Com o custo da moradia subindo proibitivamente e os governos cortando os gastos com assistência médica e social, começam a surgir vários modelos de lar de idosos intergeracional.

Uma das primeiras pessoas a ter essa “ideia genial” foi Gea Sijpkes, diretora do Humanitas, lar de idosos em Deventer, no coração da Holanda. Em dezembro de 2012, Gea procurava um modo de melhorar a vida dos moradores e ocupar os quartos vazios em função da redução dos subsídios governamentais.

Ela sabia que numerosos estudos na União Europeia, no Canadá e nos EUA mostravam indícios de que o isolamento e a solidão estavam ligados a doenças físicas e ao declínio cognitivo. Por exemplo, um relatório de 2014 do Conselho Nacional de Idosos do Canadá (NSC) constatou que até 44% dos idosos que moravam em casas de repouso receberam o diagnóstico ou tinham sintomas de depressão.

“O isolamento social não é uma questão apenas individual”, disse Tamara Sussman, professora-adjunta de Serviço Social da Universidade McGill, em Montreal, consultora do relatório do NSC. “Os idosos não costumam ter oportunidades para se mostrar fora da doença. Esse modelo lhes dá a oportunidade não só de socializar como de mudar de ideia e atitude. Além de transmitir experiência e conhecimentos à nova geração.”

Uma ideia maluca na Holanda

Gea já sabia que a saúde dos idosos, seja no combate à demência, seja no controle da pressão arterial, melhora quando eles convivem com pessoas mais novas. E percebeu que lia reportagens constantes sobre estudantes com dificuldade de fechar as contas enquanto cursavam a faculdade.

Então pensou: por que não juntar os dois? Seu negócio era a felicidade – então por que não criar um ambiente rico ali no Humanitas, com idosos e estudantes cuidadosamente entrevistados e selecionados?

Quando propôs a ideia à diretoria da casa de repouso, todos acharam que ela havia enlouquecido. “Para eles, a própria ideia de estudantes com sexo, drogas e rock and roll morando com idosos era maluquice”, explicou ela.

Mas Gea perseverou e, finalmente, convenceu a diretoria a permitir que um estudante morasse seis meses no lar como experiência. Em troca de alojamento e comida gratuitos, o estudante teria de ser um “bom vizinho”. Ele teria de interagir com os moradores pelo menos 30 horas por mês. Poderia servir refeições, ajudar com os computadores ou mesmo abrir garrafas de vinho – uma tarefa que parece simples para quem não tem artrite nos dedos.

“Se não der certo, eu mesma expulso o estudante”, prometeu Gea.

Um novo jeito de lidar com a diferença entre gerações

Deu certo, e o programa está em andamento desde então. No Humanitas, há no máximo seis estudantes de cada vez morando com os 160 idosos. Eles são selecionados primeiro pelos colegas e depois por Gea. Esses jovens ganham mais do que acomodações gratuitas, de acordo com Sores Duman, de 27 anos, estudante de Comunicação. Ele está no Humanitas desde março de 2016, em um apartamento ao lado do de Marty Weulink, de 92 anos. “Somos todos amigos em igualdade de condições. Todos temos coisas a oferecer uns aos outros, seja a sabedoria da experiência, seja conhecimentos técnicos”, disse Sores.

Marty é prática e sentimental ao mesmo tempo. “Sores me ajuda a navegar no iPad para que eu tenha contato com a minha família”, contou ela. “Quando ele passa aqui, conversamos, comemos, bebemos e contamos muitas histórias. Não sei se lhe ensinei alguma coisa, mas eu o considero meu neto!”

Sores ri. “Marty me contou como foi viver durante a Segunda Guerra Mundial”, disse ele. “Morar aqui me ensinou a ser mais paciente, porque tudo se desacelera quando entramos aqui. Eu tinha pena dos idosos porque achava que eles não conseguiam fazer um monte de coisas. Agora, vejo o quanto são capazes de fazer.”

Experiência replicada na Finlândia

Quando soube do programa, Miki Mielonen, gerente de projetos da Secretaria da Juventude de Helsinque, Finlândia, pensou: por que não aqui? Para ele, o problema imediato eram os jovens sem teto. Em 2015, mais de 1.000 pessoas entre 18 e 25 anos não tinham residência permanente na cidade. Elas pulavam de sofá em sofá, tentando estudar ou trabalhar. Por que não aproveitar alguns apartamentos vagos em casas de repouso? Elas pagariam um aluguel simbólico e passariam parte de seu tempo com os idosos.

“Podemos adaptar a ideia às nossas necessidades”, disse ele aos colegas. “Não precisamos nos limitar aos estudantes.” Era uma situação em que todos sairiam ganhando, explicou ele. Os jovens pagariam um aluguel modesto por uma quitinete com banheiro. Em troca, levariam sua vitalidade e seus pontos de vista diferentes a idosos marginalizados pelo estado de saúde e pelas condições de vida. Não haveria regras rígidas, mas um compromisso de que os jovens passariam algum tempo com os vizinhos.

A princípio, seus colegas também custaram a acreditar que pudesse dar certo. Um programa desses não seria um convite aos problemas? Como os jovens lidariam com coisas como encontrar um idoso inconsciente ou morto? E o que dizer das festas, a música alta, o cigarro?

“Vamos tentar – de início, só alguns estudantes interessados em preencher essa lacuna”, sugeriu Miki. “Não temos nada a perder.”

Em novembro de 2015, uma postagem no Facebook solicitando inscrições recebeu 312 respostas. Miki e um grupo de especialistas reduziram os inscritos a 22 jovens. Estes passaram por entrevistas rigorosas e escreveram ensaios curtos explicando por que queriam e precisavam morar numa casa de repouso. Em dezembro, três deles foram escolhidos.

Cena cotidiana no novo modelo de lar de idosos

No quarto de Taimi Taskinen, 82 anos, no Lar de Idosos Rudolf, ela leva a cadeira de rodas até a mesinha redonda coberta com uma toalha de plástico e abre seu caderno de esboços. Folheia as páginas e examina estudos que fez de um celeiro a partir de vários pontos de vista, esboços simples em preto e branco que trazem à vida a estrutura de madeira cercada de árvores que parecem se mover com um vento invisível.

Ao seu lado, Jonatan Shaya, o vizinho de 20 anos, que se sentou com ela incontáveis vezes àquela mesinha, conversando e desenhando como se fossem amigos de infância. Na parede dela está o desenho que ele fez de uma mulher sensual com trajes de noite do início do século 20, sob a luz amarela de um poste de rua; ela usa um vestido comprido e listrado, uma estola e um detalhado chapéu com plumas. Além dos estudos do celeiro, os quadros de Taimi mostram passarinhos alçando voo, sombras negras contra o céu azul.

“Estou mais aberta”, disse ela. “Jonatan me inspirou a sair do quarto e conversar com os outros, jovens e velhos.”

Por sua vez, Jonatan, que agora arranjou emprego de confeiteiro em tempo integral, adora ter uma amiga morando no outro lado do corredor. “Na cultura finlandesa, não é comum haver muito contato entre os vizinhos”, observou ele. “O que temos aqui é especial.”

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