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Publicado em: 1 de julho de 2020

Drama da vida real: “Não olhe para baixo!”

Sozinho e machucado, ele precisava salvar 20 homens de uma queda de 600 metros.

Imagem: Ilustrado por Levente Szabó

Levando no colo o capacete e a sacola de sanduíches, Mario Cockrell correu para o elevador e abriu caminho entre os mineiros agrupados lá dentro. Muitos resmungaram: “Atrasado de novo!” As portas se fecharam, sinos de aviso tocaram e a cabine de dois níveis, lotada, começou a descida de 16 minutos e um quilômetro e meio na mina de ouro President Steyn, em
Welkom, África do Sul. Eram 20h15 de 23 de março de 1993.

Chamado de “Mary Ann”, o elevador de passageiros levava nessa viagem 21 homens, com o interior de alumínio nu iluminado apenas pela lanterna dos capacetes. Durante quase dez minutos a viagem foi tranquila. Então, de repente, a cabine do elevador sacudiu e parou.

Rassie Erasmus, o ascensorista de cabelo branco, não se preocupou. “Fiquem tranquilos”, Mario o ouviu dizer. “Ela andará já, já.”

Mario não tinha tanta certeza. Ouvia o som de batidas estranhas vindo da escuridão lá em cima. Até que ele entendeu. Grandes voltas do pesado cabo de aço se empilhavam no teto do elevador. O imenso guincho que descia a cabine ainda estava funcionando!

Estamos com problemas, pensou Mario. Algo bloqueara a descida da cabine, e o que a prendera poderia ceder a qualquer momento. Com o cabo amontoado no teto, até uma vibração dos homens lá dentro poderia lançar a cabine de 2,4 toneladas em queda livre. O cabo frouxo arrebentaria ao ser esticado de repente. Então nada impediria que mergulhassem 600 metros até o fundo – a altura de duas torres Eiffel.

Mario empurrou Rassie para chegar à porta. “Temos de sair daqui”, disse.

“Vamos morrer”

Desde a infância, Mario Cockrell, um entre 11 irmãos, aprendera a se virar. O pai morrera quando ele tinha 12 anos. Na adolescência, caçara no deserto do Kalahari com amigos do povo san, vivendo da terra com arco e flecha feitos em casa.

Quando jovem, Mario foi boxeador amador e preparador físico do exército sul-africano antes de montar casa com Connie, a esposa belga, e ir trabalhar na mina. Agora com 31 anos, ele economizava para realizar seu sonho: alguns caminhões para abrir uma pequena empresa de transportes e alguns hectares de terra para Connie e os filhos Etienne, de 3 anos, e Mario Jr., de 5 meses.

Mario forçou a porta do elevador a abrir e olhou para fora. A lanterna do capacete iluminou uma parede lisa de concreto que mergulhava mais de meio quilômetro. Entre ele e a parede, havia um abismo de metro e meio. À direita, um canto da parede corria ao longo da lateral do elevador. À esquerda, espaço vazio: uma série de seis poços adjacentes usados por outros elevadores.

Por sorte, Mary Ann parara no nível exato de uma viga de reforço horizontal que oferecia um ressalto de meio metro de largura. Com cautela, pisando na viga de costas para o abismo, Mario contornou metade do elevador, chutando cascalho pela borda, mas sem ouvir nada atingir o fundo. Inclinado na traseira do elevador, ainda com um abismo de metro e meio nas costas, ele espiou um grupo de tubos verticais presos na parte exterior da viga.

Abaixo dele, o poço parecia sumir no infinito. De três em três metros havia outro conjunto de vigas. E, a cada 60 metros, dava para ver uma plataforma onde um túnel bem iluminado levava a uma escavação em andamento na mina. Por causa da troca do turno da noite, agora todos os túneis estavam desertos.

Então Mario sentiu um tremor que cresceu até que toda a estrutura de vigas zumbiu. As pedras e a poeira que caíam cobriram seu rosto quando ele olhou para cima. Outro elevador descia!

O som sibilado como o de um trem distante ficou cada vez mais alto. Era o elevador 6, descendo pelo poço logo à esquerda de Mary Ann, trazendo
toneladas de cascalho para misturar ao cimento. Agora a menos de 800 metros, passaria a toda em 60 segundos. Mario percebeu que o elevador agarraria as alças de cabo que pendiam do teto de Mary Ann e arrastaria a cabine e os homens para o vazio. Que Deus nos ajude!, rezou.

Apenas 11 metros abaixo da cabine presa, Mario viu a parada do “nível 37” – 1.130 metros abaixo da superfície. Lá haveria um telefone e um botão de emergência para deter todos os elevadores no poço. Tenho de chegar lá, pensou Mario. Mas como?

