“Eu não conseguia acreditar que meu filho tinha ido para a Síria. Não sabia como lidar com isso. Estava com raiva por dentro, raiva dos que fizeram lavagem cerebral nele.” Khadijah Kamara, de 37 anos, fala a um grupo de 40 mães sobre Ibrahim, de 19, o mais velho de seus quatro filhos adolescentes, que foi lutar ao lado dos extemistas da Síria. Foi morto num ataque aéreo em setembro de 2014.

As mães, a maioria vinda de Bangladesh, Paquistão e Somália, estão iniciando as dez semanas de treinamento gratuito num centro comunitário da cidade inglesa de Luton, perto de Londres. A sala costuma ser usada para exercícios físicos, mas a aula de hoje é muito mais séria.

Uma cena impactante

Khadijah, de Serra Leoa, a cabeça e o pescoço cobertos por um hijab, olha por cima de um mar de lenços, saris e shalwar kameez coloridos.

Ela fala às mulheres sobre seu “menino amoroso e respeitador”, que queria se tornar engenheiro, mas foi recrutado pela jihad. “Meu filho morreu, e até hoje não consigo explicar”, diz ela.

As mães escutam com atenção. Há lágrimas quando Khadijah diz que descobriu, com outro combatente jihadista, que Ibrahim tentara entrar em contato com ela na Síria pouco antes de morrer.

Sentada ao lado de Khadijah está a socióloga austríaca Edit Schlaffer, que foi de Viena até lá para encontrar as mães. Edit é a criadora desse programa inovador chamado MotherSchools (“escolas de mães”). Seu propósito é simples e ambicioso: equipar as mães para que aumentem a resiliência dos filhos contra o recrutamento de extremistas e intervenham quando reconhecerem sinais de radicalização.

Parte de uma iniciativa global, o curso é realizado em Luton por boas razões. A cidade foi frequentemente ligada ao terrorismo e apelidada de “viveiro do extremismo islâmico” pelos meios de comunicação do Reino Unido. Desde novembro de 2015, houve sete grandes ataques terroristas na Grã-Bretanha, na França, na Bélgica, na Alemanha e na Espanha, com 329 mortos e 1.648 feridos. Os criminosos, em geral, eram jihadistas europeus, muitos inspirados pela propaganda islâmica radical nas mídias sociais.

Um exercito sem armas

Nas semanas que virão, as mães de Luton aprenderão, com representação de papéis e exercícios para aumentar a confiança, a se comunicar melhor com os filhos, observar seu desenvolvimento psicológico, monitorar seu uso da internet e reconhecer os sinais de alerta. A meta é ajudar as mães a desenvolver resiliência em si mesmas e a aumentá-la nos filhos, na família e na comunidade.

Muitas mulheres na sala vivem em lares dominados por homens e raramente saem de casa, a não ser para levar os filhos à escola.

“As mães ouviram falar da radicalização”, diz Nazia Khanum, de 74 anos, que nasceu em Bangladesh, é especialista em questões de gênero, casamentos forçados e empoderamento comunitário, e administra o curso das MotherSchools. “Mas elas não sabem o que isso significa. Presas em casa, sentem-se isoladas e têm medo da internet. Edit as ajuda a dar fim a esse isolamento e recuperar a conexão com os filhos.”

Tanto Nazia quanto Edit têm visto como os recrutadores terroristas corrompem a juventude alienada e desempregada da Europa. Mais de 4 mil jovens muçulmanos partiram da Europa para lutar na Síria e no Iraque. “Temos de trazer bom senso ao mundo, e devemos começar com nossos filhos”, afirma Edit. “As mães tornarão o mundo seguro para todos nós.”

As mães de Luton estarão entre as primeiras da Europa a se formar. Edit lhes diz: “Vocês podem ser um novo exército – sem armas, mas com palavras.”

Atravessar continentes

Edit tem dois filhos adultos e é casada com um professor de psicologia. Tem 67 anos, mas parece dez anos mais nova, o que é extraordinário, dada a agenda lotada.

