Conforme a medicina moderna acrescenta anos à nossa vida, os ganhos se revelam no envelhecimento contínuo da população, principalmente a dos países desenvolvidos. Os idosos de 65 anos ou mais representam hoje acima de 17% da população total do mundo desenvolvido, contra pouco mais de 14% em 2000. Como o avanço da idade, vem a necessidade de mais cuidadores. Tradicionalmente, quando precisamos de ajuda, os pais idosos iam morar com os filhos adultos. A família moderna, que busca mais flexibilidade, vem encontrando várias soluções. Eis quatro dessas famílias que nos mostram como enfrentaram o desafio – e descobriram benefícios inesperados. Quem diz a frase “vou cuidar da minha família”, afinal, pode estar tomando uma decisão que beneficia a todos.

O melhor

“Você disse ostras?”, pergunta meu sogro à garçonete. “Nunca recuso ostras!” Depois delas, ele escolhe a sobremesa: musse de chocolate, que chega com um “Feliz aniversário” escrito com calda no prato e uma vela para comemorar seus 93 anos.

Minhas três filhas adolescentes riem das histórias do avô emprestado. “Fale do cabelo comprido de Jim”, pedem.

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Jim se encolhe todo com as histórias de décadas atrás. Mas é visível que fica alegre com a felicidade do pai.

“Vovô Don”, como o chamam minhas filhas, veio morar conosco na Califórnia quando sua mulher morreu depois de 65 anos de casamento. Ele não dirige mais nem caminha muito sem o andador. Tem problemas cardíacos, degeneração macular, surdez num ouvido e artrite. Mas é bem-humorado, irônico e infalível nos agradecimentos.

Com seis filhos de 15 a 26 anos, uns meus, outros de Jim, nós dois mal podíamos esperar pelo ninho vazio. E é uma ironia que tenhamos aumentado a família no outro lado da faixa etária. Mas o impulso de retribuir é forte.

Talvez seja biológico, sugere William Haley, professor da Escola de Estudos do Envelhecimento, na Universidade do Sul da Flórida, em Tampa. “A mesma empatia que nos ajuda a cuidar dos filhos nos inspira a cuidar dos pais e fazer o bem aos outros”, diz ele.

Quando ajudamos alguém que seja importante para nós, temos mais emoções positivas, como compaixão, satisfação e uma felicidade indireta por sermos capazes de ajudar”

Um número de pesquisas cada vez maior mostra que esse papel de doar nos traz recompensas. “Quando ajudamos alguém que seja importante para nós, temos mais emoções positivas, como compaixão, satisfação e uma felicidade indireta por sermos capazes de ajudar”, diz o psicólogo Michael J. Poulin, que estuda o ato de cuidar na Universidade d Estado de Nova York, em Buffalo.

Parece que ajudar os outros reduz os efeitos físicos do estresse, de acordo com um estudo de seis anos publicado no American Journal of Epidemiology. Esse foi um dos dois estudos recentes a mostrar que os cuidadores também vivem mais. No outro, publicado na revista Stroke, os cuidadores disseram que ajudar um parente depois de um AVC os levou a apreciar mais a vida, lhes deu mais confiança e fortaleceu relacionamentos.

É claro que me preocupo com o que faremos quando meu sogo ficar mais frágil e necessitado. Mas sempre que o fazemos sorris, quase sinto meu coração se elevar um pouco. E talvez isso aconteça mesmo. “Quem encontra aspectos positivos no ato de cuidar não está usando óculos cor-de-rosa nem ignorando ingenuamente os problemas”, diz Haley. “É uma forma benéfica de lidar com o estresse.”

Você pode ficar ansioso com a possibilidade de uma queda ou um infarto, ou se concentrar nos bons momentos. Afinal, coisas ruins não acontecem apenas com quem tem 94 anos.

– Do que você mais gosta na Califórnia, pai? – perguntou-lhe Jim faz pouco tempo.

Meu sogro parou e respirou.

– Da família – respondeu, emocionado. – A família é o melhor.