Seus olhos caíram sobre o grupo de tubos verticais. A maioria deles era grossa demais para segurar. Então ele notou um tubo d’água de aço galvanizado, com uns 2,5 cm de diâmetro, coberto de lama seca. Não havia tempo para descer pelo cano de mão em mão, aos poucos. Ele o segurou e saiu da beirada. Então relaxou os dedos.

Por um instante, Mario entrou em queda livre. Ele apertou o tubo de novo para frear, e a superfície áspera arrancou a pele da palma da mão. Agora a meio caminho entre as vigas, ele sentiu que o tubo começava a se curvar para longe da parede. Ele se deixou descer até onde o tubo estava mais seguro.

Finalmente, suas botas atingiram a viga no nível da parada. Mas ainda estava a um metro e meio da plataforma. Entre ele e a segurança havia o poço aberto. Ele deu um grande passo sobre o abismo e agarrou um tubo de escoamento no outro lado a fim de se içar para a frente. Quando o fez, o tubo de escoamento saiu em suas mãos.

Por uma fração de segundo, Mario oscilou no espaço. Com um impulso desesperado, conseguiu pôr o pé direito na beira da plataforma, cobrindo o abismo escuro. Então lançou-se freneticamente, fincou a ponta dos dedos no portão da plataforma e puxou a outra perna. Ele ouviu os gritos de medo dos colegas mineiros enquanto o elevador 6 se aproximava.

O alarme de emergência deveria estar numa caixa vermelha pregada na parede de pedra. Onde estava? Com o rugido atordoante do grande elevador quase sobre si, ele viu o alarme, obscurecido sob uma camada de pó.

Naquele instante, o elevador 6 passou a toda por Mary Ann, agarrando o cabo e enchendo o poço de poeira, fagulhas e trovões. Mario pulou para a caixa vermelha, socou o vidro e apertou o botão.

Houve um grande guincho quando o elevador 6 parou de repente 20 metros abaixo. Alças do cabo de Mary Ann estavam presas embaixo dele. Mais alguns metros e haveria uma catástrofe.

Pelo telefone, Mario falou com o supervisor dos elevadores. “Mantenha o freio ligado! Não tire nada do lugar!” berrou.

Na cabine lá em cima, os homens rezavam e choravam. “Vamos morrer!”, gritou um deles. Quando a poeira baixou, Rassie Erasmus deu uma olhada para baixo e se espantou ao ver Mario subindo de volta em sua direção, mão a mão.

“Confiem em mim!”

Quando chegou, Mario encontrou os homens de olhos arregalados de medo. “Está tudo bem”, falou. “Está tudo parado. Agora vocês podem descer.” Ninguém ousou se mexer.

Durante o serviço militar, Mario sempre comandara pelo exemplo. “Passem minha bolsa”, pediu ele, adotando um tom zangado. Os homens assustados lhe passaram a sacola de sanduíches. “Olhem o que estou fazendo e me sigam.”

Com a sacola pendurada no ombro, ele começou a descer pelo tubo. Mas, quando o facho da lanterna iluminou a parte inferior de Mary Ann, ele viu algo que fez seu sangue gelar.

De algum modo, os trilhos-guia verticais de Mary Ann tinham se torcido e saído do alinhamento. Isso fizera um canto do elevador se prender num suporte preso a uma viga. O peso do elevador e dos homens descansava agora sobre menos de cinco centímetros de metal fino e alguns parafusos. Se eu não tirar esses homens dali, eles vão morrer, pensou Mario. Deus me ajude!

Mario subiu de volta ao nível deles e anunciou: “Essa coisa vai cair a qualquer momento. Não toquem nela, só prendam a respiração e desçam pelo tubo comigo.”

Ninguém se mexeu.

Mario escolheu o menor mineiro, um homem com menos de 60 quilos. Segurou o tubo com uma das mãos, estendeu a outra, agarrou a frente do casaco do homem e o puxou em sua direção. O mineiro gritou e tentou se agarrar à viga. Mas Mario não era homem de suportar desobediência. Deu um soco na costela do mineiro.

Quando ele se curvou, Mario agarrou de novo o casaco do homem e o puxou da viga. Como se erguesse um haltere, ele segurou o mineiro em pleno ar, com o rosto no nível do seu.

“Está vendo?”, disse com rispidez. “Seguro você com uma das mãos. Confie em mim.”

O homem jogou os braços em torno do pescoço de Mario, mas, apavorado, não segurou o tubo. Mario afrouxou os dedos por uma fração de segundo, para que caíssem a pequena distância. Com o sacolejo, o homem agarrou o cano. Com Mario segurando-o, eles desceram aos poucos. Lá em cima, os homens no ressalto observaram com horror, certos de que o tubo fino se quebraria.

Finalmente, os dois chegaram à viga do nível 37. Agora, Mario tinha de descobrir como dar o salto de metro e meio até a plataforma da parada. O jovem mineiro nos seus braços não estava em condições de pular.

