Conheça a  incrível história da mulher que, de casa, se empenha em salvar vidas de refugiados no meio da noite:

 

São três da manhã de 9 de fevereiro de 2016 e 68 pessoas estão sentadas lado a lado num bote de borracha a oito quilômetros do litoral turco. Vão para a ilha grega de Lesbos. Mas o bote está sobrecarregado, o motor enguiçou e a água entra pelas laterais. Crianças choram.

A mais de 3 mil quilômetros, na pequena cidade espanhola de Vigo, Angeles De Andres está sozinha, de pijama, em sua sala de estar, muito concentrada em seu iPad. O coração da administradora escolar de 46 anos bate acelerado quando ela recebe a mensagem de um passageiro que lhe diz que o barco vai afundar. Ao saber das vinte crianças a bordo, ela entra em ação. Esse eu não posso perder, pensa ela.

Angeles inicia uma conversa no WhatsApp com quatro voluntários espanhóis e Mohamed Hajira, que foi da marinha mercante síria e é conhecido como “Capitão” nos círculos de refugiados. Eles pedem que o passageiro envie a localização do barco usando o GPS do celular. Angeles liga para a guarda costeira turca para lhes pedir que enviem um barco de resgate, mas eles afirmam que não há nenhum barco livre.

Angeles sabe que, assim que o bote entrar em águas gregas, a guarda costeira da Grécia, segundo sua experiência mais prestativa do que a turca, poderá ajudar. Mas a equipe pode ver, pelas notícias regulares, que o barco mal se move. Uma hora torturante se passa. A água já chegou à cintura das mulheres sentadas no meio do bote.

Para que o barco flutue, todos têm de ficar imóveis. Angeles diz ao passageiro: “Peça às mulheres que cantem para acalmar as crianças.” Ela escuta a interpretação à capela de uma canção síria tradicional ecoar na noite.

De repente, um dos voluntários manda a Angeles uma mensagem privada: “Viu a última localização deles?” Ela verifica o mapa: chegaram a águas gregas. Seu coração dá um salto. Ela liga para a guarda costeira grega e lê as coordenadas ao telefone.

Finalmente, recebe a notícia de que todos os 68 passageiros chegaram a terra firme em segurança. Ela sabe que precisa dormir antes de ir trabalhar e se enfia na cama. Amanhã, terá de estar aqui de volta, mais uma vez no plantão noturno.

A Red Alert

É assim que Angeles De Andres e a Red Alert, sua rede popular de 3 mil voluntários, colaboram desde abril de 2015 para ajudar milhares de migrantes, muitos deles refugiados que tentam escapar da guerra na Síria e no Iraque. A ONG espanhola de resgate de refugiados Proactiva Open Arms revela que, juntamente com Mohamed Hajira, Angeles salvou muitas vidas nas rotas marítimas até a Grécia, principalmente até Lesbos. Mas, em seu sofá na Espanha, ela também alimentou refugiados, levou-os a abrigos e pagou seu tratamento médico urgente. Às vezes, ela simplesmente escuta o que eles têm a dizer. “Adoro solidariedade”, explica ela.

Angeles não tem formação de assistente social e nunca pegou um avião na vida – ela mal sabe dirigir. Mas promete a todos os refugiados que entram em contato com ela: “Não sei como vou ajudar, mas vou.”

Angeles De Andres ajuda refugiados durante a noite, pela internet.

“Há uma vida antes e outra depois”, explica Angeles, em seu modesto escritório térreo no centro de Vigo, onde há estátuas de Buda ao lado da imagem da Virgem Maria (ela é “católica, mas de mente aberta”). Angeles cresceu no litoral atlântico da Espanha, onde o vento é constante, e estudou administração. Planejava trabalhar para alguma embaixada e conhecer o mundo, mas não conseguiu superar o medo de avião – e se dedicou aos negócios. Em 1990, com 20 anos, fundou uma escola noturna para jovens talentosos.

A empresa prosperou e financiava uma vida confortável. Então, em 1998, ela publicou um anúncio procurando faxineira. Foi assim que conheceu Gladys, uma imigrante boliviana. Embora Gladys fosse pobre, Angeles se espantou ao ver que ela gastava sua pequena renda ajudando outros migrantes da América do Sul. Logo Angeles começou a participar desse movimento. Juntas, elas passaram a entrar em contato com esses migrantes e ajudá-los a encontrar casa e emprego. Angeles viu que, com um pequeno sacrifício, como não cortar o cabelo, poderia gastar com os outros. “Foi viciante”, diz ela. Em março de 2011, quando teve início a guerra civil síria, Angeles ficou preocupada. “Eu levava uma vida normal numa cidade normal.

Mas pensava: Como posso ajudá-los?

