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Publicado em: 15 de novembro de 2018

O caso Arthur: o paciente com Parkinson e formigamento doloroso

Diagnosticado com Parkinson, Arthur sofria com formigamentos dolorosos inexplicáveis nas pernas.

Imagem: Irina_Strelnikova/iStock

PACIENTE: Arthur (nome trocado para proteger a privacidade), contador aposentado, 64 anos

SINTOMAS: Formigamento doloroso na perna

MÉDICO: Dr. Philippe Huot, neurologista especializado em distúrbios do movimento, do Centro de Saúde da Universidade McGill, em Montreal

O Caso Arthur

Em 2004, Arthur recebeu o diagnóstico de doença de Parkinson, distúrbio progressivo do sistema nervoso mais conhecido por afetar o equilíbrio e os movimentos. Ele apresentava os sintomas, mas o que mais o perturbava era algo incomum: uma sensação excruciante de agulhadas na perna direita que começou alguns anos depois de a doença se manifestar. A dor constante tornava difícil dormir e caminhar, e a única coisa que trazia alívio momentâneo era uma ducha quente.

Um neurologista pediu que Arthur experimentasse um antidepressivo que às vezes pode aliviar o desconforto físico, e outro medicamento para dor neuropática, mas nenhum dos dois ajudou. Em 2014, Arthur foi encaminhado ao Dr. Philippe Huot, que hoje trabalha no Hospital e Instituto Neurológico de Montreal, Canadá.

A investigação do Dr. Philippe Huot

Huot ficou intrigado com o caso de Arthur. Alguns pacientes de Parkinson desenvolvem a síndrome das pernas inquietas, que causa uma sensação de arrepio desagradável. “Mas, em geral, isso ocorre nas duas pernas, e o movimento traz alívio”, explica ele.

Além disso, Huot soube pela mulher do paciente que ele também sentia tonteiras, cansaço, apatia e apresentava sinais de ansiedade e depressão. Passava os dias assistindo à TV e não via mais os amigos.

Arthur então se submeteu a um estudo de condução nervosa, que excluiu a possibilidade de danos aos nervos. Considerando que a dor de Arthur começou anos após o diagnóstico de Parkinson, Huot se perguntou se não seria um resultado da progressão da doença e aumentou a dosagem de levodopa; medicamento que ajuda o cérebro a produzir mais dopamina, deficiente em pessoas com Parkinson. “Não funcionou”, lembra Huot, mas pensar na medicação o colocou no caminho certo.

A descoberta de Huot

Huot descobriu que dez anos antes Arthur tomara medicamentos agonistas dopaminérgicos. Comumente receitados a pacientes de Parkinson, são suspensos com frequência, por causa dos transtornos do controle de impulsos (TCI) durante o tratamento. Os pacientes passam a jogar, comprar ou comer de modo compulsivo. Algumas vezes experimentam um efeito colateral peculiar conhecido como punding.

Na época, Arthur gastava muito com bilhetes de loteria e foi obrigado a parar a medicação – há exatos sete anos, quando a dor na perna começou.

Por causa dessa coincidência de tempo, Huot suspeitou de síndrome de abstinência dos agonistas dopaminérgicos (SAAD), recentemente identificada. Hoje os neurologistas, cientes dos TCI, estão mais propensos a reduzir os agonistas dopaminérgicos. Por conseguinte, está crescendo a conscientização de que um quinto ou mais dos pacientes que interrompem seu uso apresentam sintomas como o de Arthur, que às vezes perduram por anos.

A vida de Arthur após o tratamento

Como o tratamento para a SAAD é voltar à medicação, Huot prescreveu-a e pediu à mulher de Arthur que ficasse atenta a qualquer recorrência do comportamento impulsivo. Em duas semanas, o formigamento na perna de Arthur desapareceu, mas seus gastos descontrolados retornaram, e ele engordou quase 10 quilos. E, sempre que via uma caixa de lenços de papel, sentia-se compelido a tirá-los até esvaziar a caixa.

Huot reduziu a medicação e, apesar de Arthur sentir-se apático de novo, dessa vez foi menos grave. “Ele ficou livre da dor, e essa era sua principal preocupação”, diz Huot. “Achamos que o saldo foi positivo.”

Por Lisa Bendall

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