Depois que as Alemanhas Oriental e Ocidental se reunificaram em 1990, muitos do antigo leste tiveram dificuldades no novo país. Uma dessas pessoas foi Esther Zeiher, de 19 anos, que buscou respostas caminhando pela Alemanha. Em suas viagens, ela acabou chegando ao famoso Caminho de Santiago, a rota de peregrinação pela França e pela Espanha que vai até o santuário de Santiago de Compostela.

Num albergue espanhol, Esther encontrou um antigo mapa da Europa que mostrava uma imensa rede de rotas de peregrinação, todas levando a Santiago. Ela olhou com mais atenção e se espantou ao ver que no mapa constava uma dessas antigas rotas passando por sua região natal, a Saxônia.

Era a Via Regia, a mais antiga e longa rota de comércio e peregrinação da Europa, que ia de Kiev, na Ucrânia, até Santiago, na Espanha, atravessando Polônia, Alemanha e França.

Lá estava uma tradição de 2.000 anos. Esther encontrou sua missão: trazer novamente à vida essa antiga rota de peregrinos.

Ela passou três anos retraçando a antiga rota, inclusive o trecho de 466 quilômetros entre Görlitz, a cidade mais oriental da Alemanha, e Vacha, cidade próxima à antiga fronteira com a Alemanha Ocidental. Em julho de 2003, Esther inaugurou a trilha e obteve permissão de pregar, colar ou pintar 15 mil símbolos da vieira ao longo da rota. Ela lhe deu o nome de Caminho Ecumênico dos Peregrinos.

Símbolo da vieira que marca a rota.

É uma trilha sinuosa que percorre campos e vinhedos ondulantes, cidades onde Martinho Lutero pregou e Bach tocou órgão. E também regiões marcadas por antigas fábricas poluentes e pelo êxodo de seus moradores jovens.

Kleinliebenau se tornou uma das paradas noturnas. Na visão de Esther, era fundamental que moradores locais hospedassem os peregrinos. Por um pagamento simbólico, eles teriam onde ficar, fosse num quarto vazio, numa escola reformada ou, como em Kleinliebenau, numa igreja.


Kleinliebenau começou a receber uma quantidade pequena, mas crescente de pessoas. Voluntários da Ucrânia, da França e da Espanha ajudaram a restaurar a igreja, que reabriu como centro comunitário e abrigo para peregrinos. E Erhard voltou a tocar o sino.

Aos 6 anos, antes da Segunda Guerra Mundial, ele tocava os sinos da igreja. Depois da guerra, os sinos se calaram quando Kleinliebenau passou a fazer parte da República Democrática Alemã, de orientação comunista.

O declínio continuou depois que o Muro de Berlim caiu. “Houve vandalismo”, diz Erhard. “Os tubos do órgão foram roubados. Jogaram pedras nos vitrais da igreja.” Depois o telhado caiu, e o prédio foi lacrado.

Agora, finalmente, há sinais de esperança. A igreja e a aldeia se tornaram um ponto de parada num trecho renovado da Via Regia que passa pelos estados da Saxônia, Saxônia-Anhalt e Turíngia.

“A igreja se tornou um lugar de trocas”, diz Erhard. “A aldeia inteira voltou à vida.”


Os peregrinos Gert Kleinsteuber e a mulher, Andrea, caminharam o dia todo e estão cansados. Eles deixam a mochila diante da igreja do século 12 da aldeia alemã oriental de Kleinliebenau, onde esperam passar a noite. Enquanto admiram o prédio, com fachada de estuque vermelho e branco, surge um casal idoso. Erhard, de ancinho na mão, estava juntando as folhas em torno da igreja. Hermine traz numa bandeja um bolo de maçã feito em casa.

“Espero que tenham trazido o passaporte”, diz ela com um sorriso.

Gert, policial de 59 anos e barba grisalha, puxa do bolso um livreto fino de seis páginas e o deixa na mesa. Seu “passaporte” é a versão moderna do “documento de salvo-conduto” levado antigamente pelos peregrinos medievais. Os carimbos – uma igreja, um escudo, um antigo castelo – comprovam onde Gert e Andrea passaram as 11 noites anteriores.

Casados há 37 anos, Gert e Andrea estão numa jornada que começou em Görlitz, na fronteira da Alemanha com a Polônia, cerca de 220 quilômetros a leste, que os leva através de sua região natal da Saxônia, ida e volta, por muitas centenas de anos de história. Eles estão refazendo a rota de uma antiga peregrinação, a Via Regia.

Caminho Ecumênico dos Peregrinos.

Gert e Andrea sentiam-se bem na República Democrática Alemã e acreditavam no sistema. Gert, comissário de informática da força policial da região de Leipzig, começou a trabalhar perto de Kleinliebenau como supervisor de uma empresa de suinocultura. Andrea era chefe da Juventude Alemã Livre local, um tipo de escotismo comunista.

Em 1989, com a queda do Muro de Berlim, a vida e o sistema de crenças em que os dois tinham sido criados viraram repentinamente de ponta-cabeça. A fábrica de açúcar que era a base econômica da região acabou fechando. Os jovens partiram em massa.

“Acreditávamos no que fazíamos, mas nos disseram que não éramos necessários”, lamenta Andrea. Ela levou muito tempo para encontrar outro emprego como agente de viagens. A noção de comunidade praticamente se desintegrou.

A “unificação” com a Alemanha Ocidental, saudada com otimismo como a aurora de uma nova era, trouxe consigo inveja e ressentimento. O dinheiro ocidental reformou ruas e praças medievais. Mas a região foi deixada sem uma verdadeira infraestrutura econômica.