Certa noite, enquanto lia notícias que desnudavam o horror do conflito, Angeles começou a vasculhar o Facebook atrás de pessoas afetadas por ele. Encontrou um jovem refugiado sírio chamado Wael que lhe disse que fugira para a Turquia a fim de não ser convocado para o exército sírio. Eles trocaram mensagens. “Por meio dele, tive uma ideia da guerra. Enquanto escrevia, ele chorava, talvez porque seus tios estivessem morrendo.”

Nas mídias sociais, Wael a apresentou a seus contatos sírios e turcos. Então Angeles percebeu que poderia aproveitar o conhecimento deles para montar listas de médicos, assistentes sociais e moradores comuns em diversos estágios da jornada da Síria ou do Iraque até a Europa. Ela criou um grupo no WhatsApp para enviar mensagens a uma longa lista de contatos que poderiam ver as respostas uns dos outros.

Nas semanas seguintes, Angeles ouviu histórias de horror: duzentas pessoas três dias sem comer na Grécia, uma criança refugiada com leucemia que precisava de transplante de medula na Itália, uma mulher que buscava orientação para fugir da Síria. Ela criou grupos no WhatsApp para oito categorias de casos, como assistência médica e orientação jurídica. Às vezes, ajudava do próprio bolso, procurando no Facebook alguém que morasse perto do refugiado para lhe entregar o auxílio.

“Você não me conhece”, dizia ela, “talvez ache que sou maluca, mas preciso de sua ajuda.” Às vezes, as pessoas ajudavam.

Uma delas foi Bert Van Vossole, de 33 anos, designer gráfico que mora em Antuérpia, na Bélgica. Em um dia de 2016, ele recebeu uma mensagem de Angeles sobre um casal de refugiados curdos com uma filha de 2 anos doente e com necessidade de mantimentos. Estavam num centro de recepção de refugiados na cidade de Mouscron, no oeste do país, onde não conheciam ninguém e não falavam a língua local. Bert poderia lhes levar alguns itens essenciais?

A princípio, ele não acreditou. Mas Angeles conseguiu persuadi-lo. “Eles podiam enviar os recursos na mesma hora”, diz ele. “E, como já queriam ajudar, ficou mais fácil dar aquele passo a mais, literalmente.” Naquele sábado, ele viajou duas horas até Mouscron com a finalidade de procurar a família. Bert os levou às lojas, onde gastaram 250 euros em roupas e mantimentos. A família ficou tão agradecida que o visitou em Antuérpia algumas semanas depois. Angeles acrescentou a família e Bert aos grupos do WhatsApp, e eles passaram a fazer parte de sua rede crescente de olhos, ouvidos e mãos na Europa inteira.

Esses casos humanitários logo se tornaram o arroz com feijão do programa informal da Red Alert (que recebeu o nome em fevereiro de 2016). Enquanto isso, o outro lado da operação também ganhava impulso. No início do trabalho, Angeles percebeu que o maior risco para os refugiados era a perigosa viagem de barco entre a Turquia e a Grécia. Ela falava com as famílias antes de embarcarem – e, então, a comunicação se interrompia para sempre. Ela temia que tivessem se afogado. Como poderia ajudar esses refugiados a fazer a travessia com segurança?

O Capitão

Foi assim que ela conheceu Mohamed Hajira, então com 45 anos, ex-comandante da marinha mercante da Síria com 25 anos de experiência, que respondeu a uma de suas postagens no Facebook sobre um bote de borracha que estava afundando em setembro de 2015. Ele fugira da Síria quando a guerra começou e morava num centro de refugiados em Kalmar, na Suécia. Os dois começaram a conversar. Empolgada, Angeles escreveu: “Irmão, se você é marinheiro, podemos ajudá-los. Seremos os olhos, o motor, o salva-vidas deles.” A princípio, ele riu. “Como?”, perguntou. Eles conversaram por horas em inglês. Em semanas, tinham um plano.

Começaram a orientar os migrantes a fazer a travessia com mais segurança, explicando como verificar o barco e como saber quando estava superlotado. Ensinaram-lhes a viajar com água, coletes salva-vidas, duas baterias para o celular e os documentos sob as roupas. Enquanto isso, o Capitão enviava a previsão do tempo todos os dias, de seis em seis horas. Quando o vento era forte, a Red Alert implorava aos migrantes que não embarcassem. Tiveram algum sucesso.

“Numa véspera de Ano-novo, conseguimos que não houvesse nenhuma travessia, porque avisamos, em todos os nossos grupos no WhatsApp: ‘Há uma tempestade forte – ninguém atravessa – vocês vão morrer’”, diz Angeles, que acrescenta com orgulho: “Os contrabandistas nos odiavam.”

