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Publicado em: 1 de fevereiro de 2021

O que está errado nas casas de repouso?

Os problemas nas casas de repouso da Europa podem nos ajudar a resolver os nossos.

Imagem: ©ALVARO CALVO/GETTY IMAGES

Aos 99 anos, ela passa a maior parte do tempo em seu quartinho na casa de repouso de Les Oyats, na pitoresca cidade costeira francesa de Notre-Dame-de-Monts. Durante o dia, ela fica sentada em sua única cadeira preta de escritório, lendo, resolvendo palavras cruzadas e recebendo as raras visitas.

Mas ela agita as massas. Viúva de militar, mora há oito anos na casa de repouso pública de Les Oyats. Em 12 de julho de 2019, pegou caneta e papel e escreveu uma carta a Raoul Grondin, o prefeito da cidade, que encabeça o órgão regional responsável pelo financiamento da instituição.

Em termos bastante diretos, ela detalhou a piora da situação por causa do corte de recursos, as decisões questionáveis da diretoria e o estresse da equipe, tão grande que 15 dos 55 funcionários em horário integral estavam de licença médica. O restante tentava atender à necessidade dos cerca de 80 residentes, e muitos deles acabavam passando dias na cama. Os banhos eram raros, e houve acidentes, como a moradora que fraturou a clavícula quando uma auxiliar de enfermagem sozinha tentou virá-la na cama, serviço antes feito por duas pessoas.

“Isso não é aceitável”, escreveu Suzanne. “Idosos doentes estão sofrendo as consequências.”

Para ela, a questão não é só dinheiro. Na verdade, é respeito e o fato de idosos que moram em casas de repouso de toda a Europa serem desconsiderados há anos por conta da idade e das enfermidades.

“Apesar da idade, minha mente está afiada”, afirma ela. “As enfermeiras estavam chorando em meu ombro. Tive de fazer o possível para acabar com isso.”

A carta, assinada por mais 12 moradores, foi a segunda ação de uma campanha iniciada dois meses antes por Marcellin Meunier, médico local encarregado de atender à casa de repouso desde sua inauguração 23 anos atrás. Em 5 de maio de 2019, ele publicou um SOS público no Facebook e afirmou que a casa de repouso oscilava à beira de uma “catástrofe humana”: em determinado momento, havia apenas uma enfermeira padrão para todos os moradores, as auxiliares eram obrigadas a racionar as luvas de borracha usadas na limpeza, as garrafas de desinfetante ficavam vazias para poupar dinheiro.

Suzanne falou das péssimas condições de vida em sua casa de repouso. (© lisa fitterman)

Numa entrevista em sua casa, o Dr. Meunier explica: “A maior parte dos residentes tem alguma doença e precisa de muita ajuda. Tive de falar, as consequências não importavam.”

A Organização Mundial da Saúde define abuso de idosos como “ato único ou repetido, ou falta de ação apropriada, ocorrida em qualquer relação em que haja expectativa de confiança, que cause mal ou angústia a um idoso”. A entidade estima que 15,7% das pessoas com 60 anos ou mais no mundo são submetidas a abusos; provavelmente o número real é mais alto, porque muitíssimos casos não são notificados. O abuso pode ser intencional ou não e incluir furto, agressão física ou negligência.

De acordo com a União Europeia, 19,7% ou quase um quinto da população do continente tinha 65 anos ou mais em 2018, e se calcula que esse número crescerá 31,3% este ano. Quase 4 milhões dessas pessoas moram em casas de repouso, que podem ser públicas ou particulares, com ou sem fins lucrativos. Os problemas endêmicos do tratamento de longo prazo – falta de recursos, por exemplo, ou pessoal insuficiente e com treinamento inadequado – existiam por toda parte muito antes que a pandemia da Covid-19 lhes desse um vergonhoso destaque. Afinal, 58% de todas as mortes em consequência da doença na Europa foram de pessoas com 80 anos ou mais. (Comparativamente, no Brasil esse número é de cerca de 25%.)

