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O poder da atitude

Conheça Claire Nouvian: a ganhadora do Prêmio Ambiental Goldman

Claire Nouvian é uma verdadeira defensora dos mares e seu trabalho para salvar o ambiente marinho está longe de terminar.

Escrito por:

Douglas Ferreira

Redator
foto de Claire Nouvian
Cortesia de Goldman Environmental Prize
Publicado em: Última atualização:

Claire Nouvian não poderia estar mais feliz. Acabara de mostrar as provas de seu livro Criaturas do abismo a alguns dos cientistas marinhos mais eminentes do mundo num simpósio internacional de águas profundas em Southampton, no Reino Unido. As fotografias que organizara para documentar a vida muito abaixo das ondas impressionaram.

Mas o orgulho de Claire se transformou em horror quando o cientista marinho americano Les Watling exibiu um vídeo à sala de conferências lotada. Ela se viu olhando vulcões ao largo do litoral de Nova York, 2 mil metros abaixo da superfície do mar. As traineiras soviéticas os devastaram com suas redes de arrasto na década de 1970, e, 30 anos depois, aquelas montanhas marinhas estavam nuas. Em vez de anêmonas e corais, que levam milhares de anos para crescer, havia apenas cicatrizes nos escombros deixados pelos pesos das redes. Foi naquele momento que os olhos de Claire Nouvian se abriram para a destruição causada pela indústria pesqueira no mundo.

A trajetória de Claire Nouvian

Criada em várias partes do mundo, a jornalista de origem francesa Claire Nouvian, era fascinada pelo mundo que a rodeava. Ela recorreu a vídeos para contar a história dos lugares mais lindos do planeta. Foram os documentários que, em 2001, a levaram ao Instituto de Pesquisa da Baía de Monterey, na Califórnia. Lá descobriu o mundo secreto do fundo do oceano. Ali nasceu a ideia do livro. Além de Criaturas do abismo, haveria uma exposição que viajaria pelo globo. Agora morando em Paris, Claire criou em casa a entidade BLOOM para divulgar informações sobre o oceano.

“Achei que, se contasse a história da beleza do mundo natural, as pessoas parariam de destruí-lo”, explica ela. “Fui ingênua.”

Expor os danos e interrompê-los se tornou a paixão de Claire. Agora, ela era uma ativista.

A vida de uma ativista

Com fome de fatos, Claire pediu ajuda a Les Watling. Eles usaram Sistemas de Informações Geográficas (SIGs) para calcular as áreas do fundo do mar que poderiam ser protegidas. Reuniram estatísticas globais de pesca. No decorrer da pesquisa, Claire ficou chocada ao descobrir que a maior frota comercial de pesca em águas profundas da França pertencia à Les Mousquetaires, dona da cadeia de supermercados Intermarché. O professor Watling destacou que, em dois dias, suas traineiras poderiam destruir uma área do fundo do mar do tamanho de Paris.

Embora naquele ano Criaturas do abismo fosse publicado em 12 idiomas e a exposição passasse por oito países, com 2,4 milhões de visitantes, havia pouca vontade de mudar. A missão de Claire continuava clara. Vou parar essas traineiras, pensou ela. “A maioria, ao confrontar os cientistas das empresas pesqueiras ou os advogados de corporações bilionárias se intimidaria”, diz Les Watling.

Mas Claire suportou a intimidação – mensagens ameaçadoras no celular, um facho de laser vermelho que a seguiu dentro do apartamento onde morava sozinha – e a tensão financeira. Chegou a pensar em trabalhar como garçonete para pagar o aluguel.

Ela levou sua campanha a uma conferência de pesca da Comissão Europeia. A sua compleição miúda contradizia a determinação com que denunciou a Intermarché diante do anfiteatro lotado.

A conquista da BLOOM

Em 2012, duas outras mulheres se uniram à BLOOM. Elas denunciaram a Intermarché ao órgão francês de regulamentação publicitária pela propaganda enganosa que afirmava que suas práticas pesqueiras não causavam dano ao meio ambiente. A Intermarché teve de retirar a propaganda.

A BLOOM também conquistou apoio do público. Em 2013, Claire fez uma apaixonada palestra no TEDxParis, na qual revelou não só as maravilhas do fundo do mar, como as esponjas usadas no tratamento do câncer, mas também a “lógica tóxica” da indústria pesqueira francesa. Ao comprar peixe na Intermarché, o público financiava a destruição do fundo do mar. Naquela noite, a popular cartunista Pénélope Bagieu estava na plateia e ficou tão chocada que transformou a palestra de Claire numa história em quadrinhos, que viralizou. O abaixo-assinado da BLOOM pedindo ao governo francês que impedisse a pesca de arrasto no fundo do mar, obteve quase 900 mil assinaturas em poucos dias. Foi o maior abaixo-assinado ambiental da história francesa.

 Saiba mais sobre a BLOOM em: https://www.bloomassociation.org/

Mas Claire sofreu ainda um duro golpe. Em 10 de dezembro daquele ano, o Parlamento Europeu, inesperadamente, aprovou a continuação da pesca de arrasto em alto-mar. “Eu me senti péssima e desanimada”, admite ela. “Perdi a fé na humanidade.”

No dia seguinte, porém, Claire reuniu de novo sua pequena equipe. Nesse mesmo dia, a Intermarché divulgou uma mensagem pública pedindo ajuda aos grupos ambientais para implementar práticas de pesca mais sustentáveis. Um mês depois, a empresa concordou em parar de pescar a mais de 800 metros de profundidade. Em novembro de 2015, o governo francês de François Hollande concordou com a mesma proibição, seguido por todos os membros da União Europeia em junho de 2016.

Mas seu trabalho para salvar o sempre ameaçado ambiente marinho está longe de terminar, diz Claire. Agora ela volta a atenção para a pesca com impulsos elétricos, que, além de outros danos, eletrocuta, de forma indiscriminada, toda a vida marinha próxima às redes. “Precisamos entender que essa é uma guerra contra a natureza, e o mundo natural é nosso sistema de sustentação”, afirma Claire.

Por Susannah Hickling

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