Às vezes você acha que está ficando louco, às vezes não. Isso acontece com todo mundo!

O problema é que, se a gente passa a achar que está ficando maluco, pode enlouquecer ainda mais de preocupação: Será que sou louco demais? Ou estou na média? Na faixa mais baixa? Só um pouquinho?

Pedimos a especialistas que analisassem novas perguntas dos leitores sobre comportamentos, pensamentos e temos que os preocupam. O resultado está aqui.

Em geral, quem tem consciência suficiente para questionar as próprias maluquices não perdeu a razão (ainda). Mas pense: minha idiossincrasia interfere na capacidade de levar a vida? Se inteferir, diz Alan Hilfer, diretor de psicologia do Centro Médico Maimônides, no Brooklyn, Nova York, “vale a pena um exame” com um profissional.

Do contrário, seu problema não é psiquiátrico. Você é só uma daquelas criaturas doidinhas e adoráveis que chamamos de seres humanos.

A hora das questões primordiais: a de dormir

Por que, quando tento adormecer, me sinto obrigada a resolver problemas como: “Se alguém pular da ponte Rio-Niterói, com que velocidade cairá na água?” Não é brincadeira. Tenho mesmo de me levantar e pegar a calculadora.

Louco, não, só exausto. A ironia é que problemas como esse eram o tipo de desafio matemático que deixava a maioria com sono. Mas isso não faz de ninguém um maluco, diz a psicoterapeuta Tina Tessina, autora de 10 decisões inteligentes que uma mulher deve tomar antes dos 40.

O xis da questão: “Você está usando o cérebro como bloco de rascunho”, diz ela. Durante o dia, todos fazemos isso – Comprar alpiste! Comprar alpiste! –, o que pode interferir na concentração, mas não nos impede de algo vital como dormir. À noite, sim.

No momento em que está começando a adormecer, você se lembra de algo que seu cérebro – agora sonolento e ilógico – acha que tem de resolver antes de esquecer. Porém, se houver papel e lápis junto à cama, você poderá escrever o problema e algo como “Resolver logo de manhã”. Esse bilhetinho lhe permitirá relaxar.

“Assim que souber que não vai esquecer, você não precisará ficar se lembrando que tem de agir”, explica Tina Tessina.

O planejamento fúnebre antecipado

Às vezes, quando o rádio toca uma música linda e triste, penso que seria legal tocá-la no enterro do meu filho caso ele morra jovem (Deus o livre!). Então começo a imaginar outros detalhes da cerimônia. Isso é loucura, não é?

Na verdade, não. A música consegue provocar emoções profundas, e canções tristes provocam – surpresa! – emoções tristes. Quando ouvimos, digamos, Adele, a tristeza nos inunda e logo os pensamentos vão rolando para os lugares profundos e deprimentes que geralmente evitamos. Lá bem no fundo se esconde o maior medo: a morte, principalmente a morte de um filho. Diante de uma emoção tão avassaladora, o cérebro tem de fazer alguma coisa para não se jogar no abismo.

Assim, ele transforma a dor num projeto – a ser organizado item a item – porque é algo com que conseguimos lidar, diz o Dr. David Reiss, psiquiatra em San Diego. Pensar logisticamente no enterro quase “tira dele a emoção”, explica. “Isso o torna suportável.”

Ah, mas e quando a tristeza provocada pela música escorrega para algo mais grave? “Não há soluções específicas”, diz o Dr. Reiss, “Mas, se a tristeza não passar e se você ficar inconsolável, talvez seja bom conversar com alguém, um amigo ou profissional.”

Mas antes desligue a Adele.

“Calma aí, cara, eu já fiz isso!”

Por que fico tão irritado no elevador quando alguém aperta o botão que já apertei?

Normalíssimo. 

“Ué, eu não apertei direito o botão?”

“Falando sério, você acha que vai fazer o elevador chegar mais depressa?”

“Apertar o botão! Mas que ótima ideia! Como é que não pensei nisso?”

Quando notamos alguém agir como se tivesse o único neurônio que resta no planeta, “observações sarcásticas passam pela nossa cabeça”, diz Judi Cinéas, terapeuta de Palm Beach, na Flórida.