Paulo Spencer Scott/AARP Bulletin

Viver com independência

Ano passado, Adélheid (nome trocado para proteger a privacidade), ex-lojista de 75 anos que mora sozinha num apartamento nos arredores de Lyon, na França, levou um tombo em casa e fraturou o tornozelo. Alguns meses depois, uma queda mais grave resultou em fratura de quadril.

Após várias semanas no hospital, ela voltou para casa. Embora se preocupasse em como iria se arranjar, não queria ir para uma casa de repouso. “Viver com independência é muito importante para mim. Gosto de fazer o que quero na hora que quero”, diz ela.

Por sorte, sua filha Anne-Claire Rivière, 51 anos, mora com o marido, Guy, 52, a apenas dez minutos da casa da mãe. Apesar de ambos terem longas jornadas de trabalho, ele como analista de sistemas, ela como gerente de uma empresa na cidade, o casal leva Adélheid para fazer comprar maiores no supermercado. Um ou outro item menor ela vai comprar sozinha.

Adélheid ainda usa andador, mas seus pés estão ficando mais firmes. A faxineira vai à sua casa uma vez por semana e um fisioterapeuta a visita regularmente.

“Valorizamos muito esses momentos em família. Não sabemos até quando ainda teremos nossos pais e queremos aproveitar ao máximo o tempo que passamos juntos.”

“Ela não passa as tardes observando a vida alheia por trás das cortinas”, diz Anne-Claire, rindo. “Vive ocupada. Adora a internet e se interessa muito por genealogia.”

Anne-Claira está sempre perto do telefone. “Mamãe liga todos os domingos para nos contar o que andou fazendo. Cada um tem sua vida, e parece que está dando certo para todo mundo.”

O casal tem outro compromisso importante: Maurice (nome trocado para proteger a privacidade), 89 anos, pai de Guy, que mora numa casa de repouso na mesma rua.

Maurice viveu muito bem sozinho até o fim de 2014, quando, segundo Guy, “começou a esquecer de tomar os remédios e a ter dificuldades com tarefas rotineiras.” Em fevereiro passado, caiu, bateu a cabeça e perdeu o controle das pernas. O médico recomendou uma casa de repouso, e Maurice concordou.

– Ele reconheceu que não podia mais morar sozinho – diz Anne-Claire. – Pensamos em trazê-lo para morar conosco, mas teríamos de fazer tantas obras no banheiro e no quarto que simplesmente não foi possível.

– Todos concluímos que essa era a melhor solução. Ele manteve seus móveis, livros e quadros favoritos, e há muita gente com quem conversar – completa Guy.

O casal faz visitas frequentes a Maurice e Adélheid. Anne-Claire diz: “Valorizamos muito esses momentos em família. Não sabemos até quando ainda teremos nossos pais e queremos aproveitar ao máximo o tempo que passamos juntos.”

Lisa Donafee

O maior desejo

Frieda Bolduan, solteira e sem filhos, tinha 43 anos e trabalhava num orfanato em Norderstedt, na Alemanha, quando conheceu uma menina de 7 anos, chamada Marina, e seus três irmãos. Era junho de 1972, e o serviço de proteção à infância transferira as quatro crianças para a Aldeia Infantil SOS de Harksheide, em Norderstedt.

Frieda foi designada para cuidar das crianças na aldeia infantil. Com seu grande coração, ela as recebeu com afeto. A ligação entre Marina e a mulher que passou a chamar de mãe se fortaleceu e continuou quando a menina cresceu, foi trabalhar como decoradora e formou a própria família.

Hoje, as duas moram juntas outra vez, mas os papéis se inverteram. Agora Marina Weber, 50 anos, cuida de Frieda, 86. Em 2010, Frieda foi morar com Marina e o marido, Ronald Weber, 51 anos, representante de vendas do setor farmacêutico, e Viviane, a filha de 12 anos do casal, na espaçosa casa em Boostedt, ao norte de Hamburgo. Marina explica: “Meu maior desejo sempre foi trazer minha mãe para morar comigo numa casa grande. Quero retribuir um pouco do que ela me deu.”