Há anos, idosos com problemas cardíacos, demência, sistema imunológico comprometido, diabetes tipo 2 e câncer são sacrificados por falhas sistêmicas graves do sistema de assistência em toda a União Europeia, seja na Finlândia, onde cerca de 60% das casas de repouso são públicas e 40%, particulares, seja na Alemanha, onde 60% não têm fins lucrativos (tanto públicas quanto particulares), seja na França, onde pouco mais da metade de todas as casas de repouso é pública.

As histórias provocam raiva e, ao mesmo tempo, partem o coração.

Em abril de 2015, Paulette Godfriaux, de 89 anos, morava na Seniorie de Carlsbourg (hoje chamada Le Bois Joli), em Paliseul, na Bélgica. Depois que um AVC a paralisou e lhe tirou a capacidade de falar e emitir sons, ela morreu queimada em silêncio no banho demasiado quente, porque a auxiliar que a pôs na banheira, enquanto ainda era enchida, saiu correndo para tratar de outro paciente antes de testar a temperatura da água. A auxiliar foi demitida, mas houve outros rumores na casa de repouso de que a equipe era forçada além do limite.

Na Finlândia, não uma, mas duas casas de repouso particulares para idosos, das redes Esperi Care e Attendo, com um total de 381 moradores, pegaram fogo nos últimos anos. Numa casa da Attendo, as autoridades estaduais finlandesas encontraram 17 idosos com índice de massa corporal tão baixo que eles corriam risco de morrer. Noutro caso, restos de opioides que deveriam ter sido destruídos como descarte médico foram dados aos pacientes sem ordem médica. Em 16 casas de repouso administradas pela Esperi, repórteres revelaram indícios de que as autoridades exigiram que a empresa melhorasse seus procedimentos.

Na Alemanha, Claus Fussek, assistente social que há três décadas defende os direitos dos idosos em casas de repouso, não esquece a visita que fez a um velhinho a pedido de um amigo preocupado. Quando ele chegou, os funcionários nem ergueram os olhos, porque estavam ocupados jogando cartas, enquanto duas moradoras seminuas perambulavam pelo corredor.

“Aquele senhor me disse que os funcionários negligenciavam os moradores, não conversavam com os pacientes e às vezes eram cruéis. Disse que gostaria de estar com demência para não perceber o que lhe acontecia”, recorda o assistente social. “Perguntei se ele já tinha vivido em instalações de tratamento de longo prazo. Ele me mostrou o braço esquerdo, onde havia um número tatuado. É, ele ficara preso num campo de concentração.”

“Um idoso me disse que os funcionários negligenciavam os moradores e às vezes eram cruéis.” (© Patrick Landmann/Getty Images)

Na Espanha, Rafael Serrano, de Córdoba, psicólogo e empresário especializado em tratamento de idosos, não se perdoa pelo acidente numa casa de repouso que administrou. No fim do dia de trabalho, os operários que construíam uma rampa de acesso ao jardim para os moradores que usavam cadeira de rodas se esqueceram de fechar a porta que levava à obra. Naquela noite, uma moradora entrou lá e caiu.

“Só percebemos o que tinha acontecido na manhã seguinte. Encarnación, que era um prazer em vida, morreu”, conta Serrano. Desde então ele abriu a empresa Beprevent, que trabalha para manter os idosos independentes em suas próprias casas, com monitoramento de rotina.

Em 2017, a Rede Europeia de Instituições Nacionais de Direitos Humanos (ENNHRI, na sigla em inglês) publicou um estudo sobre os direitos humanos de idosos em instituições de tratamento de longo prazo em todo o continente. O estudo identificou falta de conhecimento dos direitos básicos dos idosos, como viver em ambiente seguro, receber informações sobre seu tratamento médico e acesso à Justiça.

Esses são direitos de todos, mas, no caso de idosos em casas de repouso, que podem ter dificuldade de se exprimir ou temer represálias, a questão é mais complicada. Em muitos casos, diz Debbie Kohner, secretária-geral da ENNHRI, esses direitos não são conhecidos ou são negligenciados, com menos probabilidade de serem respeitados.

“Os direitos humanos dos idosos estão em muitas convenções internacionais, mas não foram consagrados em nenhuma convenção exclusiva, como aconteceu com os direitos das crianças”, diz ela.

