Era tarde quando terminei meu turno. Nem parei no alojamento das enfermeiras para trocar o uniforme, fui direto para a floresta que cercava a ala neuropsiquiátrica do grande hospital do exército. Assim, as folhas sob meus pés estavam secas, e, enquanto as pisava, percebi o cheiro acre do outono. As chaves da Enfermaria 8, penduradas numa corda comprida na minha cintura, tilintavam quando eu andava.

Anthony D. Nardo* era um jovem soldado de infantaria, vítima de fadiga de combate. Diagnóstico: depressão do tipo maníaco-depressivo. Eu era uma enfermeira iniciante, emprestada por um hospital civil. Mesmo assim, naquela tarde, os dois juntos na varanda ensolarada da Enfermaria 8, eu e Tony tivéramos uma visão incrível. A coisa que vimos estava em algum ponto daquela floresta. Eu tinha de descobrir o que era aquilo para lhe provar que fora apenas algo ilusório e, assim, acabar com a ameaça à sua recuperação.

Um soldado ferido na alma

Pensei no dia em que Tony fora internado, três meses antes. Eu o vi como era então, preso a uma maca de lona, o cabelo desgrenhado preto como ébano. Observei um enfermeiro militar remover as correias e o levar a um quarto onde ele ficaria sete semanas confinado. Debaixo das mangas cinzentas do pijama, ataduras brancas envolviam ambos os pulsos.

O rosto era comprido e anguloso, e nele vi um toque de ternura. Algo dentro de mim se agitou e respondeu ternamente; nos dias que se seguiram, eu o preferi a todos os outros.

Tony fora evacuado de seu posto no Pacífico Sul, onde, certa manhã, removera a lâmina dupla de um barbeador e cortara as artérias de ambos os pulsos. Nos primeiros dias de sua estada na Enfermaria 8, as mãos pálidas forçavam as correias, na tentativa desesperada de arrancar as suturas. Durante sete semanas, ele não falou nem ergueu os olhos.

Com o tempo, as feridas começaram a sarar, e as mãos torturadas relaxaram. Aos poucos, o espírito encontrou o caminho para sair das trevas. Observei-o andando pela enfermaria, ereto e seguro. Eu o vi cuidar das necessidades de outros pacientes com a sabedoria de quem conhecia os demônios que os possuíam.

Tony estava quase bom. Até a tenente Barbara Rankin, nossa cética enfermeira-chefe, foi forçada a admitir. Então, sem aviso, naquele dia do final de outubro, algo fantasmagórico ameaçou destruí-lo.

O dia começou como todos os outros. Cheguei às sete da manhã. Ao meio-dia, fui almoçar. A tenente Rankin me aguardava quando voltei.


Dei meia-volta e corri para a Enfermaria 8.
Achei-o de joelhos, a testa contra a tela de arame
que cercava a varanda.


– É melhor você dar uma olhada em seu protegido – disse ela.

– O que foi? – perguntei.

– Ah, nada demais. – Sua voz estava pétrea. – Ele só ficou meio empolgado quando viu a Virgem Maria em pé na floresta, só isso.

Dei meia-volta e corri para a Enfermaria 8. Achei-o de joelhos, a testa contra a tela de arame que cercava a varanda. Seus olhos estavam fixos num ponto qualquer da floresta. Ele rezava baixinho.

Minha voz saiu trêmula e ríspida.

– O que está fazendo, Tony? – perguntei. – Levante-se!

– Você não entende – disse ele. – Estou vendo a Virgem ali em pé! – Então ergueu os olhos para mim. – Há alguma estátua lá? – perguntou.

– Não, Tony. Conheço essa floresta. Não há nada lá. Agora, levante-se!

Ele se virou para o outro lado e olhou novamente a floresta. Durante muito tempo, fiquei em pé atrás dele, com vontade de pegar a cabeça morena nas mãos e acarinhá-la para expulsar o perigo pavoroso. Mas ninguém faz uma coisa dessas, ainda mais se for uma estudante de enfermagem.

Em vez disso, meus olhos, sem querer, se voltaram para a floresta enquanto uma palavra temida subia e forçava minha garganta: alucinação. Agora ele seria mesmo considerado louco.

Vendo a madona

Mas, enquanto eu olhava, meus olhos foram atraídos para algo branco… e lá, na distância entre as árvores, vi a figura da Virgem.

Devo ter gritado, porque Tony virou a cabeça e me olhou.

– Ah, você está vendo também!

– É, estou vendo também…

O resto da tarde passou devagar, mas finalmente o turno terminou e fiquei livre para procurar a estranha Madona. Saber que só precisava achar a fonte lógica da ilusão para provar que Tony não tinha alucinações me dava alívio.

Escurecia e esfriava. Cruzei os braços contra o corpo, tremendo debaixo da capa. Então a vi, bem à frente.

Um toco de bétula, alto e esguio, fora esculpido pela mão do tempo até se tornar uma imagem abstrata da Madona. Mesmo tão de perto, a curva delicada da cabeça e dos ombros, o drapejar gracioso do manto eram claramente visíveis na casca polida.

Então, corri de volta para a enfermaria. Tony estava sentado num banco de madeira, fitando a floresta. Ele falou sem erguer os olhos:

– Achou o que foi procurar?

Entretanto, de repente, tive medo. Tony parecia preparado para uma resposta simples, lógica e conclusiva. Mas eu sabia que dera com algo inescrutável, algo que transcendia a razão, e tive medo de que ele não estivesse bem para um mistério daqueles.

– Não era nada, só um toco branco de bétula – sussurrei.

Aliás, eu deveria saber que não ficaria só nisso. Contudo, no fim de novembro, Tony foi transferido para uma enfermaria onde tinha liberdade de ir e vir pelo terreno do hospital. Ao vê-lo mais forte a cada dia, comecei a acreditar que fora sábia ao me calar sobre o que vira. E guardei no coração o segredo adorável, entesourando-o – e tenho certeza de que as outras enfermeiras gostariam de saber por que eu caminhava tantas vezes sozinha na floresta.

O Natal chegou

Faltava uma semana para o Natal. Meu período de treinamento terminara, ou seja, eu seria transferida. Por fim, fui me despedir de Tony e soube que tinham lhe dado licença de ir para casa nas festas. Então fui para meu quarto fazer as malas. Só que, de repente, vi que caía uma neve suave que começava a aderir aos galhos das árvores. Por isso, peguei o casaco e saí.

De fato, o vento estava frio em meu rosto, e pisquei. Nesse meio tempo o coração batia muito depressa, e comecei a correr. Então, a poucos metros de meu destino, parei.

Inesperadamente, ali, num cobertor de neve cintilante, vestido com um casaco pesado verde-oliva, ele ajoelhava-se aos pés da Madona do bosque, vestida de brancura nova, um personagem solitário, os flocos brancos caindo em sua cabeça.

Em seguida, quando Tony terminou a oração, fiz uma coisa que uma estudante de enfermagem não faz. Isto é, fui até onde estava ajoelhado. Dessa forma, fiquei atrás dele e segurei nas mãos a cabeça morena. Ao mesmo tempo, limpei a neve que se acumulara em seu cabelo.

– Você vai morrer de frio – alertei.

A princípio, ele ergueu os olhos para mim e vi que estava me esperando.

– Há milagres de vários tamanhos – disse ele.

Então se levantou, sorrindo. E em seu sorriso havia sabedoria e ternura – e eu soube, portanto, que estava curado.

*Nome trocado para proteger a privacidade.

(Publicado em Seleções do Reader’s Digest em 1960.)

Por Doris Cheney Whitehouse

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