Eis uma história mostrando que há coisas que não podemos explicar.

Quando meu filho era pequeno, gostava de sentar no meu colo e assistir aos programas de televisão. Algumas vezes, chamava a atenção para o que estava no mundo real – acidentes de carro, incêndios, astronautas – e o que não estava. Piu-piu, por exemplo, pertencia ao mundo da ficção, assim como o sapo Caco e o Patolino. Mas os dinossauros também.

Luke tinha dificuldade para entender os dinossauros. Minha explicação de que existiram no passado, porém não existiam mais, deixava-o perplexo e perturbado. Se não estavam por aqui agora, nunca poderiam ter estado, e pronto.

Certo dia, Mawmaw, sua bisavó, enviou-lhe um papel com o gato que desenhara, acompanhado de um bilhete sugerindo que o colorisse. Ela com frequência lhe mandava pequenos projetos, e ele adorava receber cartas dela. Depois de terminar a tarefa, subiu em minha cadeira para me mostrar. Era vermelho, azul e verde.

– Nunca vi gato tão colorido – comentei.

– É claro que não, papai – respondeu. – Ele é meu e de Mawmaw – como se isso explicasse tudo.

Aninhou-se no meu colo e liguei a TV para assistir a uma retrospectiva sobre a vida de John Kennedy.


Certo dia, Mawmaw, sua bisavó, enviou-lhe um papel com o gato que desenhara, acompanhado de um bilhete sugerindo que o colorisse. Ela com frequência lhe mandava pequenos projetos, e ele adorava receber cartas dela.


Quando a foto do jovem presidente no leme de um pequeno barco a vela apareceu, Luke perguntou:

– Quem é esse homem?

– É John Kennedy. Foi presidente dos Estados Unidos.

– Onde está agora?

– Morreu.

– Ele não morreu. Está dirigindo o barco.

A imagem mudou, e vimos o presidente fazendo seu discurso.

– Olhe só, lá está ele de novo.

– Isso foi há muito tempo. Ele está morto agora, Luke.

Meu filho me encarou para ver se eu estava brincando.

– Ele está todo morto?

– Sim.

– Seus pés estão mortos?

– Sim.

– A cabeça está morta?

– Sim.

Esta última pergunta foi seguida por uma pausa longa e pensativa. Então, ele disse:

– Sei. Mas ele fala muito bem.

Embora tentasse evitar, acabei rindo, porque Luke examinara o problema com muita seriedade.


É claro que eu estava preocupado. Para uma criança de 3 anos, seria difícil assimilar a ideia da morte.


Depois disso, Luke pareceu obcecado pela ideia da morte. Daí em diante, quase todas as caminhadas no bosque se transformavam em busca de um rato de campo, quati ou pássaro morto. Ele se agachava em frente à descoberta e inventava histórias sobre o que o animal estaria fazendo na hora da morte. Algumas vezes, fazíamos pequenos enterros.

É claro que eu estava preocupado. Para uma criança de 3 anos, seria difícil assimilar a ideia da morte. Certa vez, encontramos no bosque alguns tufos castanhos de pelo de coelho. Luke tocou-os com uma vara.

– Este era o Roger Rabbit – disse. – Estava voltando para casa, para jantar. Uma raposa o comeu. Ele está dentro da raposa agora.

– Mas Roger Rabbit está no mundo da ficção – comentei. – Este era um coelho real.

– Eu sei – respondeu. – Estava apenas vendo.

Acho que ele queria dizer que estava inventando uma história que, de alguma forma, faria com que tudo corresse melhor.

– A maioria das pessoas – expliquei –pensa que somente o corpo morre, e a outra parte, o espírito, sobrevive.

Eu disse ainda que não sabíamos se era assim. Se a pessoa, porém, acreditasse muito em uma coisa, mesmo que não pudesse provar, isso era conhecido como fé.