“Depois da queda do Muro, as pessoas se trancaram dentro de casa”, diz Gert. Houve fofocas. Quem conseguiria comprar um carro, reformar o telhado? “Em vez de conversar entre si, tomando um café, as pessoas começaram a falar mal das outras.”

A experiência de Gert e Andrea na trilha tem sido extremamente positiva. Na aldeia de Crostwitz, a terceira parada, um bilhete manuscrito na porta dos anfitriões lhes diz que podem pegar as chaves com o vizinho.

Quando entram, encontram a mesa da cozinha coberta de frutas e um grande mapa-múndi na parede, com centenas de alfinetes coloridos mostrando de onde vieram os peregrinos.

“Com cada peregrino, é um pouco do mundo que me chega”, diz-lhes Monika, a anfitriã, no dia seguinte, no café da manhã. “Aprendemos a abrir mão de nosso tempo e de nossos temores.”

Na aldeia de Glaubitz, cerca de 40 quilômetros a noroeste de Dresden, meninos gritam com empolgação: “Os peregrinos estão chegando!”

“O Caminho une”, diz Gert. “Ele muda as pessoas, tanto quem o percorre quanto os que moram nele.”

Quando o crepúsculo cai sobre a igreja de Kleinliebenau, Gert folheia o livro de hóspedes. Ele vê os agradecimentos manuscritos de outros peregrinos, vindos da Alemanha – Colônia, Frankfurt, Munique –, mas também de muito mais longe: França e Nova Zelândia. Já foram trezentas visitas este ano.

Na manhã seguinte, Gert e Andrea partem da igreja de Kleinliebenau para caminhar 25 quilômetros rumo a um velho castelo na Saxônia-Anhalt.

Pela névoa e pela garoa, eles atravessam aldeolas sonolentas: Horburg-Masslau, Dölkau, Zweimen. A Saxônia se funde com a Saxônia-Anhalt. Passam por antigas fazendas, fábricas esquecidas de tijolos vermelhos, um castelo abandonado.

O casal encontra poucos passantes pelo caminho, mas há muitos cartazes do partido populista de extrema direita Alternative für Deutschland (AfD), que promove a intolerância numa região onde vivem poucos imigrantes. O AfD está dando má fama a essa parte da Alemanha, e Gert diz que o casal fica “fisicamente enojado” ao ver que “o mundo está reduzindo o Leste, o nosso lar, ao AfD”.

Ele sabe que há mais do que racismo gritante por trás dos cartazes do AfD.

A mensagem deles revela a humilhação e o ressentimento que viceja no local desde a queda do Muro. “Talvez ainda estivéssemos tão amargos quanto alguns amigos nossos se não tivéssemos caminhado centenas de quilômetros e conhecido pessoas tão diferentes”, diz Gert.

“Os peregrinos trazem vida”, garante Andrea. “Os aldeões que moram ao longo da trilha têm de se organizar para a chegada deles. Conversam com os peregrinos e conversam mais entre si. Passam a conhecer outros pontos de vista sobre a vida e se abrem.”

Gert e Andrea chegam ao lago Wallendorfer e se sentam numa passarela para absorver a paisagem. O sol da manhã começa a subir, e a água cintilante parece se fundir ao céu coberto de neblina. A distância, aves selvagens se reúnem em ilhotas, seus gritos atravessando as águas calmas.

O casal de peregrinos em uma das rotas.

Esse já foi um dos lugares mais sujos da Europa. O lago é o resto inundado de uma das centenas de minas de carvão criadas pelo governo na época soviética. “Para alguém como eu, que cresceu engolindo e respirando pó preto, convivendo com ele, é difícil acreditar nisso”, afirma Gert.

Quando voltam a caminhar, o sol está forte. Gert sente a tensão nas pernas. Então torres e torrinhas são avistadas sobre um morro distante, acima do Rio Saale. A vista lhe dá um surto de adrenalina muito necessário.

Eles chegaram a Merseburg, com seu castelo e a catedral quase gótica instalados em meio a um tesouro de arquitetura romanesca. Mas a cidade é desconhecida para muitos alemães. “Realmente, é uma pedra preciosa esperando para ser descoberta”, diz Gert.

Gert e Andrea atacam o último trecho do dia: mais três horas difíceis de caminhada.

Dali a algum tempo, ele sente que caminha dormindo até que vê uma placa, “Frankleben”, que rapidamente o tira do estado de transe.

Até recentemente, o castelo de Frankleben era uma ruína bombardeada, entre as centenas de castelos abandonados que se espalham pelo leste, e chegou a abrigar famílias alemãs expulsas da Silésia no fim da guerra. Há dez anos, um nobre austríaco comprou a ruína, restaurou-a e hoje oferece abrigo a peregrinos.

Gert encontra um desenho rudimentar de uma vieira colado a uma porta. Com um leve empurrão, a porta se abre, e ele entra numa grande sala fresca, com teto baixo de madeira e quatro camas de madeira ornamentada. Numa mesinha, há uma caixa de doações e um carimbo. “Há confiança”, diz ele com um sorriso.

Depois desse cômodo há vários outros, um imenso salão de banquetes, um sofá de veludo vermelho, um piano de cauda Blüthner, de Leipzig. “O dono estaria tocando quando as bombas russas caíram?”, pergunta Gert.

Bem, esse foi o passado. Gert se vira e vai com Andrea para o sol do fim de tarde. Estão prontos para o jantar. Amanhã, voltam à estrada.

Por ISABELLE DE POMMEREAU / Fotografado por THOMAS BARTH