No Hospital Real de Otorrinolaringologia de Londres, o eminente cirurgião-otorrinolaringologista Ghassan Alusi aguarda ansiosamente por seu paciente. A tomografia computadorizada que ele está prestes a realizar nada tem de rotineira. O nome do paciente é Artemidorus e ele está morto desde o século 1º d.C. Artemidorus é um dos objetos mais valiosos do Museu Britânico. As últimas pessoas a verem o egípcio de alta linhagem em carne e osso foram os embalsamadores que mumificaram seu corpo com óleos, sais e especiarias, o enrolaram em 800 metros de bandagens de linho e o fecharam no requintado sarcófago vermelho que está agora sendo cuidadosamente erguido de um grande caixote de madeira forrado de espuma.

A companheira de viagem de Artemidorus é Joyce Filer. Ela é a assistente especial para restos mortais humanos e animais do museu e coordenadora dessa autópsia de alta tecnologia. Ela espera que a moderna tecnologia médica revele os segredos seculares da múmia.

Alusi faz um sinal com a cabeça para o técnico em radiologia e a múmia dourada desliza silenciosamente para dentro do tomógrafo. Logo acima do nariz de Artemidorus, Filer e Alusi veem uma perfuração no crânio. “Ao contrário das outras múmias que examinamos, não há tamponamento no crânio”, diz Filer. Então, à medida que o tomógrafo esquadrinha as espessas camadas exteriores de bandagens, algo bem mais extraordinário aparece. Alusi aponta para oito fraturas lineares se espalhando em forma de leque na parte posterior do crânio.

“Completamente diferentes das suturas onduladas que você encontraria em um crânio normal”, diz ele.

“Não há sinal de cicatrização; elas parecem ser quase recentes”, diz Filer. “O que você acha?”

Alusi é taxativo: “Se estas não causaram sua morte, então ocorreram muito próximo a ela. Alguém ou algo deu nele um golpe violento.”

Por um momento, nenhum deles fala. Teriam descoberto um assassinato da Antiguidade?

As tomografias de Artemidorus são digitalizadas e carregadas em um supercomputador. Alusi e seus colegas começam a reconstruir na tela as 700 fatias escaneadas da múmia, montando-as dos pés à cabeça. Depois de três dias, Joyce Filer está olhando para um Artemidorus virtual. Agora eles podem girá-lo e estudá-lo de todos os ângulos. Eles podem tirar as bandagens e separá-lo osso por osso.

Filer não consegue esconder sua surpresa quando o crânio da múmia se abre na tela para revelar o impressionante segredo do escuro espaço vazio que encerrava. “Aquelas fraturas chegam até a parte interna”, diz Alusi.

“Isto parece um golpe na nuca com um conhecido instrumento cego”, sugere Filer. Nenhuma das outras múmias do Museu Britânico  sofrera ferimentos tão graves na cabeça. Mas seria isso suficiente para provar que o jovem fora assassinado? Eles acabam concluindo que não.

Mas enquanto a prova de como ele morreu permanece indefinida, Artemidorus está ajudando Ghassan Alusi a beneficiar os que vivem. Ao contrário de um paciente vivo, uma múmia pode ser  exposta, sem sofrer danos, a grandes quantidades de radiação, o que proporciona imagens de mais alta resolução. Isso dá a Alusi tempo para experimentar técnicas de exame que poderiam levar a diagnósticos precoces e mais detalhados para problemas de ouvido. Ele também pode tentar técnicas cirúrgicas sem realidade virtual, diminuindo assim o risco para os pacientes e reduzindo o tempo de cirurgia.

Um importante projeto do Museu de Manchester, na Inglaterra, está utilizando tecido de restos mortais mumificados para descobrir mais a respeito de uma doença parasitária comum no Egito, a esquistossomose. Com amostras coletadas de múmias, espera-se que a pesquisa possa fornecer aos médicos na Inglaterra e em outros países uma ideia melhor sobre como tratar a doença nos dias de hoje. Os cientistas também estão usando o DNA de múmias para estudar a evolução da tuberculose, um trabalho que pode trazer ideias sobre como controlar a doença. As múmias estão contribuindo para a ciência médica como nunca.