O comentário produziu surpresa e perguntas por quase uma semana. Numa de nossas caminhadas, mostrei-lhe o casulo de borboleta que no passado abrigara uma pupa. Expliquei-lhe que a lagarta tecera o casulo e, por fim, tornara-se borboleta. Ele aceitou facilmente a explicação, porque já vira como isso ocorria em um programa sobre natureza. Em seguida, comentou:

– Mas você ainda pode ver e tocar a verdadeira borboleta. Ela passeia por aí. Se você estiver morto, as pessoas só podem vê-lo na TV.

– É verdade – respondi. – Mas ainda pode vê-las em sua cabeça. Em sua imaginação.


Se a pessoa, porém, acreditasse muito em uma coisa, mesmo que não pudesse provar, isso era conhecido como fé.


Ele pensou muito sobre esse último comentário. Finalmente, perguntou como isso acontecia. Pedi-lhe para fechar os olhos e imaginar alguém que não estivesse conosco. Por exemplo, Charlie, seu melhor amigo.

– Você consegue imaginá-lo?

Ele gritou, deliciado.

– Não, mas posso ouvi-lo!

– Bem, é assim. As pessoas que não estão conosco no momento ficam por perto enquanto você conseguir se lembrar delas.

– Mas eu posso brincar com Charlie. Eu não poderia brincar com o coelho. Ele está morto.

– Sim, é verdade.

Por mais alguns dias, a preocupação de Luke com a morte continuou. No entanto, sua atenção logo se fixou na festa de aniversário que se aproximava, e não tocou mais no assunto.

Cerca de um ano e meio depois, Mawmaw morreu. Quando Luke insistiu para ir ao velório, minha mulher e eu pensamos que seria uma boa ideia.

A casa de Mawmaw estava transbordando de visitar, comida e conversas. Ela tivera vida longa e feliz. Por isso, não havia a tristeza deprimida que acompanha as mortes prematuras ou inesperadas. As pessoas recordavam sua alegria de viver, a surpreendente força pessoal, o humor e a gentileza.

Não perguntamos a Luke se ele gostaria de ir ao quarto onde ela estava. Deixamos o pequeno fazer o que tivesse vontade – falar com pessoas, comer, ser elogiado e brincar com os primos. Então, praticamente no último instante possível, ele pediu para ver Mawmaw. Segurei-lhe a mão e levei-o até o caixão da bisavó. Luke era muito pequeno para ver algo alem das flores; por isso, carreguei-o. Olhou durante bom tempo e disse:

– Está bem, papai.


– Bem, é assim. As pessoas que não estão conosco no momento ficam por perto enquanto você conseguir se lembrar delas.


Coloquei-o no chão e saímos do quarto, passando pelo corredor em direção à cozinha. Antes de chegarmos lá, ele me puxou para o pequeno quarto onde minha avó costumava prensar flores ou costurar. Olhando-me solenemente, sussurrou:

– Papai, aquela não é Mawmaw.

– O que você quer dizer?

– Não é ela – respondeu. – Ela não está ali.

– Então, onde ela está? – perguntei.

– Conversando, em algum lugar.

– Por que você pensa assim?

– Apenas sei. É isso, apenas sei.

Houve longa pausa enquanto nos olhávamos, cara a cara. Finalmente, ele disse:

– Isso é fé?

– Sim, Luke. É fé.

– Então é o que eu sinto.

Olhei para ele com admiração e alegria. Sabia que meu filho acabara de descobrir um dos mais poderosos recursos de seu coração – um guia além dos pais. Encontrara a forma de entender que estaria com ele pelo resto da vida, mesmo não estando mais vivo.

Vozes animadas da família e dos amigos chegavam até nós vindas da cozinha, onde um esplêndido bufê ocupava a longa mesa de carvalho de Mawmaw. Compartilhavam histórias sobre a mulher extraordinária que todos nós amávamos. Olhei para Luke, que sorria para mim, e depois andamos pelo corredor, de mãos dadas. Fomos pegar um pouco de frango frito. E contar uma história ou duas.

POR W. W. MEADE