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Publicado em: 28 de janeiro de 2019

Histórias de um veterinário de província – Parte 1

As incríveis histórias do escritor britânico James Herriot recordam sua vida como veterinário em Yorkshire Dales

Imagem: Daisy-Daisy/Istock

James Herriot foi um cirurgião veterinário apaixonado por sua profissão. Suas memórias da vida profissional e pessoal deram origem ao livro “All Creatures Great and Smal“, lançado em 1984. No Brasil, a obra também originou a série “Criaturas Grandes e Pequenas“, transmitida pela Animal Planet.

Nessa primeira parte da história, o veterinário recém-formado conhece o condado de Yorkshire Dales – região bucólica e encantadora da Inglaterra – e passa por testes desafiadores para conseguir o seu tão desejado emprego como assistente veterinário.

Acompanhe aqui a segunda e a terceira parte dessa história!


 

Fazia calor no pequeno ônibus, e eu estava no lado errado, onde o sol de verão batia nas janelas. Eu me remexia, desconfortável, dentro de meu melhor terno. Era uma roupa idiota para aquele clima, mas alguns quilômetros adiante meu possível empregador aguardava. Por isso, eu tinha de causar boa impressão.

Muita coisa dependia dessa entrevista; ser um cirurgião veterinário recém-formado em 1937 era como ganhar uma entrada para a fila do desemprego. Por isso, nem parecia verdade quando chegou a carta de Darrowby, nos Yorkshire Dales. O Sr. Siegfried Farnon, do Real Colégio de Cirurgiões Veterinários, queria me ver; e eu deveria ir na hora do chá. Se nos acertássemos, eu poderia ficar como seu assistente.

Eu nunca fora ao condado de Yorkshire. O nome sempre evocara a imagem de um condado tão enfadonho e pouco romântico quanto seu tradicional pudim. Mas, enquanto o ônibus gemia ao subir pelo caminho, comecei a pensar. As alturas sem forma se dissolviam em morros altos e gramados. Rios se contorciam entre as árvores e as sólidas casas de fazenda de pedra cinzenta.

Siegfried Farnon. Esse era um estranho nome para um veterinário dos Yorkshire Dales. Assim, sua imagem começava a tomar forma: baixo, gordo, um tipo roliço com olhos alegres e uma risada borbulhante.

Darrowby

Nos guias, Darrowby era descrita como uma cidadezinha cinzenta junto ao rio Darrow, com a praça da feira calçada de pedras e pouco interesse além de duas pontes antigas. No entanto, o local era belo, com o rio pedregoso, à margem do qual as casas se aglomeravam densamente. Por toda parte, nas ruas, através das janelas das casas, era possível ver a mata erguendo seu volume calmo e verde mais de 600 metros acima dos telhados.

Trengate era uma rua tranquila que saía da praça, e dali avistei pela primeira vez a Skeldale House. Soube que era o lugar certo antes de me aproximar o suficiente para ler “S. Farnon Cirurgião Veterinário” na placa de latão que pendia meio torta do suporte de ferro. Era o que a carta dizia: a única casa com hera. Agora que estava ali na soleira, fiquei sem fôlego.

Toquei a campainha. Porém, no mesmo instante, a paz foi estilhaçada por uma matilha de lobos em plena caça. A metade superior da porta era envidraçada, e, quando espiei, um rio de cães se despejou pela esquina de um corredor comprido e disparou rumo à porta. Então, uma mulher grande apareceu no corredor. Ela soltou uma única palavra, e o ruído parou.

– Boa tarde – disse eu com meu melhor sorriso. – Eu me chamo Herriot. O Sr. Farnon me espera. Sou candidato ao cargo de assistente.

Siegfried Farnon

O rosto da mulher se atenuou um pouco.

– Sou a Sra. Hall. Cuido da casa do Sr. Farnon. Entre e tome uma xícara de chá. Ele não deve demorar. Foi visitar a mãe.

Eu a segui até uma sala iluminada pelo sol, de teto alto e arejada, com uma lareira enorme.

Os cães se arrumaram pela sala. Mas eu não consegui relaxar. Por que alguém escreveria pedindo um assistente, marcaria um encontro e iria visitar a mãe?

Meus pensamentos foram interrompidos pelo toque da campainha e pelos cães. Não havia sinal da Sra. Hall. Assim, fui até a porta, onde os cães davam tudo de si em sua cena de ferocidade.

– Calados! – gritei, e o barulho se desligou. Abri a porta.

– O Sr. Farnon está?

– Não no momento. Em que posso ajudar?

– Ah, quando ele chegar, diga a ele que Bert Sharpe de Barrow Hills tá co’a vaca que precisa furar. Ela só vai em três cilindros, e se a gente num faz nada o jarro vai ficar ruim. Ninguém quer bandido, né?

Escutei meu primeiro histórico de caso sem entender nada.

Minha cabeça começou a doer quando passei pelas portas de vidro do jardim. Sentei-me na grama e descansei as costas no tronco de uma grande acácia. Onde diabos estava Farnon? Eu gastara minhas últimas libras para vir e, se fosse um engano, eu estava encrencado.

Encostei a cabeça na casca da árvore e fechei os olhos. Então, ouvi uma voz grossa dizendo “Olá, olá”. Abri os olhos. Um homem alto e magro estava encostado na parede, as mãos nos bolsos.

– Desculpe pela demora. Sou Siegfried Farnon. Peço desculpas por não estar em casa quando chegou. Tenho péssima memória e me esqueci. – Era a voz mais inglesa também. – Vamos entrar. Quero lhe mostrar o lugar.

