Oscar Camps é o 24º ganhador do prêmio Europeu do Ano, patrocinado pela Reader’s Digest, que homenageia um grupo exclusivo de europeus cujo trabalho extraordinário ajuda a fazer do mundo um lugar melhor. Conheça a história do salva-vidas:

 

Cai o crepúsculo e, no mediterrâneo profundo, um barco está afundando.

O bote de borracha foi projetado para suportar trinta pessoas, mas há mais de cem a bordo, entre elas muitas mulheres e crianças. Várias estão mortas; outras, moribundas, envenenadas pelos gases da exaustão. No apinhado de corpos, jovens e velhos escorregam debaixo da água que já enche metade da embarcação.

Cada um deles apostou tudo para realizar o sonho de chegar à Europa e construir uma vida nova e melhor. Não há comandante a bordo; não há abrigo, comida, água nem, muito menos, reserva de combustível. Agora, com nuvens de tempestade se juntando e as ondas ficando mais fortes, a situação é desesperadora. Mas, quando o barco está quase submerso, vem o som de um motor. Um barco se aproxima. Vozes gritam instruções: fiquem sentados, mantenham a calma.

“A primeira sensação que temos ao avistar um barco à deriva ou receber um alerta”, diz Oscar Camps, “é alegria, porque sabemos que podemos ajudar. Os problemas começam depois que todo mundo está a salvo a bordo. Há feridos, bebês, problemas com o barco, nenhum espaço e nenhum lugar aonde ir. Cada missão de resgate é um drama humano. Nunca se sabe o que vai acontecer.”

Camps se envolveu em dezenas desses dramas humanos. Ele sabe muito bem o preço que migrantes e refugiados pagam pelo desespero de fugir de guerras, perseguição e pobreza rumo a uma vida melhor na Europa. Como fundador da Proactiva Open Arms, entidade sem fins lucrativos dedicada a resgatar quem corre risco no mar, ele passou os últimos três anos salvando homens, mulheres e crianças no Mar Egeu e no Mediterrâneo. Na última contagem, o número de vidas salvas pela Proactiva foi de 59.395.

© DAVID S. BUSTAMANTE

Camps tem uma conexão profunda com o mar e com o salvamento de vidas.

Com 56 anos e quatro filhos, ele cresceu em Badalona, cidade catalã à beira-mar ao norte de Barcelona. Sua casa dá para o mar, numa das pontas de uma praia comprida. Na outra ponta ficam a sede da Proactiva e os barcos usados para resgatar refugiados.

“Quando criança, eu costumava vir aqui todo dia com meu avô”, conta ele enquanto caminha pela praia. “Na época não havia salva-vidas, mas um grupo mais velho de nadadores fortes ficava de vigia, e meu avô era um deles. Ele me ensinou muito sobre o mar, embora só bem mais tarde eu me envolvesse com o salvamento de pessoas.”

Com 20 e poucos anos e dono de uma empresa de locação de automóveis, Camps foi visitar um amigo e encontrou o porteiro do prédio caído na rua. “Eu não sabia o que fazer; ele não se mexia. Toquei todas as campainhas, mas ninguém podia ajudar. Coloquei-o no carro e fui para o hospital. Quando cheguei lá, ele estava morto. Isso me afetou muito.”

Alguns dias depois, ele se inscreveu num curso da Cruz Vermelha que o levou a trabalhar seis anos na instituição. Em dezembro de 1999, ele decidiu combinar o atendimento a emergências com seu amor pelo mar e criou uma empresa de salva-vidas de praia.

A Proactiva se tornou a empresa de salva-vidas mais bem-sucedida da Espanha, com 600 funcionários em quatro locais. A vida era boa, mas a sensação de dever e compaixão mudaria novamente seu curso.

Em 2 de setembro de 2015, um barco com refugiados sírios afundou no Mar Egeu. Camps estava em casa, assistindo à TV, quando um noticiário mostrou a imagem do corpo de Alan Kurdi, menino de 3 anos que se afogou e que o mar jogou numa praia turca.

“Meu filho tinha a mesma idade; fiquei muito triste. Precisava fazer algo. Escrevi ao governo espanhol, ao governo grego, a entidades de auxílio, a embaixadas, a todo mundo, me oferecendo para pôr nosso equipamento salva-vidas e nossos recursos humanos especializados à disposição. Ninguém respondeu.”

Então ele pegou suas economias e, com Gerard Canals, um dos salva-vidas de sua equipe, pegou um avião para a ilha grega de Lesbos.

