Numa tarde de novembro de 1999, Vânia Farias, professora de dança de 34 anos, voltava de mais uma aula quando foi abordada por uma menina de 10 anos que morava no Morro da Coroa, uma das favelas que circundam o bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. “Quando você vai me dar uma aula?”, perguntou a menina, vendo que Vânia vestia collant e carregava um aparelho de som portátil.

Vânia ficou sensibilizada com o pedido, que fez com que se lembrasse de sua infância. Desde os 4 anos, ela sonhava ser bailarina. Mas, além das aulas serem caras para sua família, era difícil encontrar uma escola de balé de boa qualidade perto de casa, em Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense. Vânia, porém, não desistiu de seu sonho e, finalmente , aos 10 anos, matriculou-se numa academia de dança. Com 16 anos já atuava como professora auxiliar e, aos 18 anos, tornou-se professora auxiliar e, depois, professora oficial. Ao mesmo tempo, era bailarina solista de um grupo de dança.

Naquela tarde, Vânia tomou a decisão ali mesmo na rua. No dia seguinte, foi procurar um lugar onde pudesse dar aulas para as crianças de Santa Teresa. A professora queria um local em que a menina e seus amigos tivessem acesso fácil. Então, quando a Associação dos Moradores do Morro da Coroa ofereceu o subsolo da sede, Vânia não hesitou – mesmo sabendo que aquela era uma área perigosa. A notícia de que haveria aulas de balé gratuitas se espalhou rapidamente pela comunidade e, no dia seguinte, Vânia já tinha 16 alunos.

Numa tarde, enquanto dava aula, ouviu disparos. A professora e os alunos jogaram-se no chão.

Numa tarde de janeiro de 2000, enquanto dava aula, ouviu disparos do lado de fora da escola. A professora e os alunos jogaram-se no chão. Depois disso, Vânia decidiu levar o “Balé de Santa Teresa” para um lugar mais seguro. Hoje, a escola funciona na Rua Pintora Djanira, 58, que fica localizada no bairro de Santa Teresa.

Letícia Silva, 10 anos, foi uma de suas primeiras alunas. Por causa da escoliose que deixava uma diferença de 1 cm de uma perna para a outra, ela andava mancando. Exercícios poderiam corrigir o problema, dissera o médico na época, e a mãe, Rosa de Fátima dos Santos, saiu à procura de um curso de balé que pudesse pagar. No entanto, como a renda total da família era de pouco mais de R$ 350, foi só depois que Rosa descobriu as aulas gratuitas de Vânia que a prescrição médica pode ser seguida. “Agora Letícia não perde uma aula por nada”, conta a mãe.

“Vânia está transformando o futuro dessas crianças com algo mais do que a dança.”

Mais de 400 crianças já passaram pelo curso que tem mais de 100 alunos. “Nem todo mundo tem talento para dançar, mas o balé é disciplinador”, diz Vânia. “Você percebe que as crianças se tornam mais conscientes da importância da pontualidade, do respeito pelos outros e se tornam mais interessadas pelos estudos.”

De acordo com a ex-bailarina e mestre de balé Wanda Garcia, “Vânia está transformando o futuro dessas crianças com algo mais do que a dança”. Ela continua: “A dança é apenas o veículo que as leva até ali e as afasta por um momento da dura realidade em que vivem. Além disso, ainda ensina as crianças a se valorizarem e se cuidarem melhor.”

Os pais dos alunos mostram sua gratidão. A mãe de Letícia ajuda Vânia a organizar festas e eventos, que são a fonte de renda do balé.

Quando o relógio marca 5 horas daquela tarde de 17 de dezembro de 2001, as luzes se apagam. Os primeiros acordes de Atraente, de Chiquinha Gonzaga, ecoam no teatro. Com movimentos ligeiros, Letícia lidera as outras bailarinas. Rosa não tira os olhos da filha. “Ela vai conseguir!”, torce. Depois de formarem um círculo, começa a coreografia. Sentado ao lado da mulher no Teatro Gonzaguinha, Rio de Janeiro, José Soares pousa a mão no ombro dela. “Olhe como ela está!”, diz com os olhos cheios de lágrimas, ao ver a filha se equilibrar com firmeza na ponta dos pés.