O estudo examinou seis países da União Europeia: Bélgica, Croácia, Alemanha, Hungria, Lituânia e Romênia. Em geral, constatou-se que a maioria dos tratadores fazia o possível para respeitar a dignidade e a independência dos pacientes. Mas os lapsos estavam lá, como lares com escadas íngremes e inadequadas, moradores banhados ao mesmo tempo e/ou transportados seminus pelos corredores, moribundos deixados no mesmo quarto que outros moradores, sistemas de ventilação imundos, calefação desligada para poupar recursos.

Como reagir? O relatório observa que, sempre que possível, é fundamental que os idosos participem das decisões tomadas sobre sua vida, inclusive, para começar, se vão ou não para uma casa de repouso. Também se recomenda que os países europeus e a União Europeia promovam uma nova convenção de direitos humanos específica para idosos.

Num discurso de 2020, Agnès Buzyn, na época ministra francesa de Saúde e Solidariedade, observou que é difícil contratar pessoal especializado no setor de tratamento de idosos. “Os jovens deveriam adotar essas profissões”, sugeriu. “São as profissões do futuro.” Com esse fim, continuou ela, três áreas precisam ser aprimoradas rapidamente: melhores salários para os cuidadores; treinamentos constantes para mantê-los atualizados em sua prática; e criação de um orçamento de longo prazo a fim de cuidar dos idosos em casa.

Fussek, o assistente social da Alemanha, falou em público pela primeira vez sobre a falta de cuidados nas casas de repouso em 27 de abril de 1997, quando deu uma entrevista coletiva em Munique para alertar o público para o fenômeno do aumento de internação hospitalar de moradores nas segundas-feiras, desidratados e em “péssimas condições”.

“Nos fins de semana, há ainda menos funcionários nas casas de repouso. Os moradores eram deixados no leito, sujos, com as fraldas sujas”, recorda ele.

Pouco mudou, acusa Fussek. Nas casas de repouso, ainda há idosos demais com desidratação, desnutrição e escaras por ficar tanto tempo na cama.

E é por isso, diz ele, que é preciso uma versão do movimento #MeToo dos idosos, como registro e reconhecimento dos direitos dos idosos e das responsabilidades das casas de repouso. “Médicos e enfermeiros precisam falar abertamente sobre o que veem todo dia. Têm de assumir sua responsabilidade ética. A Covid-19 e a consequente proibição das visitas agravaram drasticamente as condições de vida nas casas de repouso”, afirma Fussek.

De volta a Notre-Dame-de-Monts, em 19 de junho de 2019 o Dr. Meunier pediu demissão, frustrado com a falta de reação das autoridades. Longe de contratar pessoal qualificado para substituir os que estavam de licença, a casa de repouso aceitou mais um paciente, aumentando assim a carga de trabalho da equipe.

Dois dias depois, políticos aprovaram uma alocação adicional e excepcional de 1,6 milhão de euros para todas as casas de repouso de idosos na região. O Dr. Meunier diz que essa quantia está longe de ser suficiente.

O prefeito Raoul Grondin admite os problemas que o Dr. Meunier e Suzanne Sastourne-Arrey descreveram em Les Oyats. “Contratamos um novo diretor que conhece as mudanças que precisam ser feitas”, informou ele em fevereiro de 2020.

Mas observou que essa casa de repouso não é diferente das outras, nem antes da Covid-19 nem depois. Com a população envelhecendo depressa no mundo inteiro, todos os lares para idosos enfrentam dificuldades semelhantes e têm de encontrar meios de resolvê-las, meios que assegurem financiamento adequado e funcionários qualificados em quantidade suficiente, com treinamento regular para incorporar práticas melhores.

“Sabe, contei uma mentirinha em minha carta ao prefeito”, revela Suzanne hoje. “Falei que tinha 99 anos em vez dos 97 que tinha na época. Era importante parecer muito velha e ainda capaz de escrever algo abertamente crítico, porque aí eles não poderiam ignorar a situação.” 

POR LISA FITTERMAN

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