“Sem minha mãe e seu amor ilimitado, eu não teria sobrevivido. Ela em ensinou a nunca desistir e a ter fé em mim mesma”, diz Marina. “Não sei o que seria de mim sem ela.”

Frieda tem um quarto confortável, cheio de fotos, livros e um sofá aconchegante. O mais importante é que ela faz parte da família. Participa da vida de todos, na medida do possível, pois já faz algum tempo que está sofrendo de demência e cada vez mais esquecida. Todo dia, Marina procura fazê-la sentir-se útil. “Você pode me ajudar a passar as roupas?”, pergunta e lhe entrega alguns panos de prato.

Enquanto Marina prepara o almoço, Viviane chega da escola. Abraça com carinho a avó querida: “Tudo bem, vovó?” Para Frieda, é difícil exprimir os sentimentos em palavras, mas ela dá um grande sorriso a Viviane. Sempre que a menina fala das aulas de natação, Frieda ouve com atenção.

Quando terminam de comer, Marina pergunta:

– Está cansada, mãe? – Frieda faz que sim, e a filha a ajuda a se erguer da cadeira. – Vou levá-la para tirar um cochilo no quarto. Depois podemos ir ao iate clube de Kiel. Sei que você adora olhar o mar.

frieda aperta a mão da filha.

– Ah, seria ótimo – responde.

Enquanto a mãe descansa, Marina lava a louça.

“Sem minha mãe e seu amor ilimitado, eu não teria sobrevivido. Ela em ensinou a nunca desistir e a ter fé em mim mesma”, diz Marina. “Não sei o que seria de mim sem ela.”

Annemarie Schaefer

Ótima companhia

Toda noite a gata se enrosca nos pés de Silvia Combil, 83 anos, e as duas dormem profundamente. “É uma alegria vê-la tão serena depois de ter sofrido tanto com ataques de pânico, sobretudo à noite, por causa da dor”, diz Magdalena Combil, 51 anos. Ela é a nora de Silvia.

Silvia mora em Bucareste, na Romênia, com o filho Florin, 61 anos, e Magdalena. Até três anos atrás, morava sozinha num apartamento próximo. Viveu 15 anos lá, desde que ficou viúva, mas com o tempo passou a ter problemas de saúde, inclusive poliartrite reumatoide, que causa fortes dores nas articulações.

Magdalena e Florin iam todo dia levar comida e fazer compras, e lhe telefonavam cinco vezes por dia. Apesar de todo esse esforço, “ela se esquecia de tomar os remédios e se recusava a comer”, diz Magdalena.

Pouco depois de completar 80 anos, Silvia se sentia tão mal que, numa única semana, o casal chamou a ambulância três vezes. Logo após, Magdalena e o marido decidiram que estava na hora de Silvia ir morar com eles no apartamento de dois quartos.

“É maravilhoso ter toda a família ao redor! Assim sabemos que não estamos sozinhos.”

Nessa época, as duas filhas do casal já moravam sozinhas, e Silvia teria um quarto só seu, para que pudesse guardar o que fosse importante para ela. Magdalena e Florin passaram a lhe preparar as refeições e a se assegurar, nesse meio tempo, de que tomasse os remédios. Compraram pomadas para suas articulações e por conseguinte cuidavam dela à noite. Em três semanas, Silvia já se sentia muito melhor.

Para o casal, dividir a casa com ela certamente funcionou. “Desde que veio morar conosco, todos nos sentimos mais alegres e descontraídos”, conta Magdalena. “Minha sogra é uma ótima companhia. Conta histórias de sua juventude e faz piadas. Às vezes, quando nos espantamos porque ela, que é meio surda, entendeu o significado de um comentário pelo contexto, ela nos repreende e diz que um dia sentiremos falta de suas piadas.”

Silvia não sente saudade de morar sozinha. Passeia com o casal, que a leva eventualmente ao médico para exames regulares e as duas netas sempre aparecem à noite ou nos fins de semana.

“Essa é minha maior alegria: quando as meninas vêm e todos nos reunimos”, diz Silvia. “É maravilhoso ter toda a família ao redor! Assim sabemos que não estamos sozinhos.”

Ada Bucur

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