Em 2016, no fida manhã de Natal, a casa em West Linn, no sul de Portland, no estado americano do Oregon, estava em silêncio. Para Dave Schelske, 46 anos, a comemoração terminara. Ele acabara de deixar Tristan e Lawson, os filhos gêmeos de 8 anos, na casa da mãe. Dave, explorador e fotógrafo profissional, decidiu concentrar sua atenção e a câmera na beleza natural do lugar, tendo ao seu lado Sandy, 3 anos, mestiça de labrador retriever com leão-da-rodésia.

Depois de embalar a guia retrátil que comprara para Sandy no Natal, o equipamento fotográfico e outros itens essenciais, Dave abriu a porta de trás do carro para a lépida cadela. Então partiram para o parque de Columbia River Gorge, na garganta do Rio Columbia, menos de uma hora ao norte.

Dave gostava de dizer que sua família não escolheu Sandy no abrigo; foi ela quem os escolheu. Ele e os meninos estavam sentados lado a lado na recepção quando trouxeram o filhote dourado de 7 meses, que, num instante, pulou e se deitou no colo dos três, que souberam na mesma hora: aquela cachorrinha era deles.

Trilha do Riacho Eagle

Dave parou no estacionamento da Eagle Creek Trail, a Trilha do Riacho Eagle, ainda de manhã. Lembrava-se da cachoeira, a uns três quilômetros do início da trilha.

Mas fazia tanto tempo da última visita que ele se esquecera do enorme penhasco da trilha estreita. Aberto na montanha, o caminho tinha uma parede de pedra à esquerda e, à direita, nada: só a encosta quase vertical do penhasco que descia até o Riacho Eagle. E o desfiladeiro ia ficando mais fundo à medida que se subia.

Dave decidiu que, na próxima vez que levasse Sandy para passear, escolheria outra trilha. Mas a mestiça de labrador estava acostumada com trilhas rústicas e superfícies rochosas, e muitos outros caminhantes também estavam ali com seus cães. A nova guia de Sandy saía de um carretel retrátil e se estendia uns seis metros; mas ele percebeu que teria de mantê-la bem próxima, sem deixar a guia correr, para dar passagem suficiente aos outros.

Meio-dia

Por volta do meio-dia, os dois subiram um trecho ainda mais estreito que, em alguns pontos, mal passava de um metro de largura. Grossos cabos de aço tinham sido presos na parede rochosa para os caminhantes se segurarem. O penhasco tinha mais de 60 metros de altura.

Chovera a manhã toda. Aos olhos do fotógrafo, a neblina que caía sobre as árvores, somada ao cabo de aço do corrimão que envolvia a encosta rochosa, criava uma composição extraordinária. Dave amarrou a guia de Sandy num tronco de árvore, pegou a câmera na mochila e começou a tirar fotos.

Satisfeito, voltou a andar na direção de Sandy, que, sentada, esperava com paciência. De repente, assustada, a cadela disparou, com os seis metros da guia retrátil se desenrolando atrás dela. A ponta se soltou da árvore quando Dave partiu em perseguição a Sandy, gritando seu nome, na esperança de que parasse. E, por um instante, ela realmente parou. Mas foi  então que o cabo plástico da guia bateu na pedra e a assustou ainda mais.

“Sandy, espere!”, Dave gritou, mas ela fez a curva correndo e ele a perdeu de vista. Quando ouviu um ganido alto, Dave achou que a coleira de Sandy se prendera em alguma coisa e a puxara. Ele a acalmaria assim que a alcançasse.

Mas, segundos depois de fazer a mesma curva, Dave só achou a guia arrebentada, caída junto a uma árvore na beira do penhasco.

O caminho onde encontrou os pedaços da guia contornava uma encosta íngreme, adequada apenas para cabras e alpinistas muito bem equipados. Depois de uns seis metros, o caminho terminava num desfiladeiro muito estreito, cuja borda despencava quase na vertical. Não havia marcas de garras nem de escorregões para indicar que Sandy caíra ali. Lá embaixo, o riacho rugia e se contorcia sobre as pedras. Onde ela poderia estar?!

Hora do pânico

Em pânico, Dave correu de volta pela trilha e perguntou a uma mulher que subia:

– Você viu um labrador amarelo passar correndo?”

A mulher respondeu que não, assim como todo mundo que passava. Os outros caminhantes sugeriram que ele ligasse para o serviço de emergência, mas ali em cima o celular não tinha sinal. Enquanto os minutos se transformavam em uma hora, seu medo aumentava. Se tivesse caído perto de onde achara a guia, Sandy não teria sobrevivido. Dave voltou ao local onde a cadela sumira. Nada disso teria acontecido se ele a tivesse levado na guia mais curta e resistente. O que vou dizer aos meninos? Os filhos amavam Sandy tanto quanto ele.