Por exemplo, em apenas seis semanas, no outono, ela passou sete dias visitando MotherSchools na Jordânia, voltou para passar dois dias em Viena, foi a Paris falar num fórum global promovido pelo presidente francês Macron e voou para Washington, nos EUA, para falar na American University. Dias depois, transmitia sua mensagem como delegada na 72a Sessão da Assembleia Geral da ONU. Sua dedicação reflete força e determinação.

“A esperança nestes tempos obscuros e a noção de aventura e empoderamento são o que me impele”, diz ela. “Porque ficar em casa assistindo à TV e me sentindo indefesa?”

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Edit descreve sua infância como “tranquila, pacífica e discreta”. Nascida em 1950 de pais profissionais liberais de classe média, ela passou os seis primeiros anos de vida na fazenda da avó no leste da Áustria, a metros da Hungria ocupada pela União Soviética. “Eu e meus amigos brincávamos sob os olhos de um soldado russo em sua torre de vigia. Meus pais me diziam que eu era muito sortuda de estar deste lado da cerca.

Ela descobriu o ativismo quando estudava Sociologia na Universidade de Viena e teve ambições de se tornar correspondente estrangeira. Mas a oferta de um cargo de pesquisa a levou à carreira acadêmica. Na década de 1980, como professora de sociologia da universidade, sua pesquisa a levou a campo.

Primeiro, trabalhou com refugiados da Bósnia, principalmente mulheres e crianças traumatizadas. “Eu sabia que assistíamos à história viva, e tive de documentar aquilo”, diz ela.

Mulheres sem fronteiras

Na década de 1990, seu trabalho também a levou ao Paquistão, onde encontrou mulheres e crianças fugindo da guerra no vizinho Afeganistão. Lá, conheceu um grupo de mulheres que arriscava a vida para atravessar a fronteira sem lei do Paquistão, trazendo provas gravadas em vídeo da violência e das execuções dos fundamentalistas. “Tenho uma imagem viva de suas burcas esvoaçantes enquanto essas bravas mulheres faziam aquela viagem perigosa”,diz Edit.

A experiência a inspirou a criar, em 2001, a Women without Borders (mulheres sem fronteiras, WwB), com o objetivo de dar poder e independência às mulheres como agentes de mudança.

Entre os projetos da ONG estavam a primeira linha telefônica antiextremista do Iêmen, estratégias para dar poder a meninas em Ruanda e um centro para a mulher no Afeganistão. Então, em 2008, a WwB lançou a SAVE, Sisters Against Violent Extremism (irmãs contra o extremismo violento), uma plataforma feminina contra o terrorismo que visa unir as mulheres do mundo inteiro.

“Temos de defender umas às outras. Épocas de crise também são épocas de oportunidade”, diz Edit.

Khujand, Tadjiquistão, 2012

Quatro anos depois, Edit Schlaffer e um grupo de mães tadjiques estão reunidas em uma sala. Ela participa da missão criada pela Organização pela Segurança e Cooperação na Europa para discutir a crescente radicalização do país.

“Elas se sentiam alarmadas porque os filhos estavam largando a escola e sendo atraídos a mesquitas fundadas pela Arábia Saudita, onde ensinavam uma interpretação extremista do islã. Elas se sentiam impotentes para intervir”, diz Edit.

“Perguntei: ‘Não podem falar com eles?’ Elas responderam que os filhos não eram mais meninos, eram homens, o que tornava dificílimo questioná-los. Alguns desses ‘homens’ tinham apenas 12 anos, mas queriam falar duro e ser heróis. As mulheres tentavam cuidar de seus filhos, mas outra influência criara uma distância entre eles.”

De repente, Edit teve uma ideia brilhante. “Nós, mães, temos de voltar à escola.” Foi nesse momento que as MotherSchools nasceram em minha mente. Percebi que as mães é que são a linha de frente contra o terrorismo. Temos de equipá-las não só com confiança, mas também com as ferramentas e técnicas corretas para interagir melhor com os filhos.”

