Quando Peggy Conlon tinha 15 anos, seus pais e 14 irmãos e irmãs mudaram-se para uma propriedade em Adelanto, cidadezinha no meio do deserto no sul da Califórnia. Além da família Conlon, havia gatos, cachorros, galinhas, coelhos e um pônei.

O jantar era servido numa mesa de 3,5 metros de comprimento que o pai fizera de uma porta de igreja. As merendas escolares eram preparadas num esquema de linha de montagem; os banhos eram tomados em turnos – os mais novos antes de dormir, os mais velhos de manhã. A vida era um eterno controle de tráfego. Peggy, como a filha mais velha, era a principal monitora do trânsito.

A lição materna

Desde os 8 anos, todas as noites de sexta-feira, ela e a mãe, Mary, enchiam a caminhonete da família com a roupa suja e iam a uma lavanderia automática. Lá, no ar cheirando a sabão e à ofuscante luz néon, elas separavam, lavavam, secavam e dobravam até 20 fardos de roupas. As fraldas eram sempre um item importante.

Quando por fim terminavam, por volta de uma da madrugada, paravam numa lanchonete aberta dia e noite para um sundae de chocolate e seus raros momentos de tranquilidade juntas. Era então que Mary falava com a filha sobre a ajuda ao próximo e seus sonhos para o futuro.

Novos sonhos e planos

Com o passar dos anos, as esperanças e os planos de Peggy mudaram, mas uma certeza se manteve: a de que não queria passar a vida dobrando fraldas nem morando numa cidadezinha empoeirada no deserto.

Entretanto, a mãe amava a cidade de Adelanto tanto quanto amava os filhos, quatro dos quais eram adotivos. Mary estava sempre ajudando vizinhos e frequentadores da igreja católica da cidade. Parecia que sempre sabia quando alguém precisava de auxílio. E adorava alimentar as pessoas. Uma vez, transformou a sala de jantar, durante três meses, num lar para uma família de quatro pessoas ficarem.

Peggy admirava o coração generoso da mãe, mas sentia que ela adiava seus sonhos pessoais por causa daqueles que amava. Pois Peggy sabia que debaixo da cama da mãe havia uma caixa de sapatos cheia de anotações, fotos e episódios para um livro que Mary esperava escrever um dia.

Com energia e ambição, Peggy conseguiu concluir o mestrado da Universidade da Califórnia do Sul. “Aos 30 anos, eu sabia que queria ter responsabilidade numa empresa para poder ganhar todo o dinheiro que desejava”, diz ela.

Em meados dos anos 80, Peggy mudou-se para Nova York. Começou primeiro dirigindo jornais semanais para o setor de informática e depois na Cahners Business Information, supervisionando revistas especializadas para os setores de televisão aberta e a cabo. Passo a passo, seu esforço a fez conseguir tudo que sonhara: um belo apartamento de cobertura, um carro de luxo e “mais sapatos do que conseguia usar”.

A missão de uma vida

Com o passar do tempo, no entanto, Peggy sentiu que parte dela não estava realizada. “Fui criada aprendendo a colocar as necessidades alheias acima das minhas”, conta ela. “Em algum plano subconsciente, eu devia estar procurando algo mais.”

Num dia de fevereiro de 1999, sentada em seu espaçoso escritório na cidade de Nova York, lá estava diante de seus olhos, na correspondência da manhã, a notícia de que o presidente do Conselho de Publicidade estava se aposentando. Para alguns, aquele podia ser um acontecimento de pouca importância; para Peggy, era um chamado para mudar de vida. “Percebi que era uma oportunidade de fazer algo significativo”, diz. “Era uma chance de retribuir.”

Desde os anos 40, o Conselho de Publicidade, uma organização sem fins lucrativos, era um instrumento de conscientização sobre assuntos vitais para a sociedade. Seus lemas de campanha haviam penetrado na consciência nacional e ajudado a direcionar o programa cívico dos Estados Unidos.

Peggy pegou o telefone e ligou para a mãe. Será que Mary acharia que ela estava abandonando todos os sonhos de sua caixa de sapatos?

“Acho que eduquei você direito”, respondeu a mãe. Aquelas palavras foram decisivas. Peggy candidatou-se e conseguiu o posto.

Sonhos que se transforma

Um mês depois que Peggy começou o novo trabalho, Mary Conlon morreu em decorrência de um acidente vascular cerebral. Arrasada, Peggy resolveu homenagear a participação ativa da mãe na assistência a crianças e famílias. Propôs uma nova iniciativa. “Em memória de minha mãe, tornou-se importante para mim empreender uma campanha de combate à fome infantil.”

Reunindo escritores, atores e diretores, Peggy teve como alvo a fome oculta na América. Anúncios em preto e branco mostravam jovens mães optando entre comprar comida ou outras necessidades como aquecimento, aluguel e remédios. O Conselho de Publicidade esperava que a campanha, copatrocinada pela organização assistencial America’s Second Harvest, ensinasse às pessoas algo sobre os 13 milhões de crianças americanas que moram em casas onde por vezes não há quase o que comer.

Hoje, um dos objetos mais preciosos para Peggy é a agenda de bolso que Mary usava pouco antes de sua morte. Abaixo de um desenho de criança, lê-se:

“Daqui a 100 anos, não vão ter importância meu saldo bancário, o tipo de casa em que eu morava ou a espécie de carro que eu dirigia. Mas o mundo poderá ser diferente porque fui importante na vida de uma criança.”

Por Sarah Mahoney

Você pode conhecer um pouco mais do trabalho de Peggy Conlon em seu site oficial (em inglês).

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