Outra vez, Dave chamou freneticamente por Sandy. Sabia que não haveria resposta, mas não conseguia se conter. Duas mulheres de meia-idade, que subiam a trilha, ouviram seus gritos angustiados e lhe perguntaram o que tinha acontecido. Ele explicou e começou a subir pelo caminho principal, em busca de um modo de descer. Seguiu pela trilha lateral improvisada que descia o penhasco. Seria difícil e perigoso até para ele, alpinista experiente. Mas era a única possibilidade de encontrar o corpo de Sandy.

O acesso ao rio

Sem que Dave percebesse, as duas mulheres desceram a trilha principal, acharam um ponto de acesso para chegar ao rio e começaram a procurar por conta própria. Dave logo as encontrou e tentou dissuadi-las, com medo de que se machucassem.

– Se quiserem ajudar, talvez seja melhor voltarem para onde estava a guia – sugeriu, pois assim teria um ponto de referência para as buscas.

Uma delas concordou e deu meia-volta, mas a amiga disse:

– Vou ajudar. – E ficou com Dave.

Naquela tarde de Natal, René Pizzo, paramédica dos bombeiros, estava no cinema com o marido quando o celular tocou. O torpedo da Equipe Técnica de Salvamento de Animais da Sociedade Humanitária do Oregon (OHSTAR, na sigla em inglês) dizia que um cão caíra no penhasco e que ela deveria buscar mais detalhes no e-mail. René era a integrante mais antiga da equipe de voluntários da OHSTAR, todos treinados para resgatar cães em condições difíceis.

Ela correu para casa, vestiu roupas quentes, pegou o equipamento – capacete, arnês, luvas, óculos de segurança, lanterna de cabeça – e partiu para o início da trilha. Enquanto isso, alguns colegas se encontraram na sede da entidade, em Portland, para buscar mais equipamento de resgate.

Visão canina

De acordo com o e-mail, o cão caíra da Trilha do Riacho Eagle. Seria o terceiro a despencar daquele penhasco só em 2014. A visão canina não é tão boa quanto a humana. Além disso, a noção de profundidade dos cães é ruim. Caminhar por aquela trilha era muito mais arriscado para os animais do que para seus donos.

Pouco antes das cinco da tarde, John Thoeni e a veterinária Emily Amsler, sua namorada, estavam diante da ceia de Natal. As velas se achavam acesas e o vinho já fora servido, mas ainda não provado. Então seus celulares tocaram ao mesmo tempo. A refeição teria de esperar. A OHSTAR precisava deles no Riacho Eagle.

No total, oito voluntários cancelaram sua festa de Natal para salvar um cão que já poderia estar morto.

Depois de passar uma hora descendo pela vegetação densa até o riacho, Dave e sua companheira de buscas procuravam sinais de Sandy. O dia se transformava em crepúsculo, o ar ia se tornando mais frio. Sem lanternas, ficariam presos na garganta a noite inteira se não voltassem logo. Desanimados, deram meia-volta, com Dave à frente. Ele queria acreditar que, por milagre, Sandy estaria à sua espera ao lado da caminhonete, mas a esperança ia sumindo. Nesse momento, ouviu a mulher atrás dele dizer algo esquisito: “Oi, mocinha!”

O quê?!

A surpresa

Dave seguiu o olhar da mulher, que olhava para cima, mas nada viu além de arbustos, pedras e a face do penhasco. Quase temeu perguntar:

– Ela está viva?

A mulher fez que sim.

– E está olhando para mim.

Dave subiu em uns troncos, e lá estava ela, talvez 20 metros acima dele, abanando o rabo. Em pé. Bom sinal. A alegria e o alívio o inundaram.

– Venha cá, menina. Venha, Sandy.

Ela ganiu, mas não se mexeu. Por que não descia?!

Quando Dave chegou mais perto, viu a situação em que Sandy se encontrava: empoleirada numa saliência minúscula perto do fundo de uma fenda e grudada na parede de pedra atrás. O espaço aberto a cercava, mas ela estava longe demais de algum lugar seguro para cair caso se arriscasse a pular.

Dave não conseguiu dar um jeito de percorrer os cinco ou seis metros que ainda o separavam do cão. Precisaria do equipamento que estava no carro. Então, voltou a descer e fez um plano com a companheira de buscas. Se amarrassem uma corda no tronco de uma árvore próxima e ela fosse soltando a corda aos poucos, ele conseguiria pegar Sandy e trazê-la de volta.

Mais ajuda a caminho

Enquanto isso, uma família que Dave encontrara antes ligara para o serviço de emergência. A equipe de resgate estava a caminho.

Assim que retornou à garganta com o equipamento, percebeu que o plano não daria certo. Sua ajudante estava esgotada. O frio deixara suas articulações rijas e doloridas, e ela tremia.

Nisso, já deviam ser quase cinco da tarde. O céu cinza-escuro logo estaria negro. Dave se sentiu derrotado. Então a mulher que estava de vigia junto à guia gritou para o desfiladeiro. O primeiro voluntário do resgate animal chegara.

E ele só podia aguardar e tentar acalmar sua apavorada Sandy: “Vai dar tudo certo, mocinha. Estou bem aqui.”