Ele deixou o homem em pé na viga, agarrado ao tubo, e abriu as pernas sobre o espaço mais uma vez. No máximo do alcance, as pernas mal cobriam o abismo. Ele torceu o corpo poderoso e agarrou o casaco do homem. “Solte o tubo exatamente quando eu mandar!”

Amedrontado, o homem fez que sim. “Solte!”, berrou Mario. O homem obedeceu, e Mario o jogou pelo abismo, lançando-o na plataforma e usando o impulso para ir atrás.

Mario limpou o pó das mãos ensanguentadas e, de mão em mão, se içou de volta pelo cano.

Truque de bar

O próximo a descer foi Jan Buys, o robusto auxiliar de Mario. “Não olhe para baixo!”, instruiu Mario. Eles desceram pelo tubo até a viga. Mas as pernas de Jan eram curtas demais para cobrir o espaço até a plataforma, e ele era pesado demais para ser erguido. E agora?

Na época do exército, Mario fizera várias vezes um velho truque de bar que aprendera num livro de Houdini. Com os ombros numa cadeira e os calcanhares em outra, ele tensionava o corpo como uma ponte e desafiava qualquer um a ficar em pé em sua barriga. Isso sempre lhe garantia uma cerveja. Agora ele faria o mesmo, mas com uma diferença.

Em pé na viga, ele se deixou cair para a frente e agarrou a ponta da plataforma com as mãos. Ele se segurou num pedaço de ferro e se virou para ficar virado para cima. Com os ombros apoiados na borda da plataforma, os calcanhares na viga e os músculos travados, Mario se tornou uma ponte humana.

– Tudo bem – disse a Jan. – Venha engatinhando.

– Não posso, você não vai aguentar.

– Vou, sim. Pode acreditar.

Trêmulo, Jan se agachou e segurou Mario na altura dos joelhos. No começo devagar, depois correndo, Jan atravessou.

Ver os dois homens em segurança tornou os outros mais confiantes. Aaron Koetse desceu pelo cano sentado nos ombros de Mario. Thabo Phatsoane, de 34 anos, alto e atlético, aguentou o próprio peso com os braços trêmulos enquanto Mario guiava seus pés. Com muitas mãos estendidas na plataforma, não tiveram dificuldade de atravessar o abismo.

Impossível!

Mario escoltara 13 homens até um lugar seguro e subira e descera 16 vezes um cano que estava escorregadio com o sangue de suas mãos. Depois de mais duas viagens, seus braços tremiam incontrolavelmente, e as palmas feridas ardiam como se ele segurasse carvões em brasa. Mas, quando parou para descansar e recuperar o fôlego, os homens na cabine que balançava acima imploraram: “Não pare!”

“Meu Deus, me dê forças para salvar os últimos”, rezou Mario. Ainda ofegante, ele reuniu toda a sua força de vontade. Os braços estavam carregados de força quando subiu e desceu mais quatro vezes e depois voltou para o último homem: Rassie Erasmus.

Rígido de medo, o idoso Rassie agarrou o tubo e se forçou a pisar nos ombros de Mario. Pouco a pouco, eles desceram. Perto do fim, a mão de Mario se afrouxou. Pela primeira vez, ele escorregou. Mas as botas atingiram a viga, e eles se salvaram.

Agora, quando Mario novamente esticou o corpo pelo abismo, Rassie observou com horror. Como deixar em risco a vida de Mario e a sua ao pôr seus 90 quilos sobre o corpo exausto do amigo? Mesmo com os homens lhe estendendo a mão, parecia impossível.

Então Rassie leu o olhar de total certeza de Mario. Deu três passos rápidos pelo corpo tenso do amigo. Uma quinzena de mãos se estendeu para segurá-lo, e ele passou.

Houve vivas e lágrimas quando ajudaram Mario a subir. Trêmulo, ele serviu uma caneca de chá de sua garrafa térmica a Rassie, que se encostara na parede. Depois, telefonou para a superfície: “Estamos todos a salvo.” Eram 10 horas da noite.

Minutos depois, um grupo de gerentes e engenheiros da mina chegou em outro elevador. Um deles agarrou a mão de Mario para um forte aperto de mão. Mario fez uma careta de dor. Quando socara o vidro da caixa do alarme, quebrara um osso.

Passava da meia-noite quando Mario se deitou ao lado de Connie, com cuidado para não acordá-la. Na manhã seguinte, acarinhou os filhos. Só quando Connie viu suas mãos inchadas, em carne viva, Mario confessou que tivera problemas na mina.

Seis meses depois Mario Cockrell recebeu a mais alta condecoração por bravura do setor mineiro sul-africano. Mas nenhum prêmio fala mais alto do que a história que os mineiros contam sobre o homem rijo e calado que salvou 20 vidas, uma a uma, viagem a viagem, com a mão quebrada.

POR JOHN DYSON (PUBLICADO PELA PRIMEIRA VEZ EM ABRIL DE 1994)

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