Naquele ano, Lesbos se tornara a principal escala para quem fugia da guerra, violência e instabilidade econômica da Ásia e do Oriente Médio. Dezenas de milhares de pessoas vindas da Turquia chegavam às praias da ilha depois da travessia do Mar Egeu, curta, porém perigosa. Centenas se afogavam na tentativa.

Quando chegaram a Lesbos, Camps e Canals encontraram o caos.

“Todo dia chegavam mil, 3 mil migrantes e refugiados da Turquia. Nenhuma das grandes agências de socorro estava lá, só mochileiros voluntários e uma pequena entidade local”, relata Camps. “Os refugiados tinham sido instruídos a cortar os botes de borracha antes de chegar a terra para não serem mandados de volta neles. Os barcos estavam afundando, todo mundo caindo na água. Havia pânico. Dava para ouvir gente gritando socorro a cem metros da praia, sem ninguém para ajudar. Era horrível.”

Camps aceitou o conselho das autoridades de direitos humanos de Lesbos e criou uma ONG para ficar lá mais tempo. Mais dois salva-vidas seus se juntaram a ele, depois uma dúzia. Eles se tornaram a equipe de operações de resgate no rochoso litoral norte da ilha. Cerca de 75 mil refugiados chegaram naquele inverno.

“Nós nos concentramos na água e tentamos garantir que ninguém se afogasse. Assim que os deixávamos em terra, voltávamos à água. Não dormíamos nem comíamos direito, ficávamos o tempo todo molhados, com frio e cortes no corpo inteiro.”

A princípio, eles só tinham trajes de mergulho, apitos, pés de pato e camisetas de salva-vidas. “Nadávamos até os barcos naufragados, mas não conseguíamos pegar todo mundo. As mães amarravam os filhos ao peito para mantê-los a salvo durante a travessia. Na água, a cabeça deles ficava sob a superfície e eles se afogavam.

Enquanto ele conta a experiência, sua voz falha. “As pessoas gritavam, exaustas. Eu tinha de decidir em segundos quem salvar. Pegava duas crianças e voltava; onde antes havia cinco pessoas, agora só havia duas; e as outras? Onde estavam os pais? Toda ação tem consequências, e terei de conviver com elas pelo resto da vida.”

Camps (à esquerda) criou a Proactiva em 1999 como empresa de salva-vidas.

Em março de 2016, a União Europeia assinou um acordo em que dava à Turquia dinheiro e concessões políticas em troca de fechar mais as fronteiras e manter no país quem buscasse asilo. A fuga de migrantes para a Grécia diminuiu bastante.

Em outro lugar, mais uma tragédia humana continuava. Em parte por causa da guerra civil líbia, o número de migrantes e pessoas em busca de asilo político que tentavam a rota de quase 500 quilômetros pelo Mediterrâneo da Líbia à Itália, muito mais longa e perigosa, disparou. Em 2016, mais de 181 mil pessoas chegaram à Itália vindas do Norte da África. Milhares se afogaram.

Camps e sua equipe mudaram o foco para o Mediterrâneo, mas agora precisariam de barcos de resgate. Por meio de vaquinhas na internet, eles conseguiram três embarcações: a antiga traineira de pesca Golfo Azurro, a nau capitânia Open Arms e um barco chamado Astral: “Era um iate da década de 1970, de um playboy italiano. Exatamente o oposto do que precisávamos, mas o usamos para salvar 14 mil vidas no verão de 2016”, conta Campscom um sorriso maroto. “Não temos capacidade de manter por muito tempo um grande número de pessoas em nossos barcos. Precisamos chamar o Centro de Coordenação de Resgates Marítimos e requisitar uma transferência ou permissão para entrar num porto – e isso pode levar horas e até dias. Enquanto isso, recebemos mais chamados e temos de responder. Sobrecarregados, os barcos podem afundar se o tempo virar. Houve vezes em que chegamos e não encontramos nada.”

Terminado o resgate, há a questão de para onde levar os migrantes. Camps se viu envolvido na política da crise – havia até o argumento de que os barcos que resgatam migrantes agem como“fator de atração”, tanto para os migrantes quanto para os traficantes.

Enquanto isso, grupos de direita e partidos políticos populistas opostos à imigração crescem na Europa. Os governos do Sul da Europa estão fechando os portos aos navios de resgate.

Nada disso impede que as pessoas fujam da guerra, pobreza ou perseguição e tentem atravessar o Mediterrâneo.