Esses chiliques silenciosos refletem uma reação normalíssima de quem se sente criticado. Aqui, o que está errado é a ideia de ter sido criticado. O mais provável, diz o psicólogo Michael Woodward, “é ter sido uma ação impensada” de quem apertou o botão: puro hábito. O sujeito não o criticou, porque nem pensou em você. “O problema é ficar por aí pensando que tudo que os outros fazem é uma afronta a nós”, diz Woodward.

Um pouco de egocentrismo é completamente normal, como concordam os psiquiatras. E é principalmente compreensível no caso do botão do elevador porque você ficará muito perto da própria pessoa que o “criticou”. Mas, diz Judi, quem se irrita com quase todo o mundo que encontra, “pode ter algum problema; pode ser excesso ou falta de autoestima”. Excesso: todo mundo só pensa em você. (Não pensa.) Falta: você se acha invisível. (Não é.)

A solução? Bom, esse conselho não vem de nenhuma fonte de alto nível e talvez seja mesquinho, mas, no caso do elevador, aperte o botão de novo bem na frente do sujeito.

Você vai se sentir “dando o troco”.

 

“Sacola de tomate, sacola de queijo, sacola de leite. Ok. Está tudo aqui. Espera: sacola de tomate, de queijo…”

Quando passeio pela cidade, fico o tempo todo conferindo se estou com todas as sacolas e com todos os colares, se o celular está no bolso etc.

Provavelmente normal, com um pouquinho de TOC. Se você mora em uma cidade violenta, a polícia concordaria que isso não é maluquice. Mas o que você descreve pode ser TOC, transtorno obsessivo-compulsivo, diz David Solly, professor de psicologia da Universidade das Montanhas Rochosas. A “obsessão” é a crença ansiosa de que alguma coisa vai dar errado. A “compulsão” é a necessidade de praticar várias vezes alguma atividade para se assegurar de que não dará.

A simples repetição de um comportamento várias vezes por dia não significa que haja TOC. Por exemplo, lavar as mãos repetidas vezes durante a temporada de gripe geralmente é apenas um cuidado para não adoecer, diz o Dr. Reiss. Só passa a ser TOC se você se sente obrigado a praticar a atividade, às vezes com hora marcada, ou se fica ansioso caso não a pratique.

Experimente o seguinte para aliviar a ansiedade: caso se sinta obrigado a contar as sacolas de dez em dez minutos, diga a si mesmo que hoje você vai fazer isso de vinte em vinte minutos. E observe o que acontece depois, que em geral é… nada. O mundo não acaba e seu cérebro se dá conta desse fato maravilhoso.. Alguns dias depois, faça a conferência das posses a cada meia hora, depois espere cada vez mais.

Pode ser difícil conseguir isso sozinho, principalmente quando  há TOC;talvez seja bom consultar um terapeuta para orientá-lo. Muitas vezes nenhum remédio é necessário, apenas a prática, diz o Dr. Reiss.

“Dois ingressos para um show de fantoches? Não, muito obrigado!!!”

Tenho pavor de fantoches. Pronto, falei. Deveriam ser engraçados, mas me deixam apavorado. Não posso assistir a um teatrinho de fantoches sem me arrepiar todo. Por quê?

Comuníssimo. Por que você sente tanto medo? Porque fantoches são amedrontadores. Na verdade, esse medo é tão corriquei que até tem nome: pediofobia.

O problema dos fantoches – e das bonecas comuns e bonecos de ventríloquo (argh!) – é que ocupam o chamado vale da estranheza, a terra de ninguém entre vivos e não vivos, verdadeiros e falsos. “Embora não sejam reais, quando esses objetos parecem reais a mente pensa que são”, diz Tamar Chansky, do Centro de TOC e Ansiedade em Adultos e Crianças de Plymouth Meeting, na Pensilvânia. “Estão vivos? Estão mortos? Por que me olham assim? Todas essas experiências são desconfortáveis.”

Tamar recomenda um tratamento: uma disputa de olhares. Fite o objeto, começando do outro lado da sala; depois, vá se aproximando. “Você vai ficar com vontade de correr, mas aguente”, diz ela. “É possível desligar o alarme dizendo: não gosto de fantoches nem tenho de gostar, mas consigo conviver com a presença deles.”