Por volta das sete da noite, os últimos integrantes da equipe da OHSTAR chegaram ao Riacho Eagle e começaram a subir a trilha. Nuvens encobriam o luar que poderia iluminar o caminho. Por sorte, a mulher que ajudara Dave e avistara Sandy os encontrou na trilha e lhes mostrou a localização de Dave, 60 metros abaixo.


Dave jogou o facho da lanterna na saliência, para que John Thoeni, que desceria de rapel, soubesse aonde chegar.


Sandy estava presa no penhasco uns 50 metros abaixo da trilha, distância equivalente a um prédio de 15 andares. A saliência minúscula onde ela estava não era plana; Sandy não podia se sentar nem se virar sem correr o risco de escorregar na superfície curva e se estatelar no fundo da garganta. Estava ali de pé, como uma estátua, havia várias horas. Agora parecia congelada no lugar.

Enquanto os voluntários descarregavam âncoras, arneses, cordas, lâmpadas e outros equipamentos, Dave jogou o facho da lanterna na saliência, para que John Thoeni, que desceria de rapel, soubesse aonde chegar.

Cabos e roldanas

Era preciso muito cuidado: se ele descesse diretamente acima da cadela, detritos que caíssem poderiam machucá-la ou assustá-la, fazendo-a pular no abismo. Assim que John chegasse ao lado de Sandy, um sistema duplo de cabos e roldanas seria usado para içar homem e cão de volta até a trilha. René Pizzo era a líder da equipe; Amy Amsler fazia o duplo papel de veterinária e fotógrafa.

O alpinista Bruce Wyse estava encarregado de achar árvores em que pudessem prender as cordas e roldanas, mas poucas eram adequadas. Ou tinham raízes rasas demais ou os troncos não se achavam a uma distância adequada da saliência. Mais duas horas se passaram até que tudo estivesse instalado e o resgate pudesse começar.

Dave não via nada disso do lugar onde estava, lá embaixo, junto ao riacho. E se concentrou em tranquilizar Sandy, mostrando que ainda estava ali e iluminando-a com a lanterna. Nisso, ele já usara várias pilhas. O frio atravessava-lhe a roupa, mas pelo menos ele podia pular para se aquecer. Sandy, porém, não conseguia fazer qualquer movimento.

Às 21h36, John começou a descer de rapel, com roupa protetora e a mochila carregada. Mais de oito horas tinham se passado desde que Sandy caíra.


Lá embaixo, o riacho rugia e se contorcia sobre as pedras. Onde ela estava?


Disse a si mesmo que, do ponto de vista da cadela, era como se ele estivesse descendo de um disco voador. Estava presa e, portanto, assustada. John manteve a voz calma, falando com ela enquanto a equipe o descia: “Muito bem, Sandy… Vou alcançar você num minuto…”

Mas…

A equipe tivera esperanças de deixá-lo à esquerda de Sandy, mas a parede do penhasco se curvava para dentro, e ele ficou pendurado a cerca de um metro da face rochosa, sem ter onde se segurar. Precisaram baixá-lo mais três metros para que subisse até Sandy.

Assim, com os pés e as mãos enfiados em qualquer fenda que lhe desse apoio, John subiu pela face rochosa, que a chuva deixara escorregadia, até chegar ao nível da cachorra. Então, com um braço na saliência para se firmar, enfiou a mão na mochila e pegou uma guloseima. Todavia, tão imóvel quanto o próprio penhasco, Sandy quase não notou o oferecimento.

Afinal, com extrema cautela, John prendeu uma correia na coleira de Sandy. Posteriormente, uma focinheira, só por precaução. Em seguida, envolveu-a com o arnês de resgate, preso, como o dele, a um sistema de cordas e roldanas. Estavam prontos para subir.

Pelo rádio, avisou aos outros membros da equipe que já podiam começar a puxar. Com a cadela aconchegada ao peito, para protegê-la de galhos e pedras durante a subida, John e Sandy foram erguidos, 15, 30, 50 metros no ar. Chegaram lá em cima às 22h23.

O serviço de John terminara. Era hora de Amy examinar Sandy.

Ela estava bem

A propósito, eram poucas as lesões: uma garra dianteira ferida; e as almofadas das patas muito arranhadas. Mas Sandy mal se mexia e não soltava sequer um ganido. Estava em choque.

Enfim, a equipe começou a guardar o equipamento, congratulando-se pelo sucesso do resgate. Haviam recebido o melhor presente de Natal possível; pois, o final poderia ter sido muito diferente.

Os voluntários, sobretudo, estavam prontos para descer a trilha quando Sandy se animou. E logo viram por quê: Dave aparecera na borda da trilha, depois de escalar no escuro, embora tivesse apenas o pequeno facho da lanterna para guiá-lo. Sandy correu para o dono, que, afinal, a abraçou com alívio. Ele estava muito grato porque ninguém se machucara.

A princípio, Dave dirigiu um sorriso largo a Sandy e depois às pessoas que tinham abandonado suas festas de Natal para salvá-la.

– Queria poder abraçar todos vocês – disse.

Por Anita Bartholomew
Foto por Nash Co.

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