No Brasil, quase sempre quem ouve falar em badminton desconhece o esporte ou tem apenas uma vaga lembrança. “É aquele da peteca?”. Isso mesmo, o badminton é um esporte que surgiu no fim do século 19, na Índia, onde era chamado de poona. Militares britânicos que viviam naquele país adotaram o esporte e o levaram para a terra da rainha. Na década de 1970, ele ganhou regras e o novo nome, criado após uma partida disputada na propriedade de Badminton House. Quase um século e meio depois, o esporte é praticado em todo o mundo, inclusive em uma comunidade carente na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

A Chacrinha, localizada no bairro de Jacarepaguá, é o lar da Associação Miratus de badminton, um projeto social que poderia muito bem ser chamado de “celeiro nacional do badminton”. É de lá que saiu Ygor Coelho, o brasileiro mais bem colocado no ranking mundial ao lado da medalhista pan-americana Lohaynny Vicente, também da Chacrinha, que representou o Brasil nos Jogos do Rio, em 2016. A história de Ygor, no entanto, será mais bem contada se voltarmos um pouco no tempo, para a década de 1990, e refizermos a trajetória de seu pai, Sebastião Oliveira, o fundador do projeto.

“A nossa era a casa mais pobre e feia da rua. Para pagar o aluguel, catávamos lixo no aterro e cabeças de peixe para comer. Disputávamos comida com os urubus”, relembra ele.

Filho de uma empregada doméstica, ele tinha 6 anos quando a mãe arrumou um novo emprego. O patrão não aceitou que Sebastião ficasse em sua casa e o colocou na Fubanem, uma instituição para crianças infratoras e abandonadas. Anos depois, Sebastião voltou a morar com a mãe ao lado de um lixão. “A nossa era a casa mais pobre e feia da rua. Para pagar o aluguel, catávamos lixo no aterro e cabeças de peixe para comer. Disputávamos comida com os urubus”, relembra ele. Anos depois, Sebastião conseguiu um emprego no Colégio Pedro II, uma escola pública tradicional do Rio de Janeiro. Lá, por intermédio de um professor, conheceu o badminton.

As dificuldades na infância e na adolescência o levaram a usar o esporte pelo qual se apaixonou para mudar o destino de ouras crianças. “Infelizmente, o tráfico ainda é uma opção para muitas crianças, mas nós podemos chegar antes. Quando criei a Miratus, o objetivo em mente era criar uma referência do bem na favela. Por isso, o espelho é muito importante. Quando um atleta como o Ygor voa, ele leva junto um grupo de jovens. Isso pode fazer com que as pessoas olhem com carinho para projetos dentro da comunidade”, explica Oliveira, que mantém a associação com incentivo federal e patrocínio da iniciativa privada.

Na sede, cerca de 200 crianças e jovens recebem treinamento diário, além de atividades extra como reforço escolar, música, teatro e capoeira. “A ideia sempre foi ir além do esporte e criar um sistema de inclusão social. Porque quanto mais nós ensinamos a essas crianças, mais aprendemos com elas”, garante Sebastião.