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Publicado em: 1 de março de 2021

Mistério médico: O menino sobreviveria?

O caso do pequeno Abraham impressionou os especialistas e entrou para a história.

Imagem: VICTOR WONG

Alguns casos intrigam até mesmo os médicos mais experientes. O caso médico abaixo certamente está nessa lista de mistérios médicos que intrigam os especialistas.

PACIENTE: Abraham Gonzalez-Martinez, um menino de 4 anos
SINTOMAS: Fadiga e lesões na pele
MÉDICO: Dr. Manish Butte, imunologista do Hospital Pediátrico Mattel, do campus de Los Angeles da Universidade da Califórnia (UCLA).

Abraham Gonzalez-Martinez costumava brincar nos campos da região de Santa Maria, na Califórnia, enquanto a mãe trabalhava colhendo frutas. Mas, em fevereiro de 2018, o menino de 4 anos ficou inquieto e não quis comer. Alguns dias depois, surgiram feridas na nuca e calombos estranhos começaram a crescer na testa.

A mãe, Magdalena Gonzalez, criava Abraham sozinha. Ela o levou a um pronto-socorro local, onde foi internado. O médico desconfiou que os calombos eram colônias de coccidioides, um fungo do solo que é endêmico na Califórnia. Quando inalados, seus esporos podem infectar pessoas e provocar coccidioidomicose, doença parecida com a gripe chamada nos Estados Unidos de febre do vale. Mais de 10 mil californianos contraem a doença todo ano, mas a maioria melhora por conta própria. Os outros geralmente se recuperam com antimicóticos.

O coccidioides pode ser visto pelo microscópio quando se tira uma amostra, mas o hospital onde Abraham foi internado não estava equipado para fazer uma biópsia na cabeça de uma criança tão pequena. Como a febre do vale parecia provável, o menino começou a tomar
antimicóticos. Mas os calombos
cresceram mais.

Em menos de 2% dos casos relatados, o coccidioides supera as defesas do organismo e se dissemina. Isso pode causar meningite, uma infecção potencialmente fatal do cérebro. Se era o que Abraham tinha, o fungo estava destruindo rapidamente o tecido mole e se alojando no crânio. Alguns dias depois de internado, Abraham foi transferido para o Hospital Pediátrico Mattel na UCLA, a mais de 300 quilômetros. Magdalena se angustiou; ela teria de ficar em Santa Maria, senão perderia o emprego.

O Dr. Manish Butte, chefe da divisão de imunologia, alergia e reumatologia, se lembra de conhecer o menino, que sentia dor e estava fraco demais para andar. “Ele só ficava deitado, assustado e tímido”, conta Butte. Abraham não falava inglês, só mixteca, idioma indígena do México.

Com uma biópsia, os médicos de Abraham confirmaram a infecção por coccidioides. Eles elevaram a dose de antimicótico, mas não adiantou. As lesões na cabeça aumentavam a cada dia; a maior tinha quase 4 centímetros de diâmetro e alarmava os médicos. “Se o fungo chegasse ao cérebro, era improvável que ele sobrevivesse”, diz Butte.

As infecções podem ter evolução bem diferente, em geral por conta da variação individual da resposta imune. Depois de 15 dias sem melhoras, com Abraham entrando e saindo de cirurgias para remover o fungo persistente, Butte e sua equipe teriam de descobrir, o mais depressa possível, o que impedia Abraham de combater a infecção.

Infelizmente, esse tipo de diagnóstico leva tempo. Durante várias semanas, a equipe do Dr. Butte examinou o genoma de Abraham e fez experiências com seus leucócitos até perceber que o organismo do menino produzia quantidade insuficiente de uma molécula chamada interferon gama, que tem papel fundamental no combate às infecções. No 52-º  dia de internação de Abraham, com as lesões agora invadindo outros ossos do corpo, ele começou a tomar injeções de interferon gama. A infecção perdeu força. Mas algumas lesões, como uma no lado da cabeça, continuavam a se expandir. “Sabíamos que não seria suficiente”, explica Butte.

A mãe de Abraham estava apavorada, mas só conseguia fazer visitas semanais ao filho. Em sua ausência, as enfermeiras o mimavam. Abraham aprendia inglês e espanhol e se divertia com um iPad. “Mesmo quando se sentia muito mal, tomando soro dia e noite, ele ainda conseguia soltar um braço e assistir aos vídeos”, recorda Butte.

Mas o perigo não diminuía. Mais lesões surgiram, e Abraham teve pneumonia. Ele comia tão pouco que foi preciso inserir um tubo de alimentação. Além disso tudo, outro problema veio à tona. Embora devesse ter ativado defesas contra infecções bacterianas, virais e fúngicas, o sistema imunológico de Abraham ativou uma reação chamada imunidade tipo 2, normalmente usada contra parasitas, que não usa interferon gama. Quando Butte contou o enigma aos colegas, a Dra. Maria Garcia-Lloret mencionou que um novo fármaco para pacientes com eczema bloqueava a reação imune tipo 2. Se experimentassem em Abraham o medicamento chamado dupilumabe, será que o sistema imunológico combateria o fungo?

O medicamento ainda não tinha sido usado dessa maneira, e eles agiram com cautela, primeiro testando a substância em laboratório nas células do menino. No 114-º  dia, começaram a lhe dar uma dose baixa, acompanhando-o de perto. Eles aumentaram a dose duas vezes nas duas semanas seguintes, mas já era óbvio que o tratamento funcionava. “As lesões começaram a sumir. Foi um momento muito especial para todos nós”, comemora Butte. “A mãe do menino ficou contentíssima porque ele ia sobreviver.”

Conforme se sentia cada vez melhor, Abraham saiu da concha. “Ele mandava a gente pôr uma máscara de cartolina do Batman ou assistir a um de seus vídeos infantis antes que falássemos com ele. Era uma gracinha”, diz Butte. “Ele brincava de esconde-esconde: se enrolava numa cortina com os pezinhos de fora.”

Para controlar a infecção, Abraham teria de continuar o regime de medicação em casa, talvez indefinidamente. Nas últimas semanas de internação, a equipe ajustou as doses e ensinou a mãe a dar injeções. Finalmente, naquele mês de dezembro, depois de 11 meses no hospital, Abraham estava pronto para voltar para casa.

Os médicos esperam que seu trabalho seja útil em outros casos difíceis
de infecção; é possível “ajustar” a resposta imune em vez de simplesmente aumentar a dose de antimicóticos e antibióticos. Butte afirma: “Vou lembrar desse caso pelo resto da vida.” 

POR LISA BENDALL

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