Farnon me põe à prova

– Aqui – disse Siegfried com um brilho nos olhos – é a farmácia.

A farmácia era um lugar importante na época anterior à penicilina e à sulfa. Filas de garrafas brilhantes forravam as paredes brancas do chão ao teto. Saboreei os nomes conhecidos: Espírito de Nitro, Percloreto de Mercúrio, Cantaridina.

– Olhe só isto, Herriot – disse ele. – Adrevan! É o remédio para os pequenos estrôngilos dos cavalos. E esses pessários de violeta genciana. Se meter um deles no útero da vaca depois de uma limpeza, a descarga fica de uma cor muito bonita. Parece mesmo que faz alguma coisa. E você já viu este truque?

Ele pôs alguns cristais de iodo ressublimado num prato de vidro e acrescentou uma gota de terebintina. Então uma nuvem de fumaça roxa rolou pesadamente até o teto. Ele riu de minha cara espantada.

– Parece bruxaria, não é? Uso para feridas nos pés dos cavalos. A reação química leva o iodo até o fundo dos tecidos. Pelo menos, é a teoria. Isso impressiona até o cliente mais duro.

Nós dois ficamos olhando as filas de garrafas sem nenhuma ideia de que quase tudo aquilo era inútil e que os dias dos antigos remédios estavam quase acabados.

Falei-lhe de Bert Sharpe.

– Algo sobre furar uma vaca que está com três cilindros. Ele falou em jarro e bandido, não entendi direito.

Farnon riu.

– Acho que posso traduzir. Ele quer uma cirurgia numa teta obstruída. Jarro é o úbere, e bandido é o nome local da mastite. Bem, é melhor vermos o Sharpe. Que tal vir comigo? Eu lhe mostro um pouco da região.

Diante da casa, Farnon me indicou um surrado automóvel Hillman. Dei uma olhada espantada nos pneus carecas. Depois, percebi que Farnon não era um motorista ortodoxo. Cativado pela paisagem, dirigia devagar morro abaixo.

Paramos no pátio de uma fazenda

– Cavalo manco aqui – informou Farnon.

Um enorme Clydesdale castrado foi trazido, e observamos atentamente o fazendeiro fazê-lo trotar de um lado para o outro.

– Que pata você diria? – perguntou meu colega. – A dianteira de cá? É, também acho. Que tal examinar?

Pedi um martelo e dei batidas leves na parede do casco.

– Parece um abscesso no casco.

– Exato. – Farnon estendeu um renete. – Vou observar sua técnica.

Com a sensação desconfortável de que estava sendo avaliado, levantei o pé e o prendi entre os joelhos. Eu sabia o que tinha de fazer: encontrar a marca escura na sola por onde entrara a infecção e segui-la até chegar ao pus. Assim, raspei a sujeira amontoada e não encontrei uma, mas várias marcas. Depois de mais algumas batidas, escolhi um ponto provável e comecei a cortar.

A marca ia ficando cada vez mais fraca e, depois de um último entalhe com a faca, desapareceu completamente.

– Muito bem, Herriot. – Farnon deu ao cavalo uma injeção antitetânica e depois se voltou para o fazendeiro. – Você poderia segurar o pé erguido um segundo enquanto desinfeto a cavidade?

O homem robusto pegou o pé entre os joelhos enquanto Farnon enchia o buraco com cristais de iodo e pingava terebintina. Então ele sumiu atrás de uma cortina roxa.

Quando a fumaça começou a diminuir, pude avistar um par de olhos arregalados e espantados.

– Caramba, Sr. Farnon, eu queria saber o que foi que aconteceu por um minuto. É maravilhoso o que a ciência faz hoje em dia.

Conseguindo o emprego

Fizemos mais duas visitas, a última à vaca com a teta obstruída. Assim, Sharpe nos levou ao estábulo, e Farnon indicou a vaca. Agachei-me e apalpei a teta, sentindo a massa de tecido espessado a meio caminho. Ela teria de ser rompida com um perfurador de Hudson, e comecei a enfiar a espiral fina de metal pela teta acima. Um segundo depois, eu estava sentado, ofegante, na canaleta de esterco, com uma marca de casco na camisa. Sharpe tapou a boca com a mão.

– Desculpe, meu rapaz, mas eu devia ter avisado que essa vaca é muito amistosa. Ela sempre quer um aperto de mão.

Levantei-me da canaleta com dignidade. Com Sharpe segurando o focinho e Farnon levantando a cauda, consegui fazer o instrumento passar pela massa fibrosa e limpar a obstrução. Quando terminou, o fazendeiro segurou a teta e lançou no chão um jato branco, comprido e espumoso.

– Muito bom! Agora os quatro cilindros funcionam!

Fomos a uma aldeia, e Farnon pisou no freio com violência.

– Há um grande pub aqui. Vamos entrar e tomar alguma coisa.

O pub era simplesmente uma cozinha grande, quadrada e com piso de pedra. Uma lareira enorme e um velho fogão preto ocupavam uma das paredes. Havia uma dúzia de homens sentados nos bancos de encosto alto que forravam as paredes. Diante deles, filas de canecas de um litro descansavam sobre mesas de carvalho fissuradas e retorcidas pelo tempo. Farnon me guiou até um assento, pediu duas cervejas e se virou para me encarar.

– Bem, pode ficar com o emprego se quiser. Quatro libras por semana e pensão completa. Tudo bem?

Quatro libras por semana era riqueza.

– Obrigado – eu disse, tentando com esforço não parecer triunfante. – Aceito.


DO LIVRO ALL CREATURES GREAT AND SMALL, © 1970, 1972, 1973 DE JAMES HERRIOT 

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