seu sonho

É difícil imaginar que uma pessoa surda poderia triunfar no palco como cantora de ópera. E, por muitos anos, Janine Roebuck manteve seu problema em segredo, temerosa de que admitir a deficiência pudesse se tornar um obstáculo.

Imagem: s-dmit/iStock
Janine Roebuck tinha 18 anos quando ficou sabendo que herdara uma forma incurável de surdez neural progressiva, que afetava diversas gerações da família. “Minha trisavó nasceu completamente surda. Seis ou sete dos seus 13 filhos herdaram o gene; os outros não”, ela diz. “Meu pai e eu, ambos filhos únicos, fomos os escolhidos.” Quando criança, sem saber das dificuldades auditivas que a esperavam, Janine ingressou na Doncaster Youth Theatre, uma companhia teatral em Doncaster, na Inglaterra, onde descobriu as alegrias de atuar e cantar. Aos 13 anos, ganhou o papel principal na ópera da escola. “Desde o momento em que as cortinas se abriram na primeira noite, eu soube como queria passar o restante da minha vida.” Por insistência dos pais, ela ingressou na universidade e se graduou em Língua e Literatura Francesa antes de se dedicar ao canto. “Notei que eu tinha um problema auditivo nas palestras da universidade, principalmente se eu não conseguia um lugar na primeira fila. As consoantes iniciais foram as primeiras a desaparecer. Isso ainda é um problema ao telefone hoje, apesar da amplificação, já que eu conto bastante com a leitura labial.”

Notícia devastadora

Na universidade, ela se apresentou com o grupo universitário de ópera, o qual, por acaso, era dirigido por um professor de audiologia. Janine lhe perguntou se ele examinaria o pai dela.

“Como o caso era tão interessante, também fui examinada, e aí veio o golpe – a notícia da qual eu tinha pavor de descobrir.”

“Aproveite e cante o máximo que puder agora”, disseram a ela, “porque, com a sua perda auditiva, uma carreira musical não será possível.” “Fiquei devastada”, ela afirma. “Fui conversar com um dos professores de canto do Royal Northern College of Music, a principal faculdade de música do Reino Unido, em Manchester. Ele foi a segunda pessoa a me dizer que eu deveria continuar cantando apenas como hobby. Fiquei com o coração despedaçado e solucei o trajeto todo, dentro do ônibus, de volta para casa.” Mas a determinação de se tornar cantora de ópera era tanta que ela se recusou a escutar os pessimistas. “Pensei que houvesse uma chance de que, na hora em que eu precisasse, talvez a tecnologia tivesse se aperfeiçoado o suficiente para me ajudar.”

Contrariando todas as probabilidades

Ela alcançou as notas máximas no primeiro exame de canto, prosseguiu os estudos no Paris Conservatoire e no National Opera Studio, em Londres. Depois, estreou com a New Sadler’s Wells Opera. Desde então, apresentou-se nos papéis principais de diversas companhias de ópera. Além disso, participou de eventos importantes tanto no Reino Unido quanto fora – incluindo a Royal Opera House, de Londres – e gravou diversos CDs. Janine tinha 28 anos quando a inevitável deterioração auditiva se tornou um desafio. “No início, notava o problema nas pequenas coisas, por exemplo, nos ensaios. Um dia, de repente, a sala ficou muito quieta, e percebi com um baque no estômago que o diretor havia falado comigo e eu não o ouvira.” Em outra ocasião, num evento em que ela era a protagonista da ópera em tour, um crítico manifestou dúvida com relação ao fato de ela ser capaz de ouvir a orquestra, já que esta se localizava abaixo do palco e não havia alto- -falantes ali ou nos bastidores. “Ele não tinha ideia de quão verdadeira a dúvida era.” Mas o primeiro aparelho auditivo não melhorou muito as coisas. “Ele amplificava até as frequências que não precisavam ser melhoradas, o que era desconfortável”, conta Janine. “Deixei o aparelho em uma gaveta e fiquei apavorada demais para mencionar minha surdez a alguém, com medo de que me vissem como um grande risco.”

Tecnologia milagrosa

Depois, Janine se consultou com um professor do Royal National Ear, Nose and Throat, hospital especializado em ouvido, nariz e garganta, em Londres. Ele a encaminhou para um “cientista maravilhoso, especialista em audiologia”, que, então, lhe deu dois aparelhos auditivos analógicos retroauriculares gerados por computador, de modo a garantir que apenas as frequências altas perdidas fossem amplificadas – e de cor marrom, para se misturarem com os cabelos dela.

“Pela primeira vez em dez anos, ouvi os passarinhos cantarem e o som seco dos saltos altos nas calçadas. Isso me fez chorar de alegria, embora o som no início fosse muito artificial.”

O especialista prometeu-lhe que o cérebro dela iria se acostumar ao som mecânico estridente e se ajustaria – e foi exatamente isso que aconteceu. Mas Janine ainda tinha problemas. “Meus aparelhos retroauriculares costumavam ficar presos nas perucas que eu precisava colocar no palco. Além disso, apitavam, ou se soltavam nos momentos mais impróprios, pendurando-se sobre a orelha.” Finalmente, ela decidiu comprar um par minúsculo de aparelhos intra-auriculares. Sem eles, Janine acredita que “não estaria cantando hoje. Valeram cada centavo”. A procura pelo que há de mais novo em termos de tecnologia continua. Hoje, ela tem dois aparelhos digitais chamados Epoq, fabricados pela Oticon, que usam tecnologia bluetooth (comunicação sem fio, por meio das ondas de rádio). “Estou impressionada com esses aparelhos”, afirma. “Ganhei uma qualidade de som com a qual, até então, apenas sonhava.”

Vencendo o desafio

Ainda há obstáculos enormes, principalmente na carreira musical. Nos testes, Janine nem sempre consegue ouvir o que os jurados estão dizendo, o que pode levar a equívocos engraçados. Além disso, em um concerto, ela tem dificuldade se o maestro e a orquestra estiverem atrás dela no palco, pois as deixas visuais são vitais. Tudo isso pode gerar grande ansiedade. Mas há pontos positivos também. “Tenho de cantar a partir do que sinto, sem ouvir a mim mesma. Assim, canto com o coração. As pessoas comentam que eu canto com sentimento, que a minha voz as comove, até faz com que chorem. É uma alegria saber disso.” Outra vantagem é ser capaz de reduzir o volume. “Posso desligar os aparelhos se quero um pouco de silêncio. Isso significa que, em um tour, consigo dormir profundamente em quartos de hotel barulhentos – mesmo ao lado de hóspedes arruaceiros ou danceterias. Embora, uma vez, quase tenha me torrado em um hotel por não ouvir o alarme de incêndio. Agora, aviso as pessoas para me resgatarem se ocorrer alguma emergência.”

Uma longa jornada a ser percorrida

A experiência de Janine tornou-a determinada a focar o isolamento que a surdez pode trazer. “Desejo ajudar a garantir que as pessoas idosas, principalmente aquelas internadas em um hospital, tenham seus aparelhos auditivos checados todos os dias”, diz. “Em geral, as pessoas estão atordoadas demais para se darem conta de que eles não estão funcionando bem ou de que precisam de baterias novas. Apenas acham que a audição piorou. Isso pode fazer com que um paciente surdo, solitário e assustado seja tratado como alguém senil e tolo, simplesmente porque essa pessoa se encontra desligada do mundo e isolada.” “Não tenho mais vergonha da minha surdez. Sinto que isso me fortaleceu. Ensinou- -me que se você for determinado o bastante, qualquer coisa pode ser superada. E é essa a mensagem que eu quero passar para as outras pessoas.”

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