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Publicado em: 1 de outubro de 2020

Mistério médico: Cansaço e perda de visão sem motivo

Confira mais um mistério médico que foi solucionado e surpreenda-se!

Imagem: Victor wong

Alguns casos intrigam até mesmo os médicos mais experientes. O caso médico abaixo certamente está nessa lista de mistérios médicos que intrigam os especialistas.

PACIENTE: Jerome, estudante de engenharia ((nome alterado para proteger a identidade)
SINTOMAS: Fadiga, problemas de audição e perda de visão
MÉDICA: Dra. Denize Atan, neuro-oftalmologista do Bristol Eye Hospital, em Bristol, no Reino Unido.

Jerome era um menino tranquilo de Bristol, na Inglaterra, que gostava de jogar videogame com os amigos, andar de skate e assistir a jogos de futebol com a família. Mas, com 14 anos, sua energia acabou. Ele começou a se deitar cedo. Nos passeios de bicicleta, tinha de parar e descansar. “Até em caminhadas ele ficava sem fôlego”, diz sua mãe, Mariel. “Isso me preocupou.”

Ela o levou ao médico, e o exame de sangue mostrou que Jerome tinha pouca vitamina B12; a deficiência poderia causar o cansaço. O médico receitou injeções da vitamina e sugeriu que ele fizesse uma alimentação mais equilibrada. Era um conselho complicado de seguir, porque Jerome sempre foi difícil para comer. Certa vez, numa viagem com a escola, ficou dois dias quase em jejum porque não gostou do que foi servido.

Leia também: Vitamina B12: descubra para que serve e a ingestão recomendada

Quando os problemas começaram

Com 15 anos, Jerome começou a ter dificuldade de ouvir o que os outros diziam. Sua visão também se deteriorava: ele segurava o celular mais perto do rosto para olhá-lo e costumava ampliar a tela para ler. O otorrinolaringologista não encontrou nenhum problema óbvio e o encaminhou a um oftalmologista para procurar indícios de doenças genéticas, porque algumas enfermidades herdadas podem causar os dois problemas. O otorrino também aconselhou o adolescente a baixar o volume dos fones, embora Jerome não tivesse o hábito de ouvir música alta.

Para o oftalmologista, os olhos de Jerome pareceram fisicamente saudáveis. Sem sinais de anormalidades nos olhos e nos ouvidos, os médicos de Jerome acharam que seus sintomas podiam se dever a ansiedade ou depressão. A família, convencida de que havia causa fisiológica, começou a achar que ninguém acreditava neles.

Os sintomas pioraram. Em 2017, Jerome, então com 17 anos, tinha de se sentar na frente da sala para ver o quadro e ouvir os professores. Certo dia, perdeu o ônibus de volta para casa porque não conseguiu distinguir o número.

Sem ideias, o oftalmologista sugeriu que Jerome consultasse a Dra. Denize Atan, especialista em problemas de visão causados pelo sistema nervoso.

A consulta com a especialista

Para a médica, o adolescente parecia saudável. “Tinha altura normal, só era um pouco pálido”, recorda ela. Mas havia uma perda no campo central da visão, problema que os óculos não corrigem. Na verdade, a visão de Jerome era tão ruim que ele já não conseguia identificar a letra de cima da escala optométrica. Atan também constatou que a percepção de cores estava reduzida. Geralmente, esse tipo de perda de visão é causado por um problema na mácula (parte central da retina) ou uma lesão do nervo óptico. Mas os dois pareciam saudáveis.

Atan fez um exame que envolve iluminar partes do olho para medir a espessura. Revelou-se uma pista que ainda não fora descoberta: o nervo óptico de Jerome era mais fino do que o normal. Quando Atan testou sua função com eletrodos, constatou que o nervo não funcionava direito. Em seguida, verificou que até os reflexos das articulações dos membros de Jerome eram anormais, indicando um problema neurológico generalizado.

Essas descobertas ajudaram muitíssimo, conta Atan.

“Há relativamente poucas coisas que causam problemas no nervo óptico e afetam a visão central. As mais comuns são as deficiências nutricionais.”

Doenças genéticas também podem gerar um quadro semelhante, e Atan enviou amostras para exames (que, meses depois, mostraram-se negativas para doença genética). Enquanto isso, Atan tentou outro exame muito mais simples: perguntou o que o rapaz comera nas últimas 24 horas.

A resposta de Jerome chocou Atan. Sua alimentação consistia principalmente em batata frita, batatinhas de pacote e carne processada. Uma vida inteira com dificuldade em aceitar alimentos fez com que Jerome perdesse aos poucos a tolerância à maioria das texturas da comida. Ele ingeria calorias suficientes para não emagrecer, mas havia anos não ingerira nutrientes essenciais.

Atan mandou Jerome fazer exames para eliminar a má absorção, mas tinha certeza de que a má alimentação era a culpada. Os exames de laboratório confirmaram que a B12 ainda estava baixa, assim como outras vitaminas do complexo B. Como esses nutrientes trabalham juntos para manter os nervos saudáveis, a combinação de deficiências teve um impacto devastador. “Se a situação avançasse mais sem tratamento, ele desenvolveria dificuldades de movimento e falta de sensação nas pernas”, explica Atan. “Os pacientes também podem apresentar problemas cognitivos e psicológicos.”

Jerome tinha deficiência de outros nutrientes, como vitamina D, que contribuiu para a perda de densidade óssea. Ele começou a tomar suplementos e consultou um nutricionista e um especialista em transtornos alimentares.

Leia também: Deficiência de vitamina D: estamos vivendo uma epidemia?

“Depois dos dias difíceis em que tentávamos entender, estou muito feliz porque o levamos à Dra. Atan”, diz a mãe. Embora talvez nunca voltem ao normal, a visão e a audição de Jerome não estão mais piorando. Ele usa aparelho auditivo e se adaptou.

A maioria dos médicos de família não costuma perguntar o que os pacientes comem, observa Atan. “Quando há muitos sistemas afetados e não se sabe o que está acontecendo, é fácil pensar em alguma doença genética desconhecida. Mas tudo pode estar ligado à nutrição, e quanto menos perguntamos sobre isso, mais ficamos sem saber!”

POR LISA BENDALL

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