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Publicado em: 1 de março de 2021

O amor e a dádiva da aceitação

O nariz diferente lançou sombras sobre sua confiança até que a sabedoria interveio.

Imagem: Ilustrado por Charlotte Ager

Examino fotografias velhas tentando descobrir o momento exato em que meu nariz, o flagelo pontudíssimo e meio assimétrico de minha existência, brotou.

Nas férias de verão depois do 7º ano, estou com minha família num zoológico. Estamos nos escondendo na sombra quando avistamos um grupo de flamingos em pé em torno de um laguinho. “Ei, olhe!”, grita meu irmão enquanto aponta o grupo de aves cor-de-rosa. “Sua família de verdade!” Dou uma olhada em meus joelhos magros antes de descobrir que ele acha que a semelhança está em outro lugar. Meus pais me pedem que fique diante de meus parentes recém-encontrados e me instruem a dobrar as pernas numa pose parecida. “Agora vire o rosto de lado”, diz minha mãe. Clique.

Tenho 14 anos. Estou almoçando uma salada com chá gelado na casa da minha tia.

– Por que você ainda não tem namorado? – pergunta ela, como se fosse uma opção minha. – Estávamos conversando sobre você outro dia, falando como você é bonita, Patricia – diz ela entre golinhos de chá gelado. – Mas todos concordamos que, se você tirasse um pouquinho do comprimento do nariz, seria linda.

Estamos em 2005, e a artista Ashlee Simpson acabou de fazer um plástica maravilhosa no nariz. Olho as fotos dela antes e depois e me convenço de que também preciso de plástica. Numa conversa telefônica com minha mãe, digo-lhe que estou decidida a consertar meu nariz.

– Achei que você já tinha superado isso – diz ela, um tom de desaprovação na voz.

Quando ainda morávamos sob o mesmo teto, eu lhe implorava que me levasse ao médico. Mamãe, que mal usa maquiagem, tem o sorriso naturalmente perfeito e nunca comprou um creme antirrugas na vida, ria e me dizia que havia um jeito mais fácil de resolver meu sofrimento. “Se você acreditar que é linda, será assim que os outros a verão”, dizia – como se fosse simples, como se fosse mágica.

Devo ter pedido até cansar, porque finalmente ela concorda em marcar uma consulta para mim. Um homem de jaleco branco, com o rosto artificialmente liso e um tom escuro e antinatural no cabelo, enfia uma lente de aumento em minhas narinas.

– Tem dificuldade de respirar? – pergunta ele. – Porque você tem um grande desvio de septo.

Ele cutuca e gira minha cabeça para cima e para baixo e de um lado para o outro com as mãos enluvadas. A enfermeira tira uma foto do meu rosto olhando bem para a frente; tira outra de perfil, o ângulo de que menos gosto. O médico pede que eu e minha mãe entremos no consultório, onde ele baixa as imagens no computador e começa a mexer na aparência do meu nariz: afina, reduz a ponta, apaga uma lombada que eu nunca tinha notado.

– Você tem um nariz fino muito bom – diz ele, embora esteja apagando todos os vestígios dele na minha frente. – O problema é ser grande demais, e temos de trabalhar bastante para deixá-lo num tamanho melhor.

Finalmente, ele pousa o mouse e me mostra a obra acabada. Empaco. Já vi esse nariz em muitas pessoas. Detesto. E detesto a garota que me olha daquela tela. Quero sair daquele consultório o mais depressa possível. Agradecemos ao médico pela atenção e arranjamos uma desculpa para não marcar a segunda consulta. Saímos do prédio e nunca mais falo em plásticas. Percebo que esse sempre foi o plano da minha mãe.

Estou com 23 anos, namorando um rapaz de nariz perfeito. Ele é fotógrafo e gosta de tirar fotos minhas quando estou desatenta. Certa noite, ele aparece em meu apartamento e tira uma foto assim que abro a porta. “Amo essa foto e amo você”, escreve ele num e-mail com a foto anexada. Nela, sorrio com o rosto virado de lado, e a luz do flash caiu inteirinha em meu nariz protuberante. Uso-a como minha foto de perfil no Facebook. “Bella!”, escreve minha tia nos comentários.

Eu me caso com o fotógrafo.

POR PATRICIA GARCIA da vogue.com

VOGUE.COM (2 DE FEVEREIRO DE 2018), © 2018 DE CONDÉ NAST.

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