Foi também quando começaram o plantão noturno e montaram um rodízio de voluntários para monitorar a posição dos barcos, ajudar na tradução e, em emergências, transmitir os detalhes para a guarda costeira. “Eu ia com eles passo a passo”, conta Mohamed, que ficava toda noite de plantão. O mais difícil era quando as embarcações passavam por “pontos de silêncio”, onde o sinal do celular era ruim, porque os passageiros não podiam enviar as coordenadas do GPS. Nesse caso, a equipe usava um conjunto especial de mapas plastificados, cada um mostrando uma área diferente das águas costeiras gregas e turcas e as rotas mais comuns dos refugiados. Com isso e uma fórmula criada pelo Capitão com base no peso, potência do motor e horário dos barcos, além de ventos e correntes, eles conseguiam calcular aproximadamente onde estaria a embarcação.

Mohamed Hajira, o Capitão

Quando a operação cresceu, o trabalho logo dominou a vida de todos. Em fevereiro de 2016, era comum 2 mil pessoas irem para a Grécia de barco à noite, de acordo com a Agência de Refugiados da ONU – e uma parte significativa delas ia para Lesbos. Angeles negligenciou seu trabalho e acabou engordando, segundo ela. Seus pais começaram a se preocupar, insistindo para que tentasse ser feliz com sua própria vida.

Pior do que isso era a dor no coração com o naufrágio de um barco. Angeles ainda é perseguida pela noite de 4 de janeiro de 2016, quando recebeu a mensagem de um passageiro dizendo que o barco estava se enchendo de água. Ela ligou para a guarda costeira turca e implorou que enviassem o resgate. Mas nenhum socorro chegou. “Eu estava no celular, escutando o homem pedir socorro. Todos choravam”, relembra ela. “Finalmente, fez-se o silêncio.” Ela acredita que o barco tenha afundado.

Naquela noite, em prantos, abalada, Angeles quase desistiu. “Mas pensei: ‘Se nós afundarmos, os refugiados morrerão.’ E eu disse ao meu Capitão: ‘Talvez tenhamos perdido um barco. Mas salvamos muitos, e esse é nosso trabalho.’”

Ninguém sabe exatamente quantas vidas foram salvas pela Red Alert desde então. Mas o Capitão contabiliza o total de barcos que orientou: até junho deste ano, foram 3.169. Às vezes, os passageiros entram em contato para agradecer. Um homem avisou que chegara em segurança a um centro de recepção; outro contou que conseguira entrar na Alemanha. “Temos orgulho do que propiciamos”, diz Mohamed.

Em junho de 2018, as travessias de barco até as ilhas gregas no Mediterrâneo caíram drasticamente depois que a Turquia fez um acordo com a União Europeia para limitar o movimento de migrantes. O Capitão, que agora mora num pequeno apartamento na Suécia, ainda ajuda as pessoas a atravessar, quando preciso. Mas a necessidade dos plantões noturnos incansáveis diminuiu, e agora ele dedica mais tempo aos casos humanitários. Está estudando e espera voltar a trabalhar.

Em Vigo, Angeles vive um conflito. Está dormindo melhor e pondo o trabalho em dia. Também está perdendo o peso que ganhou nos plantões noturnos. Mas tem sido difícil recuar, porque ajudar os migrantes a atravessar o Egeu oriental foi a “maior aventura de minha vida”, admite ela com saudade.

No entanto, ela espera que haja outra aventura. Angeles não consegue descansar sabendo que há centenas de milhares de sírios e iraquianos por aí, principalmente crianças, ainda sofrendo.

Quando o conflito finalmente terminar, a mídia passará para outro assunto; ela, porém, sabe que será apenas o começo para os sobreviventes. Portanto, agora Angeles está vendo como superar o medo de avião. Primeiro, quer visitar o Capitão na Suécia. Em seguida: “Meu sonho é ir à Síria abrir escolas”, diz ela. “Há crianças nas ruas, perdidas e sozinhas. Mas, até lá, estarei aqui, ajudando-as em Vigo.”

Ela puxa o celular e abre a imagem de uma menina esquelética num aeroporto, inconsciente numa cadeira de rodas. Militantes do Estado Islâmico tinham incendiado sua casa numa aldeia iraquiana, diz ela. O estado da menina piorava. Mas a campanha bem-sucedida de Angeles ajudou a mãe a levá-la para a Itália.

Então ela ergue o celular e passa o vídeo que recebeu recentemente de uma menina gorducha em pé, dançando alegre. “É ela”, comemora Angeles enquanto a criança rodopia. “Com um dedo e um celular, você pode ajudar. Todos podemos.”

 

Por Eleanor Rose