Os jogadores de futebol americano exibem com orgulho as mascotes dos seus times; viajante, soldados e apaixonados usam estranhos objetos que dão sorte, e há quem pregue ferradura na porta da rua. Todos estes objetos são mascotes, uma palavra derivada do termo provençal masco, que significa feiticeiro. Havia dois tipos de mascotes. Os talismãs, do grego telesma, que quer dizer mistério, eram considerados capazes de atrair a sorte. Os amuletos serviam como escudo contra o mau-olhado (a palavra deriva do latim amuletum, sinônimo coloquial de ciclâmen — uma planta que se dizia proteger do veneno). Na Europa medieval, o mau-olhado era acusado de muitas desgraças.

O poder da crença

Talismãs e amuletos são comuns em todas as sociedades; o que varia são os objetos e símbolos escolhidos. Alguns amuletos são intencionalmente repugnantes, pois se destinam a evitar o olhar dos demônios mais violentos. Outros, em particular contas e adornos, podem ser requintados e exercem seu poder por meio dos símbolos que ostentam.

Um símbolo bastante frequente nos talismãs é o gato, que no antigo Egito era venerado como animal sagrado. Na Europa medieval, no entanto, pensava-se que as bruxas podiam aparecer sob a forma de um gato. O fato de um símbolo poder ser interpretado de maneira contraditória sugere que muito provavelmente não é o talismã que exerce o poder, mas sim a crença de quem os usa. Os talismãs podem ser também utilizados como sinal de código de uma crença particular. O peixe, por exemplo, é um antigo símbolo de Cristo, usado pelos cristãos como senha quando perseguidos pelos romanos.

Nem sempre os talismãs e amuletos constituem apenas simples adornos; podem também ser membros ou órgão de animais. Os esquimós da Groenlândia costumavam costurar uma cabeça de falcão à roupa dos meninos, acreditando que assim eles seriam bons caçadores.

Ao longo dos anos, os símbolos podem mudar e até ganhar conotações opostas. Exemplo notório é a suástica. A palavra é de origem sânscrita (“o que traz boa sorte”) e o símbolo expressava felicidade em muitas culturas. Mas, desde que foi adotado como insígnia nazista, passou a significar não a proteção para o mau-olhado, mas o próprio.

Sorte irlandesa

Os visitantes do castelo de Blarney, na Irlanda, costumavam se dedicar a uma prática esdrúxula e também perigosa: subiam à torre de 37 m e depois debruçavam-se no parapeito. E, enquanto os amigos os seguravam pelos tornozelos, beijavam uma pedra colocada na muralha. Acreditavam que o feito lhes concederia “o dom da palavra”.

Várias lendas europeias explicam como esta pedra teria sido dotada de poderes mágicos. Uma delas diz que Cormac MacCarthy, que construiu o castelo no século XV, estava apreensivo por causa de um julgamento. Uma noite, ele sonhou que se beijasse a primeira pedra que visse de manhã as palavras lhes sairiam com fluência e conseguiria sair-se bem no tribunal. Quando acordou, Cormac encontrou uma pedra e beijou-a. De fato, sua retórica foi brilhante e ele ganhou a questão. Mas, receando que toda a Irlanda viessem beijar a pedra, fixou-a na torre do castelo, fora do alcance dos intrusos.

Cerca de um século mais tarde, a rainha Elizabeth I da Inglaterra tentou convencer o descendente de Cormarc, Dermot MacCarthy, a lhe entregar o castelo como prova de lealdade. Dermot, que tinha o “dom da palavra”, conseguia sempre ganhar tempo com pretextos cada vez mais complicados e a rainha acabou por se cansar de tanta conversa, afirmando: “Blarney é mesmo assim; o que ele diz não quer dizer nada”. Assim, o termo blarney entrou na língua inglesa como sinônimo de “conversa-fiada”.

Hoje, os aspirantes a oradores podem alcançar a pedra de Blarney sem arriscar a vida, mas, embora já não seja tão perigoso, beijar a pedra é ainda incômodo, exigindo que o visitante se deite de costas, se apoie numa alça de ferro e incline a cabeça quase completamente para trás até poder tocar a pedra com os lábios. Como você reconhece a sorte?