Edit conseguiu financiamento e um currículo para desenvolver suas ideias. Ela e sua equipe pesquisaram exaustivamente e entrevistaram mil mães de adolescentes em áreas de conflito histórico, como a Irlanda do Norte, os territórios palestinos, o Paquistão e a Nigéria.

A primeira escola-piloto das MotherSchools foi aberta no Tadjiquistão em fevereiro de 2013. Outras se seguiram na Áustria, na Bélgica, na Alemanha, na Macedônia, no Reino Unido e em vários países não europeus.

Würzburg, Baviera, setembro de 2017

A ideia brilhante de Edit Schlaffer cresce depressa. Há 22 mulheres sentadas em círculo enquanto o sol se filtra pelas janelas do Congress Centrum de Würzburg, às margens do Rio Meno. Famoso pelos vinhedos e pelas igrejas barrocas, esse cantinho pacífico da Alemanha parece estar a meio mundo do terrorismo islâmico.

Mas, no ano anterior, o país sofreu seu primeiro ataque jihadista de um afegão radicalizado de 17 anos que pedira asilo e que, armado com uma faca e um machado, atacou passageiros de um trem perto da cidade.

As mulheres, que vêm da Turquia, da Tunísia, da Argélia e da Síria, são assistentes sociais, professoras, tradutoras, orientadoras e mães em tempo integral. Estão prestes a serem treinadas para criar e administrar MotherSchools em cinco locais da Baviera.

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O governo bávaro pediu a Edit que criasse as escolas como parte do programa para prevenir a radicalização. Ela tem talento como capacitadora, mas sabe que somente as mulheres das comunidades locais podem efetivamente ensinar o currículo das MotherSchools.

Edit, de tênis vermelhos e camisa branca esvoaçante, começa os procedimentos com um desafio. “Cada uma de vocês vai andar pelo meio da sala”, diz ela.

A princípio, há reticência. É um teste ousado para as mulheres, muitas delas acostumadas a um papel secundário em sua cultura. Então, uma moça de jeans e sapatos pretos de salto alto se levanta. Ela desliza pela sala. Sua autoconfiança inspira as outras a se levantarem. Logo, a sala é uma passarela colorida de terninhos elegantes, roupas de corrida, calças cintilantes e lenços de cabeça. Soam vivas e risos.

O exercício leva a uma discussão de como as mães mandam mensagens aos filhos com a linguagem corporal.

“As crianças sabem ler a linguagem corporal”, explica Edit. “Quando irradiamos autoconfiança, elas fazem o mesmo. Os recrutadores extremistas são muito afetuosos e empáticos. Também são assertivos e dizem que ajudarão os jovens a ter uma vida melhor. As mães precisam adotar essa mesma abordagem, mas com um fim positivo. Fortalecer as mães começa alimentando a ideia de que são valiosas, como mães e como pessoas.”

Luton, setembro de 2017

De volta ao Reino Unido, Parveen, de 40 anos, é uma das formandas mais recentes do programa MotherSchools em Luton. Nascida no Paquistão, veio para a Inglaterra vinte anos atrás. Hoje dois filhos adolescentes, de 18 e 13 anos.

“Antes deste curso, meu filho mais velho tinha parado de me dar ouvidos. Fiquei com medo por ele passar tempo demais no computador”, diz ela. “As outras mães me ajudaram a reaprender a falar com meus filhos, a evitar brigas e silêncios. Pusemos os computadores na sala de estar, e a família come junta, em vez de eu ficar enfiada na cozinha. Eu não sabia o que era comunidade. Mas agora tenho muitos amigos e até um emprego de meio expediente. Sinto que sou uma mãe passarinha, que aprendeu a voar pelo grande mundo.”

Suas palavras são a prova clara da diferença que as MotherSchools podem fazer para aumentar a autoconfiança das mães e suas relações sociais para que possam proteger melhor os filhos. Como diz Edit Schlaffer, “quando vejo seu afeto e confiança, sei que nossas formandas podem enfrentar o extremismo e a violência mudando atitudes”.

Tim Bouquet