Mas os barcos da Proactiva, depois de salvar refugiados das ondas, têm sido recusados pelos portos. Em consequência disso, pessoas com necessidade de cuidados médicos já morreram a bordo. Isso deixa Camps furioso.

Num acordo entre Itália e Líbia apoiado pela União Europeia mas condenado pela ONU, agora a guarda costeira líbia policia os mares e põe os migrantes que encontra em centros de detenção. Em março passado, eles ameaçaram abrir fogo se a Open Arms da Proactiva não entregasse as mulheres e crianças entre as 218 pessoas recolhidas fora de águas líbias. Os tripulantes se recusaram e foram para a Sicília, onde foram acusados de tráfico ilegal e apreenderam a embarcação.

Essas ações são condenadas por Fotis Filippou, diretor de campanhas da Anistia Internacional na Europa: “Em vez de serem criminalizadas por salvarem refugiadas e migrantes […] as ONGs que salvam vidas no mar deveriam ser apoiadas”, disse ele.

“Já sofri ameaças de morte em cinco línguas por resgatar migrantes”, revela Camps. Ele e sua equipe não vão parar de fazer o que acham certo. “É regra na legislação internacional resgatar qualquer um que esteja em dificulda- des no mar. Estaremos onde eles estiverem.”

Camps tem um barquinho próprio. Ele não sai muito com ele, mas, quando precisa ficar sozinho para pensar, deixa-o atracado e fica lá sentado.

“Vemos muita coisa”,diz ele. “Chorei muito no começo, no telefone, com amigos, com a família. Na mesma hora, quando percebemos que emocionalmente seria difícil, buscamos apoio.”

Hoje, as tripulações de resgate recebem orientação de psicólogos treinados em gestão de crises e estresse pós-traumático. “A gente sente muitas emoções, adrenalina, testosterona… muito coisa”, diz Camps. “Quando volto para casa, só consigo pensar em minha equipe ainda lá, com frio, cansada, nadando no mar. Foi difícil para mim, minha mulher, minha família, a empresa. Mudei profundamente em todos os níveis.”

Entre uma missão e outra, ele dedica seu tempo a discutir sobre migrantes e migração com chefes de governo, a mídia mundial, o Parlamento Europeu e até com o Papa (duas vezes) e a explicar o efeito da má política sobre vidas reais, pedir ajuda, exigir ações, tentar resolver a situação. “Oscar é um homem de ação e uma pessoa disposta a defender suas crenças”, afirma Peter Bouckaert, diretor de emergências da Human Rights Watch. “Ele defendeu a solidariedade e a humanidade, princípios básicos da União Europeia, enquanto os líderes europeus se ocupavam fechando por- tas e dando as costas. Assim, milhares de vidas foram salvas.”

Enquanto espera que os governos encontrem uma solução durável e integrada para receber migrantes, Camps aborda alguns problemas que levam as pessoas a fazer a viagem. Como ex- plica, “para um salva-vidas, o melhor resgate é aquele que não é necessário”.

A Proactiva Open Arms Africa já trabalha com entidades parceiras em Gana e no Senegal. Elas enfatizam os riscos e as oportunidades limitadas que os migrantes que querem tentar a vida na Europa enfrentarão. Ao mesmo tempo, oferecem ferramentas educativas e de construção de habilidades para ajudar as pessoas a melhorar de vida no país de origem.

Os europeus precisam se acostumar com a migração e aprender a coexistir, defende Camps. “As entidades ambientais protegem baleias e combatem a pesca predatória, mas não existem grupos que defendam direitos humanos no mar. Gostaríamos de estar nesse buraco negro das rotas de migração marítima do mundo inteiro, em países que não obedecem à legislação internacional e onde não há ninguém para denunciá-los, onde pessoas estão perdendo a vida e não há médicos nem jornalistas para noticiar e ajudá-las.”

Camps diz que a tripulação costuma tocar música no barco enquanto vasculha os mares. No alto da lista está Imagine, de John Lennon, com sua visão de um mundo melhor. “Imagine todo mundo vivendo em paz/Você pode dizer que sou um sonhador/Mas não sou o único/Espero que algum dia você se junte a nós/E o mundo seja como um só.”

“Salvamos vidas com dinheiro obtido nas redes sociais”, observa Camps. “Se conseguimos fazer tanto com tão pouco, pense só o que 28 governos poderiam realizar.”

Com a equipe da Open Arms, Camps resgatou 59 mil migrantes nos últimos três anos e meio.

 

Por SORREL DOWNER